Envelhecer é uma dádiva

Envelhecer é uma dádiva

Pouca coisa no mundo é mais desprezível do que mentir a própria idade para menos. Por que alguém há de querer se mostrar menos experiente do que realmente é?

Por: as 5:45 pm em 07/06/2013


Envelhecer é uma dádiva

Envelhecer é uma dádiva

Envelhecer é uma dádiva

Sei que há gente que mente sobre a idade que tem, claro. O que me surpreende é que mintam para menos. Parece modéstia. É como se dissessem que têm menos dinheiro do que têm de fato, ou mentissem que nunca saíram do país, ou que são virgens. Que alguém queira passar por menos experiente do que é me parece inconcebível. Cada experiência, por ridícula que tenha sido, cada noite mal-dormida, cada década de subempregos, devia ser motivo de orgulho. Devíamos mostrar nossas rugas como um soldado veterano mostrando cicatrizes. “Consegui esta ruga fazendo uma viagem chata para a Disney em 1987… Esta outra aqui foi por ter vendido a preço muito baixo o meu Ford Landau Galaxy em 1985…”

Li uma vez que na China é o contrário, e as pessoas sempre aumentam a própria idade, muitas vezes incluindo os nove meses de gestação na conta. Se for verdade, diminuo agora mesmo meu desprezo por todo o continente asiático. Alguma coisa eles fazem certo, aparentemente.

Portanto, comemore os seus aniversários com gosto, e entre na meia-idade e na velhice como quem entra devagar numa banheira quente depois de um longo dia infernal. Juventude é para maricas. Sorria, deixe as suas células morrerem. Entre contente para o seleto time dessas nobres e românticas figu¬ras, o tiozão de calçada (grande amigo dos taxistas do bairro) e o senhor vagamente fascista que vai à padaria de sandália e pijama.

Dou cinco razões pelas quais ficar mais velho não é ruim. Com exceção da segunda, que experimento todos os dias, só testemunhei as outras de longe, porque afinal tenho só 43. Mas felizmente o dia em que porei tudo isso à prova está cada vez mais perto.

Ápice da civilização
Alguém relativamente jovem, de terno, pode até ser elegante. Mas isso é uma raridade: geralmente só parecem seguranças de shopping ou rapazes indo para uma entrevista de emprego. A verdadeira elegância só pode ser alcançada por velhinhos. Penso nos velhinhos italianos ou negros que aparecem com ternos levemente excêntricos em blogs de moda masculina, mas a verdade é que todo velhinho de terno – até mesmo os que estão usando ternos folgados demais e manchados de sopa e os que andam por aí de braguilha aberta – representa o ápice da civilização na Terra. Camponeses da Sicília de 89 anos, pastores do Alentejo de 75, de terno, boina e cajado: todos eles parecem mais civilizados que um professor de poesia francesa de 26 anos usando gola rulê e tocando Mozart numa ocarina.

Passe livre em blitze
Polícia não para gente de cabelo branco. Estou com a carta vencida desde 2008, e não dirijo sóbrio desde 2005, e no entanto passo tranquilo e sorridente por todas as blitze da polícia sem que o meu coração dê sequer uma acelerada de meio segundo. Pelo contrário, praticamente entro em alfa de tão calmo. Ajuda que além do cabelo branco, uso óculos. Posso passar com o carro bem devagar ao lado do policial, olhando diretamente nos seus olhos enquanto rosno com um braço decepado de ciclista entre os dentes, que nem assim ele vai me parar.

Liberdade de falhar
Digamos que você tenha mais que 60, o que mais ela podia esperar? Falhar na cama com essa idade não deve ser mais embaraçoso que soltar um pequeno arroto, ou estar com uma remela esquecida no olho. Dê de ombros e siga em frente. Deve ser uma liberdade enorme, um motivo para uma dança perpétua de alegria velhusca. (Outro motivo de alegria: poder tomar Viagra sem vergonha nha, até avisando em voz alta o que vai fazer, digamos num restaurante lotado: “Ih, meu Viagra caiu no chão. Ia tomar junto com o Dormonid. Moça, pega esse Viagra que rolou aí para baixo? Essa pílula azul aí. É Viagra.”)

Vaga de idoso
Sim, a Terra Prometida dos velhos, a Nárnia dos esclerosados: a cobiçada vaga de idoso do shopping. Finalmente você vai poder parar onde sempre parou. Chega de se sentir culpado por ocupar uma vaga de idoso – e você se sente culpado, eu sei, mesmo quando vê que há acres inteiros de vagas de idosos desocupadas (sempre há). Da mesma forma, pegue tranquilamente a fila de idoso no banco, mesmo estando com uma saúde de Capitão América. Pode passar direto por todos os jovens ulcerosos, dispépticos, diabéticos, caspentos, sifilíticos e gonorreicos esperando trêmulos nas filas, ignorando os seus olhares cheios de ódio, e vá direto para o seu caixa vazio, com suas panturrilhas bem torneadas de senhorzinho atlético.

Sem amarras sociais
A velhice sendo o oposto espiritual da adolescência, você estará livre pela primeira vez na vida para dizer “Dane-se a opinião dos outros” (se disse antes, estava mentindo). É o momento de usar roupas de cores berrantes, falar sozinho se der vontade, insultar quem você quiser insultar, dar bengaladas, dormir no meio de conversas chatas e até mesmo fazer fom-fom nos peitos das amigas das suas netas. Se você sempre foi feio, verá que pela primeira vez as mulheres recebem com sorrisos os seus flertes. E que elas flertam de volta. É verdade que você sabe que não vai passar disso, mas pela primeira vez na vida os seus avanços amorosos serão bem recebidos pelo sexo oposto. E isso deve valer alguma coisa. /

*Alexandre Soares Silva, escritor, publica este ano o romance A Alma da Festa.

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Por: em 07/06/2013

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