25 segundos do resultado lendário

A Nike queria desafiar os limites do corpo humano, e o Queniano Eliud Kipchoge ficou a menos de 30 segundos de conseguir o feito

Este tempo certamente está martelando na cabeça do maratonista queniano Eliud Kipchoge. Apenas 25 segundos separaram o atleta de uma das maiores obsessões da história dos esportes de corrida: completar uma maratona em menos de duas horas. Kipchoge e outros dois esportistas de elite fizeram parte de um projeto criado pela Nike no ano passado, o Breaking2, cujo objetivo era quebrar essa barreira. No último dia 6 de maio, no Autódromo de Monza, na Itália, os três fundistas correram os 42,195 quilômetros de uma maratona. E 25 segundos – mais ou menos o mesmo tempo que você levou para ler este texto até aqui – foi o que Kipchoge excedeu da meta. Veja como a Nike quase conseguiu fazer um homem correr uma maratona em menos de 120 minutos – e por que não ter conseguido não significa necessariamente um fracasso

A barreira das duas horas na maratona é uma daquelas metas fascinantes do atletismo, tanto quanto eram os 10 segundos nos 100 metros. E a maratona é a prova com maior número de quebra de recordes, desde que estes foram oficializados pela Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo), em 2004. O atual, de 2:02:57 (duas horas, dois minutos e 37 segundos), pertence a Dennis Kimetto, também queniano, que o conquistou em setembro de 2014, durante a Maratona de Berlim.

Para percorrer 42,195 quilômetros em menos de duas horas, é preciso que o atleta corra a 21 km/h o tempo todo. Não é difícil alcançar a velocidade. O desafio é mantê-la por 120 minutos consecutivos. “Para correr uma maratona em menos de duas horas é necessária uma combinação perfeita de fatores, e vários não são permitidos pelas federações que acompanham as modalidades, como muitas descidas no percurso, rota com mão única com vento a favor, pacers [ou ‘coelhos’, atletas que correm na frente e ajudam a manter o ritmo] que se alternam e carboidrato entregues em mãos”, afirma o pesquisador Mike Hahn, do Departamento de Fisiologia Humana da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos. “Um artigo publicado no periódico Sports Medicine calcula toda forma de economia de energia possível para produzir um pace, o ritmo médio da corrida, mais rápido. Com uma interpretação liberal do regulamento da Iaaf, isso pode ser feito dentro dos limites legais do esporte. Para resumir o trabalho, uma ‘sub-2h’ pode ser conseguida por um superatleta de elite usando tênis 100 gramas mais leve que a média, com ‘coelhos’, um vento a favor de 6 m/s e um declive de 42 metros na segunda parte do percurso.”

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Os tecnológicos Kipchoge, Tadese (de cinza) e Desisa (de branco) (Nike/Divulgação)

Foi em estudos como esse que o time do Breaking2 se debruçou. A equipe é multidisciplinar e conta com engenheiros, designers, biomecânicos, fisiologistas, nutricionistas e pesquisadores de materiais.

Tudo sob controle

O fisiologista Michael Joyner, pesquisador da Clínica Mayo, nos EUA, foi uma das primeiras pessoas a fazer um estudo sobre a possibilidade de se completar uma maratona sub-2h. Segundo suas projeções, datadas de 1991, o feito poderia ser alcançado em 2022, caso o ritmo anual de diminuição de tempo da prova fosse mantido (20 segundos mais rápido por ano, calculados entre 2005 e 2010), ou apenas em 2035, se a progressão for a média obtida entre 1965 e 2010 (10 segundos mais veloz a cada ano).

A performance humana é determinada por três fatores. O primeiro deles é o volume máximo de oxigênio que o corpo consegue captar do ar que está dentro dos pulmões, levar até os tecidos e usar na produção de energia, numa unidade de tempo. Ele é popularmente conhecido como VO2máx. O segundo fator é o limiar de lactato, ou o ponto em que essa substância, produzida após a queima da glicose para fornecer energia ao corpo, começa a se acumular no sangue. Por fim, há a economia de corrida. “É o termo para a eficiência da corrida e está relacionado à velocidade que pode ser gerada por um determinado consumo de oxigênio. Mais velocidade em um dado consumo é mais eficiência”, afirma Michael Joyner. Entram aqui, por exemplo, a forma como a pessoa pisa e como movimenta seu corpo. “O atleta ideal tem VO2máx muito alto, limiar de lactato muito alto e ótima economia de corrida”, diz Joyner.

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Abebe Bikila: um negro africano vence (e descalço) a Olimpíada de 1960 em 2:15:16 (Nike/Divulgação)

O programa Breaking2, que foi vislumbrado em 2014, mas saiu efetivamente do plano das ideias no fim de 2016, escrutinou todos os aspectos fisiológicos dos atletas de elite que patrocina para encontrar os corredores ideais para o desafio. Além de Kipchoge, a equipe escolheu o etíope Lelisa Desisa e Zersenay Tadese, da Eritreia. O queniano é o ouro olímpico do Rio no ano passado na maratona e tinha como recorde próprio o tempo de 2:03:05. O etíope tem 26 anos, já venceu duas vezes a Maratona de Boston e tinha como melhor tempo 2:04:45. Já Tadese é o atual recordista mundial da meia maratona e 2:10:41 é seu melhor tempo nos 42k. Eles passaram os últimos sete meses acompanhados por uma equipe de fisiologistas, fisioterapeutas e nutricionistas, que avaliavam, entre outras coisas, hidratação, dieta e carga de treinamento. “Mudei minha nutrição, meu estilo de treinar e minha vestimenta e vi muitas melhoras”, disse Lelisa Desisa em Milão, na apresentação do projeto.

