O diabo veste abadá
No Carnafacul, o beijo na boca é um cumprimento mais comum que aperto de mão

POR RODOLFO VIANA

A manhã nem havia terminado quando a primeira garrafa de vodca foi aberta. Logo, o álcool empesteava os hálitos, desinibia os tímidos e produzia mais gritaria. Gente pedindo tequila, cantando, trocando de lugar, fazendo piadas, revivendo carnavais passados. Frases berradas se emendavam num sem-fim de "me passa o seu MSN eu não conheço seu primo vai mais devagar motorista coloca mais vodca no guaraná você já pegou quantos se alguém passar mal vomita fora do ônibus".

 "Você se importa se eu falar alto?", pergunta em grito uma morena que, pela idade, poderia ser minha filha (e, se minha filha fosse, eu proibiria aquelas roupas curtas!). Eu respondo qualquer coisa, mas ela não me ouve.

Eufóricos naquela manhã de domingo, os jovens com não mais de 20 anos falavam ao mesmo tempo, em voz alta. Berros entrecortados e goladas generosas de álcool eram o "esquenta". Papo não faltou, tampouco bebida: oficialmente havia no ônibus uma tequila, seis catuabas, dois vermutes, três vodcas, seis garrafas de refrigerante - com vodca - e uma tal de Boazuda, de origem duvidosa.

 Uma placa preta pendia de cima da portinhola do ônibus. Nela, a inscrição "Capacidade: 44 passageiros sentados" não fazia nenhum sentido para os 65 passageiros que se emaranhavam nas poltronas e no corredor do veículo, gargalos em riste. O ônibus era um dos quatro que vinham de São Caetano do Sul, no ABC, rumo à Arena Anhembi, palco do 5º Carnafacul, uma das maiores micaretas do estado de São Paulo.


Fazia sol no começo da tarde do dia 17 de maio. Nos passos que separavam o ponto final do Expresso Etílico e o portão de acesso, o cigarro custava R$ 7 e o melzinho de pinga ganhava tons multicolores. Cachaça technicolor, digamos. Duas meninas param o vendedor, compram chiclete e ignoram a pergunta: "Vão beijar muito hoje?". Elas apenas olham com ar de desprezo.

Beija-se muito, sim, senhor. Na festa, bocas anônimas se cruzam a todo instante. Não importa nome, idade, profissão, estado civil, carteira de vacinação em dia, pontos na habilitação de motorista, Carnê do Baú quitado. Nada importa, exceto o mínimo de beleza. "Tem que ser bonitinho", afirma Nanda, 16 anos completados no dia do Carnafacul. Duas horas de festa e três caras beijados depois, ela jura: "Eu não vim para a pegação. Mas eles me pegaram! Fazer o quê?"

Nanda diz que é seletiva. Ou seletiva é a memória, que a impede de lembrar como eram exatamente os rapazes? "Eu lembro que um era alemãozinho, de olho claro..." A amiga Lê dispara: "Você lembra de 'um'? Quer dizer que dos outros dois não lembra?" Ambas riem.

Lê fala chiado. Carioca da gema, a morena sardenta namora desde janeiro Rodrigo, o Magrão, um ano mais velho. Magrão gosta de reggae; Lê, de axé e pagode. Por isso, às vezes, eles saem sozinhos. A disparidade de gostos musicais trouxe ao Carnafacul uma Lê livre, leve, solta e com sotaque bom. "Carioca é malandra, mas vou na tranquilidade, tá ligado?" Ela garante fidelidade enquanto o namorado fica em casa. Nos idos de solteirice, porém, a história era outra: a menina caía na pista sem muitos pudores. "Mas nunca exagerei. Tipo, nunca peguei 20, 30 caras. Não, isso não."

Quantos por micareta? "Uns cinco. Às vezes, nem isso", conta ela. Eu penso na minha namorada: igualmente carioca, jovem e sozinha no Rio. Minha testa coça.

A paquera na micareta é uma sucessão de poses teatrais, de bem-me-queres com tons de mal-me-queres. Um jogo de fazde- conta caracteriza essa espécie de namorico en passant. Começa com os braços: o menino segura a menina, que faz cara de quem não quer. "Você é muito bonita", diz o garoto, mesmo que ela não seja; ela faz cara de desdém, mesmo que esteja a fim; "um beijo", pede o rapaz, mesmo que queira mais do que um beijo; ela nega, mesmo que queira; ele insiste e diz estar "no céu", mesmo que isso seja mentira; ela, enfim, cede. E de novo. E de novo.

 

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