| Chuva sobre o Rio de Janeiro parece sacanagem,
conspiração. Ainda mais para os olhos de um paulista.
Da poltrona 21A, no último voo daquela sexta-feira de
volta para casa, eu pensava que poucas vezes tive a
sensação de, na frente de uma mulher tão famosa, tão
radiante, estar diante de alguém tão próximo, comum,
como diante dela que anda pelo Leblon como uma local
da era pré-hollywood brasileira, mas que ainda me
cumprimenta com apenas um único beijo, como uma
velha e boa paulista de Jaboticabal. Eu pensava e ouvia
sua voz no gravador para ter certeza de que tudo aquilo
que ela acabara de dizer em entrevista havia fi cado
mesmo registrado, quando o A200 enfim venceu as
nuvens chuvosas e negras... e de repente não importava
mais: diante de mim, a iluminar as diminuídas luzes da
cabine surgiu a maior e mais linda Lua cheia do mundo.
E era a última do ano. E decidi, naquela hora, que
começaria esta entrevista, contando a última vez que vi
a Lua cheia em 2008. E contei, pronto!
POR CELSO MIRANDA
Sabe que, olhando daqui, nem dá pra imaginar que você é a mesma
de que todo mundo falou, discutiu,
polemizou, nestes últimos meses?
Está tudo em paz agora?
Agora está. Sabe, na minha vida essa época [a entrevista foi feita no finalzinho
de dezembro] costumo fazer um
balanço das coisas, do ano, da vida,
né, e tenho visto que esse foi um ano
de coisas muito boas e coisas muito,
muito ruins. Mas que, no final,
o que vai ficar como saldo desses dois últimos meses é algo muito bom.
Sério?
Claro. Foi bom sim. Isso tudo foi bom
para descobrir os meus limites. Para
deixá-los claros comigo mesma, sabe?
Sempre tive problemas com meus
limites, sempre tendo uma reação
meio... sei lá... de defesa quando eu
sinto que um deles vem chegando.
Mas sempre fui uma pessoa de ir até onde posso, sem medo de testar o
alcance das minhas chances. Sempre
foi esse o jeito que aprendi a superar a
mim mesma, meus medos, meus limites.
Desde quando aprendi sozinha a
andar de perna-de-pau em Jaboticabal,
no interior de São Paulo, depois
no teatro amador, no cinema e agora
produzindo meu próprio espetáculo,
no teatro sozinha no palco, me reinventando
sempre. E esse ano todo
foi assim. Profissionalmente foi assim.
E no meu relacionamento assim.
Foi duro. Mas descobri limites.
Foi bom poder dizer: daqui não passo,
isso não aceito, assim estou fora.
Quer comentar um desses limites?
Quando resolvi denunciar a agressão,
né? Resolvi que não podia conviver com
aquilo. Sabia que minha vida ia mudar,
que as pessoas iam me ver diferente e
iam me cobrar. Vi que ia ser difícil enfrentar,
mas simplesmente percebi que seria
impossível continuar com aquilo. Que
aquele era o meu limite para continuar
sendo a pessoa que eu sou.
E se arrepende?
Claro que não. Me sinto bem, me sinto ótima comigo mesma. Sinto que descobri
muito sobre mim mesma.
E agora estou ótima. Não estou?
Você falou que sabia que ia
enfrentar um monte de problemas
ao fazer a denúncia. Que tipo de
problemas?
Ah, de gente aproveitadora que passa
a inventar tudo quanto é tipo de história
sobre você. De gente que toma partido
sem conhecer você. Ah, deixa pra
lá vai... eu não aguento mais essa história.
A minha não é essa. A minha não é ficar dando corda para essa gente.
Sua vida de pessoa famosa
sempre te incomoda?
Mas eu não acho que tenho uma vida
de pessoa famosa. Tenho uma vida só.
"Sabe o papo de pegar os limões que te dão e fazer limonada? Pois é. Limão é azedo paca e os caras me jogaram um saco inteiro na cabeça. Mas deu suco pra caramba e estava uma delícia... (e passa a mão sobre o abdômen rijo). O sofrimento não faz bem não, mas a vontade de reagir, de deixar ele pra trás, ah... isso faz!"
Não há uma dificuldade em ser
ator ou atriz e separar a vida da
interpretação. Você consegue
viver sua vida? Ou, melhor, você consegue viver bem a vida como
Luana, não se sente como se
interpretasse um personagem?
