EDIÇÃO 293 - AGOSTO 2009

O mundo das meninas cisnes

Investigamos os bastidores da São Paulo Fashion Week para saber o que fazem fora das passarelas as modelos que vivem de imagem, com muita badalação e pouca comida

POR FELIPE VAN DEURSEN
FOTOS PATRICIA STAVIS


Vestida com calça jeans e blusa preta que destoam do arranjo de flores na cabeça, Fabiane Nunes se apoia em uma arara (onde se pendura roupa) e arrasta o solado no carpete. É uma precaução para ela não acabar no chão da passarela. Esse medo é constante até mesmo entre modelos experientes como ela, que tem dez anos de flashes e glamour, mas também de expedientes que podem passar de 14 horas, comida requentada e tediosas esperas sentada no chão. O conforto é pouco, mesmo na maior semana de moda do Hemisfério Sul.

"Em desfile nada é simples", diz Fabiane. A loira, que se preparava para desfilar para a grife de biquínis Movimento, na última São Paulo Fashion Week, havia acabado de chegar de outro desfile. "Hoje serão dez horas de trabalho. Mas é tranquilo, não é como pedreiro, que trabalha debaixo do sol", compara. Ela pede licença para se maquiar, embora ainda falte mais de uma hora para entrar na passarela.

As modelos chegam de três a quatro horas antes do desfile. Se não têm algo para fazer enquanto esperam, passam o tempo como podem. Largadas e visivelmente cansadas, algumas se fecham em seus fones de ouvido, outras leem. Há as que ficam brincando de fazer caretas para as próprias câmeras digitais. Quando bate a fome, é difícil saber como é possível matá-la com aquelas saladas e massas servidas em minúsculos pratos de plástico.

Modelo na SPFW é invariavelmente alta, magra e bonita (boa parte tem o fator "exótico", como um punhado de sardas ou olhos levemente puxados). Jovens, vindas de várias regiões do país, elas têm gostos e trejeitos semelhantes.

A gaúcha Carolina Cipriano veio para São Paulo em um ônibus cheio de modelos. "Morei dez dias numa república só com modelos. Em dez dias ninguém falou comigo." Ela deixou o apartamento, mas não a carreira. Aos 17 anos, participou pela primeira vez da edição primavera/verão da SPFW, assim como a mineira Maíra Vieira, 21 anos. Vencedora do programa Brazil's Next Top Model, exibido no canal Sony, em 2008, ela espera sentada em um canto, com bobs no cabelo, seu próximo desfile, dali a duas horas. Conta que a rotina puxada do evento é normal. Um pouco diferente de um ensaio em que ela vestiu pedaços de carne - experiência fedida, lembra Maíra, que largou a faculdade por ser impossível conciliar trabalho com estudo. Ao lado dela, Naiane Witeck concorda. Concentrada no netbook apoiado no colo ("é mais leve que um livro"), ela lê Além do Bem e do Mal, de Friedrich Nietzsche. "Difícil de entender, mas muito bom", conta. A conversa é bruscamente interrompida quando alguém chega gritando com elas. Estão atrasadas.

Nos desfiles, imprevistos não são raros. As meninas lembram os micos com bom humor. Camila Mingori ficou seminua quando um vestido caiu na passarela. Renata Kuerten conseguiu enganchar o cabelo no de outra menina. Sem contar os tombos. Na própria SPFW, Nathalie Edenburg tropeçou e quase acabou no chão.

Momentos antes do desfile, Fabi Nunes, agora de biquíni, brinda champanhe entre gritos de "uhu" e "arrasa". O álcool é mais comum depois da passarela. Isso para quem aguenta. Uma modelo de pé e estática na coletiva de imprensa com a estilista francesa Sakina M'Sa desmaiou e foi discretamente removida pelo segurança. O incidente não afetou o curso do debate. A Fashion Week não para.

DATAVIP
VIP OUVIU 20 MODELOS NOS BASTIDORES DA SÃO PAULO FASHION WEEK
MÉDIA DE IDADE
19,05
ANOS


20%
SÃO DE SANTA CATARINA (O PRINCIPAL ESTADO DE ORIGEM)


2 TÊM SILICONE (200 ML)
3 COGITAM TER NO FUTURO


NENHUMA SE INCOMODA EM TROCAR DE ROUPA NA FRENTE DOS HOMENS
“Nem tem muito o que ver na gente, né?” – Fabiane Nunes


NO IPOD
25%

ESCUTAM ROCK
1 DISSE QUE ESCUTA GOSPEL
1 DISSE QUE ESCUTA MÚSICA
GAÚCHA
“Me faz lembrar de casa.” –Camila Mingori


55%
DELAS MORAM EM SÃO PAULO


40% DIZEM QUE NÃO BEBEM
25% DIZEM QUE BEBEM
35% DIZEM QUE BEBEM POUCO
“Tem modelo que gosta de desfilar bêbada, algumas acham melhor.” – Carolina Cipriano


60% JÁ TROPEÇARAM OU CAÍRAM NA PASSARELA. TODAS TIVERAM PELO MENOS UM MOMENTO EMBARAÇOSO EM UM DESFILE OU SESSÃO DE FOTOS

“Tropecei no cadarço do sapato, que foi parar fora da passarela, não tinha como pegar de volta.” – Cristina Jurach
“Pior que usar biquíni na neve é usar casaco de pele em Florianópolis. Minha pressão caiu, passei mal no meio da foto.” – Janaína Santos

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