Do gato Fritz à barata de Kafka
Sessenta anos e mais de 6 mil quilômetros separam o escritor Franz Kafka do desenhista Robert Crumb. Enquanto o primeiro viveu sob a ameaça do nacionalismo exacerbado no Império Austro-Húngaro, numa época em que judeus como ele eram odiados, o segundo viu nascer e padecer o movimento hippie e a doideira dos anos 1960 e 1970. Tão diferentes e tão iguais: ambos têm sociofobia e suas obras trazem a sociedade na visão de quem está do lado de fora. Deve ser por isso que Crumb achou adequado "adotar" Kafka na sua fauna de personagens. O resultado é a biografia escrita por David Zane Mairowitz e ilustrada por Crumb, Kafka de Crumb (Desiderata, 184 páginas, R$ 39,90). A obra contempla a infância do escritor, a forma como digeriu o medo do pai e, na vida adulta, como transformou esse pavor em clássicos da literatura como A Metamorfose e O Processo. Um dos destaques é a descrição da morte de Kafka, que teve tempo de corrigir as provas do conto Um Artista da Fome antes que a tuberculose e a inanição acabassem com sua vida. Kafka é um exemplar de luxo na coleção de Crumb. Se fosse a barata na qual Gregor Samsa (personagem de A Metamorfose) se transformou, estaria alfinetado ao lado de outras espécies importantes, inclusive Deus. Muitas delas têm um pouco de Crumb. Conheça dois dos personagens mais célebres.
Fritz the Cat: o gato boa-vida, que só pensa em drogas e sexo, foi originalmente criado em 1959, época em que Crumb, com 16 anos, não tinha amigos e nenhuma vida sexual. Fritz the Cat era aquilo que Crumb gostaria de ser naquele momento. Lançado em tiras em 1965, o gato tarado ganhou as telas em 1972 e foi o primeiro desenho animado na história a ser tarjado de "impróprio para menores". Fritz the Cat
Conrad
136 páginas | R$ 40
Mr. Natural: com uma barba que chega aos joelhos, Mr. Natural é um charlatão que se diz guru e prega o mal da modernidade e a vida em comunhão com a natureza. Tem aforismos para qualquer ocasião. Quando perguntado "qual é o significado da vida", a resposta comum é: "Ela não significa m*rda nenhuma". A primeira aparição deste guru doidão foi em 1967, quando Crumb estava na onda do LSD.
Mr. Natural
Conrad
120 páginas | R$ 32
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