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Vestida com calça jeans
e blusa preta que destoam
do arranjo de
flores na cabeça, Fabiane
Nunes se apoia
em uma arara (onde se pendura roupa)
e arrasta o solado no carpete. É
uma precaução para ela não acabar
no chão da passarela. Esse medo é
constante até mesmo entre modelos
experientes como ela, que tem dez
anos de flashes e glamour, mas também
de expedientes que podem passar
de 14 horas, comida requentada e
tediosas esperas sentada no chão. O
conforto é pouco, mesmo na maior
semana de moda do Hemisfério Sul.
"Em desfile nada é simples", diz Fabiane.
A loira, que se preparava para
desfilar para a grife de biquínis Movimento,
na última São Paulo Fashion
Week, havia acabado de chegar de outro
desfile. "Hoje serão dez horas de
trabalho. Mas é tranquilo, não é como
pedreiro, que trabalha debaixo do sol",
compara. Ela pede licença para se maquiar,
embora ainda falte mais de uma
hora para entrar na passarela.
As modelos chegam de três a quatro
horas antes do desfile. Se não têm algo
para fazer enquanto esperam, passam
o tempo como podem. Largadas
e visivelmente cansadas, algumas se
fecham em seus fones de ouvido, outras
leem. Há as que ficam brincando
de fazer caretas para as próprias câmeras
digitais. Quando bate a fome, é
difícil saber como é possível matá-la
com aquelas saladas e massas servidas
em minúsculos pratos de plástico.
Modelo na SPFW é invariavelmente
alta, magra e bonita (boa parte tem
o fator "exótico", como um punhado
de sardas ou olhos levemente puxados).
Jovens, vindas de várias regiões
do país, elas têm gostos e trejeitos semelhantes.
A gaúcha Carolina Cipriano veio
para São Paulo em um ônibus cheio
de modelos. "Morei dez dias numa
república só com modelos. Em dez
dias ninguém falou comigo." Ela deixou
o apartamento, mas não a carreira.
Aos 17 anos, participou pela primeira
vez da edição primavera/verão
da SPFW, assim como a mineira Maíra
Vieira, 21 anos. Vencedora do programa
Brazil's Next Top Model, exibido
no canal Sony, em 2008, ela espera
sentada em um canto, com bobs no
cabelo, seu próximo desfile, dali a duas
horas. Conta que a rotina puxada do
evento é normal. Um pouco diferente
de um ensaio em que ela vestiu pedaços
de carne - experiência fedida,
lembra Maíra, que largou a faculdade
por ser impossível conciliar trabalho
com estudo. Ao lado dela, Naiane Witeck
concorda. Concentrada no netbook
apoiado no colo ("é mais leve
que um livro"), ela lê Além do Bem e
do Mal, de Friedrich Nietzsche. "Difícil
de entender, mas muito bom",
conta. A conversa é bruscamente interrompida
quando alguém chega
gritando com elas. Estão atrasadas.
Nos desfiles, imprevistos não são
raros. As meninas lembram os micos
com bom humor. Camila Mingori ficou
seminua quando um vestido caiu
na passarela. Renata Kuerten conseguiu
enganchar o cabelo no de outra
menina. Sem contar os tombos. Na
própria SPFW, Nathalie Edenburg
tropeçou e quase acabou no chão.
Momentos antes do desfile, Fabi
Nunes, agora de biquíni, brinda champanhe
entre gritos de "uhu" e "arrasa".
O álcool é mais comum depois da passarela.
Isso para quem aguenta. Uma
modelo de pé e estática na coletiva de
imprensa com a estilista francesa Sakina
M'Sa desmaiou e foi discretamente
removida pelo segurança. O incidente
não afetou o curso do debate.
A Fashion Week não para. |
DATAVIP
VIP OUVIU 20 MODELOS NOS BASTIDORES
DA SÃO PAULO FASHION WEEK
MÉDIA DE IDADE
19,05 ANOS
20%
SÃO DE SANTA CATARINA (O
PRINCIPAL ESTADO DE ORIGEM)
2 TÊM SILICONE (200 ML)
3 COGITAM TER NO FUTURO
NENHUMA SE INCOMODA EM
TROCAR DE ROUPA NA FRENTE
DOS HOMENS
“Nem tem muito o que ver na gente,
né?” – Fabiane Nunes
NO IPOD
25%
ESCUTAM ROCK
1 DISSE QUE ESCUTA GOSPEL
1 DISSE QUE ESCUTA MÚSICA
GAÚCHA
“Me faz lembrar de casa.” –Camila Mingori
55%
DELAS MORAM EM SÃO PAULO
40% DIZEM QUE NÃO BEBEM
25% DIZEM QUE BEBEM
35% DIZEM QUE BEBEM POUCO
“Tem modelo que gosta de desfilar
bêbada, algumas acham melhor.” –
Carolina Cipriano
60% JÁ TROPEÇARAM OU
CAÍRAM NA PASSARELA. TODAS TIVERAM
PELO MENOS UM MOMENTO
EMBARAÇOSO EM UM DESFILE OU SESSÃO DE FOTOS
“Tropecei no cadarço do sapato, que foi
parar fora da passarela, não tinha como
pegar de volta.” – Cristina Jurach
“Pior que usar biquíni na neve é usar
casaco de pele em Florianópolis. Minha
pressão caiu, passei mal no meio
da foto.” – Janaína Santos |