EDIÇÃO 293 - AGOSTO 2009

Hall da fama do sexo no cinema

Quais são os maiores clássicos da união de cinema e erotismo? Formamos um júri VIP de especialistas para apontar os melhores, levando em conta enredo, fotografia, importância e, claro, as transas

POR CARLOS MESSIAS

O último tango em Paris

Não parece que eles estão cantando um tango em Paris?

Anticristo, filme de arte com cenas de terror e sexo explícito, criou escândalo na Europa e tem estreia prevista para agosto no Brasil. A nova obra do diretor dinamarquês Lars von Trier (que fez os cultuados Dançando no Escuro e Dogville) foi esculachada no Festival de Cannes - até recebeu um "antiprêmio" do júri oficial, algo sem precedentes. As cenas de penetração foram avaliadas pela crítica como meramente apelativas. Por pior que o filme seja, a polêmica de Anticristo reacendeu uma união que andava rara: a do cinema com erotismo sem pudor. Nessa área, grandes obras já foram feitas desde os anos 70, dos filmes altamente intelectuais aos pioneiros do pornô. Decidimos apontar quais as melhores e reunimos um júri de especialistas (veja quadro abaixo). Cada um escolheu cinco filmes (não necessariamente com sexo explícito) cuja qualidade se sustenta no enredo, nos enquadramentos de câmera, no impacto cultural e nos atos sexuais que retratam ou sugerem. Não determinamos pontuação nem ranking. Preferimos indicar os mais votados de acordo com um determinado estilo.

FILME COMERCIAL QUE VAI FUNDO
O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972), de Bernardo Bertolucci

"Mostra o confinamento de um casal e o isolamento dos dois protagonistas em uma relação sexual intensa que rompe todos os limites."
(Heitor Dhalia, diretor)

O último tango em Paris

Tanto cacho para pentear...

Ponto alto: a cena da manteiga. O personagem quarentão interpretado pelo grande Marlon Brando utiliza o laticínio como lubrificante para fazer sexo anal com a parceira, interpretada por Maria Schneider.
Alerta vermelho!: ritmo lento e filosófico que não é para todos os gostos.
Importância: abriu as portas do cinema comercial para o erotismo. A história de um viúvo quarentão e desiludido que tem um envolvimento estritamente sexual com uma mocinha bem mais jovem foi o escândalo dos anos 70. Acusado de ser "pornografia disfarçada de arte", foi proibido em vários países, inclusive no Brasil (onde só foi exibido sem cortes em 1987). O diretor Bernardo Bertolucci chegou a ser condenado a quatro meses de prisão por obscenidade na Itália. Em compensação, concorreu ao Oscar de melhor diretor graças a este filme.
Ideal para: assistir com sua gata.

 

 

 

O último tango em Paris

PORNÔ CLÁSSICO
GARGANTA PROFUNDA
(1972), de Jerry Gerard
"O sexo oral da Linda Lovelace é inconfundível, não tem para ninguém."
(M. Max, diretor de filmes da produtora Brasileirinhas, a principal do ramo pornô no país)

Ponto alto: as cenas de felação a que a personagem interpretada por Linda Lovelace se dedica depois que descobre que tem o clitóris na... garganta!
Alerta vermelho!: o figurino e os cortes de cabelo dos anos 70 não são nada excitantes.
Importância: lançou a moda pornô-chique, que levou a classe média americana aos cinemas para ver um gênero antes marginalizado. Também foi um dos primeiros pornôs assumidos a ter enredo, algum humor e uma infraestrutura razoável. Estima-se que tenha obtido um lucro de US$ 600 milhões, o que o torna um dos filmes (de qualquer gênero) mais rentáveis da história. Seu impacto foi tanto que o informante secreto do escândalo Watergate (que acabou derrubando o presidente Richard Nixon em 1974) foi apelidado de Garganta Profunda - ou Deep Throat, no original.
Ideal para: dar boas risadas, pelo menos - mas, se sua gata topar assistir, pode inspirar uma brincadeira ótima depois.

O último tango em Paris

SEXO POP
9 CANÇÕES (2004), de Michael Winterbottom
"Foi o primeiro filme com cenas explícitas a passar no grande circuito inglês. Trata o sexo como coisa que gera suor, fluidos... e prazer." (Marçal Aquino, roteirista)

Ponto alto: o casalzinho que se conhece num show não perde tempo nem muitas palavras para transar sem parar. E ir a mais shows de bandas legais. Ou seja, um filme repleto de sexo e música boa.
Alerta vermelho!: tem cena de ejaculação sem disfarces.
Importância: chamado de "o filme convencional mais explícito já feito" pelo jornal inglês The Guardian, conseguiu escapar da classificação de pornô em países com censura mais rígida. Suas cenas são cruas e diretas, com penetração, sexo oral, masturbação com vibrador e ejaculação. É basicamente um filme de jovens com muita música pop (há cenas de shows das bandas Primal Scream, Franz Ferdinand, Black Rebel Motorcycle Club e Dandy Warhols), com a diferença de que a ação entre o par romântico não fica só nos beijinhos e amassos.
Ideal para: ouvir a trilha sonora e imitar as cenas com a gata.

O último tango em Paris

CINEMA-ARTE OCIDENTAL
SALÒ - OS 120 DIAS DE SODOMA (1975), de Pier Paolo Pasolini
"Um autêntico 'vestibular' de tolerância com cenas extremas que podem tanger tanto o sublime quanto o asqueroso. Único filme 'sério' que eu incluiria numa seleção de clássicos da pornografia."
(Carlos Reichenbach, diretor)

Ponto alto: a maioria das cenas tem mulheres peladas e várias formas de sexo. Tudo isso a serviço de uma crítica política do diretor.
Alerta vermelho!: aparecem vários homens pelados, e várias cenas têm uma brutalidade de embrulhar o estômago.
Importância: cineasta cultuado e politizado, Pasolini imaginou o clássico livro do Marquês de Sade acontecendo na Itália sob a ditadura fascista de Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial. Pessoas poderosas sequestram nove garotos e nove moças para submetê-los a 120 dias de tortura, humilhação e sacanagem. Quando foi lançado, cenas mais brutais causaram desmaios e vômitos. Três meses depois da estreia, Pasolini foi misteriosamente assassinado.
Ideal para: dizer que assistiu numa roda de papo-cabeça.

O último tango em Paris

CINEMA-ARTE ORIENTAL
O IMPÉRIO DOS SENTIDOS (1976), de Nagisa Oshima
"Um dos primeiros filmes de sexo explícito a ser exibidos no Brasil, ficou coisa de um ano em cartaz. Permite não só sentir o tesão que existia entre os dois protagonistas, como se contagiar pela paixão que eles viveram." (José Mojica Marins, o Zé do Caixão)

Ponto alto: os experimentos sexuais apaixonados de uma camareira de Tóquio com seu chefe.
Alerta vermelho!: o pênis do protagonista é mutilado numa cena que acabou mais famosa que o próprio filme.
Importância: a história de uma relação sensual carregada de mórbida obsessão se baseou no caso da japonesa Sada Abe, famosa por matar o amante e depois carregar seu pênis e testículos numa bolsa por muito tempo. Para montar o filme do jeito que pretendia, o diretor Oshima teve de ir para a França para driblar a rígida censura do Japão dos anos 70. Lotou cinemas no Ocidente, mas só foi exibido na íntegra nos cinemas japoneses em 2001.
Ideal para: ver com sua gata e dizer que assistiu numa roda de papo-cabeça.

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