Acho que todo mundo se sente um personagem, às vezes. Mas eu não deixo de
viver minha vida. Trabalho, vivo do meu
trabalho, pago minhas contas, faço
compras, namoro, dou minhas cabeçadas,
mas corro atrás e no final do dia
vou pra casa e durmo bem, com a consciência
limpa, limpinha. Famosa ou
não, a Luana sou eu, não foi escrita
por alguém, inventada por ninguém.
E a imprensa? Como você lida
com o fato de a imprensa
sempre estar no seu pé?
Bom, voltamos a falar de limites.
Deixa eu tentar explicar: veja o exemplo
da minha peça, a Pássaro da Noite (propagandinha... hehe). Eu me exponho
pra caramba na peça. Não só no
palco, porque resolvi fazer um monólogo,
que é diferente de tudo o que eu
já tinha feito, mas porque sou a produtora,
sou eu quem correu atrás da
grana dos patrocinadores para o projeto
e tudo o mais. E aí no meio de tudo,
o mundo caiu na minha cabeça e,
profissionalmente, eu tinha que ir lá,
como atriz e produtora e atender a
imprensa e divulgar o trabalho que
não é só meu, é de todo mundo.
Sei que muito do sucesso final da
peça decorre dessa exposição pessoal.
Mas, se dependesse do meu desejo,
ficava afastada das luzes e microfones
e não enfrentaria tanta entrevista.
Ficava com minha turma, fazendo o
que gosto, saindo depois da peça
pra jantar, tomar chope, baladinha...
Então é conta sem solução? O
artista precisa da imprensa, mas
só a deseja até certo limite...
Até o limite da informação. Da verdade.
Não vale ficar inventando, sobre
a vida da gente. São os jornalistassem-
noção, os que criam histórias
para vender como “realidade” todos
os dias nos sites e jornais, ou todas as
semanas nas revistas. Eles precisam
do espetáculo, dos escândalos, das
fotos não autorizadas, mas minha
vida não é tão sensacional assim.
A maioria do tempo eu trabalho, vou
para academia, pago minhas contas,
ensaio, trabalho mais um pouco, me
divirto menos do que gostaria, ensaio
mais um pouco, durmo menos do que
deveria, e aí começa tudo de novo.
Mas os caras da roteirização da
minha vida não dão sossego e têm
que inventar aqui e ali, apimentar
o troço, e aí nascem os exageros.
Como você quer que te vejam?
Como eu sou, ué. Como alguém simples
que ama o teatro, alguém dedicada
e batalhadora. Simpática e feliz,
que respeita os seus limites e os limites
dos outros. Eu sou humilde, simples
pra caramba, dessas que para pra
conversar com o tiozinho que abre a
porta e faz amizade na ponte aérea,
você viu, né? E as pessoas têm uma
imagem completamente diferente
de mim, às vezes oposta, mesmo.
E por que será?
Porque quem forma a opinião delas
são os fofoqueiros de plantão.
As pessoas que não me conhecem.
A maioria lê sobre mim nas revistas
de fofoca. E para essa gente eu não
dou bola, não puxo o saco, não
mando presentinho e também não
paro no meio da rua pra contar qual
a marca da roupa que estou usando,
tenha paciência. Aí, eles vão lá e
falam mal de mim, que eu sou arrogante.
E é essa imprensa que forma a
opinião, e na qual o povo acredita.
Acho que não fazer parte do rebanho
agride as pessoas. As pessoas confundem
não-conformismo com arrogância.
Onde já se viu, nos dias de hoje
querer ser um indivíduo, insistir em ter
uma opinião formada apenas por
suas convicções mais íntimas e humanas.
Onde já se viu acreditar que respeito
se conquista com trabalho...
Você se preocupa com imagem
que fazem de você?
Eu deveria, né? Eu sei. Às vezes penso
que vai chegar a hora que vou sacar
que não adianta reclamar, a hora de
se adaptar ao mundo e entregar os
pontos. Mas, por enquanto, eu acho
que o preço a pagar para ser quem eu
sou ainda vale o preço que eu teria
que pagar por não ser quem eu sou.
Qual desses sentimentos hoje
você tem de sobra: bondade?
Generosidade? Lealdade?
Amizade? E sua capacidade
de perdoar, como anda?
Ah... Eu sou tanto amor. Sou tanto
amor, que de mim ele transborda.
Sou muito amiga dos meus amigos.
E amo e amo tanto, amo e amo sempre
muito, num sentimento intenso e profundo.
Sempre generoso, sempre leal e
dedicado. Mas às vezes esse sentimento
se magoa também intensa e profundamente.
A aí, a cicatriz dói uma dor
viva. Sabe, o “atiraste uma pedra...”
" Tudo o que eu passei me deixou mais forte, mais bonita e, olha, até mais gostosa!" |