No autódromo

A equipe da Nike também analisou os demais aspectos que influenciam em uma maratona para conseguir as circunstâncias perfeitas para a prova sub-2h: a pista e as condições atmosféricas ideais. Foi assim que eles chegaram ao Autódromo Nacional de Monza. O local não é uma pista oficial de maratonas. Mas, após avaliar diversas possibilidades, a Nike descobriu que em Monza tudo contribui: a temperatura que gira em torno de 12 °C, a pressão atmosférica menor do que 12 mmHg, o céu geralmente nublado (o que minimiza a carga de calor), as correntes de ar sem mudanças drásticas. A rota traçada tampouco é a de uma corrida comum: os atletas deveriam correr em um percurso fixo de 2,4 quilômetros, sem nenhum aclive, no sentido anti-horário – para completar os 42k, são necessárias, portanto, 17 voltas e meia.

Como a pista não é reconhecida pela Iaaf, uma prova disputada lá não é oficial. Portanto, uma eventual quebra de recorde não seria validada. Mas uma coisa deve ficar clara: a Nike nunca pretendeu estabelecer um recorde oficial nem fazer uma maratona comum. “Em primeiro lugar, porque as duas provas oficiais mais rápidas do calendário do atletismo (Berlim e Dubai) são patrocinadas pela rival Adidas. Fazer o projeto lá tiraria um pouco do brilho para a Nike, caso o recorde saísse”, afirma o jornalista Adalberto Leister Filho, especialista em marketing esportivo e diretor de conteúdo da Máquina do Esporte. “Depois, porque é impossível reproduzir, em uma competição oficial, as condições favoráveis que a Nike implementou em Monza.”

O Breaking2 escrutinou todos os aspectos fisiológicos dos atletas Nike até encontrar os três corredores ideais: Kipchoge, Desisa e Tadese, todos africanos

Além dessas condições favoráveis do circuito, a empresa, é claro, apostou no que melhor sabe fazer: artigos esportivos. O kit elaborado especialmente para os três africanos é composto por camiseta e bermuda com ventilação especial e aeroblades, pequenos triângulos de borracha aplicados nas roupas para melhorar a aerodinâmica. Há ainda uma peça para as laterais da canela, feita de um material adesivo, com os mesmos aeroblades. O grande trunfo, no entanto, é o tênis. O Zoom Vaporfly Elite 4% afeta diretamente a economia de corrida. “Ele a melhora em 4%”, contou Bret Schoolmeester, diretor sênior de Tênis de Corrida da Nike, em Milão. O segredo do produto está em sua entressola, batizada ZoomX: uma placa de fibra de carbono de amortecimento responsivo, que ajuda a maximizar a velocidade. O calçado foi alvo de polêmica, por supostamente oferecer vantagem injusta. Mas Bret garantiu que não existe “doping” no produto – tudo está dentro do limite aceitável.

Com ele, Kipchoge, Desisa e Tadese fizeram, em março, o primeiro teste no Autódromo de Monza, uma meia maratona. Kipchoge já se mostrava o mais promissor, com o melhor tempo: 59:20. “Desde que comecei o projeto, tive um grande progresso. Conseguir hoje menos de 60 minutos é a prova”, afirmou.

Quase lá

O dia D foi marcado para 6 de maio último. Era o tudo ou nada. Às 5h45 da manhã, os três maratonistas largaram para os 42,195 quilômetros de suas vidas. Um carro elétrico estava à frente do pelotão, a 21 km/h, marcando a velocidade. Trinta fundistas foram selecionados como coelhos. Eles se revezaram na prova a cada duas voltas, seis de cada vez, numa formação triangular em frente aos atlteas, o que também criava uma barreira ao vento. A cada 2,4 quilômetros, os atletas receberam garrafas com uma hidratação específica.

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(Nike/Divulgação)

O evento foi transmitido por streaming, via Facebook e Twitter. Mais de 6 milhões de pessoas viram Kipchoge cruzando a marca dos 42,195 em 2:00:25. Quase lá. Eliud Kipchoge correu 2 minutos e 32 segundos mais rápido do que o recorde mundial e 2 minutos e 40 segundos mais rápido do que seu próprio recorde. Tadese bateu seu melhor tempo, com 2:06:51, e Desisa completou a prova em 2:14:10.

O Breaking2, então, foi um fracasso? “Eliud Kipchoge correu uma maratona mais rápido do que qualquer ser humano havia corrido até então”, disse Mike Parker, CEO e presidente mundial da marca. “Essa conquista representa muito mais do que uma corrida. É um momento de inspiração global que incentivará cada atleta, em cada comunidade, a empurrar limites de seu potencial.” A Nike celebrar o resultado de seu projeto não surpreende. Mas os especialistas consultados por nós concordam que o Breaking2 foi bem-sucedido. “Com ele, a Nike chama atenção para uma prova fascinante, que testa os limites do ser humano, e, do ponto de vista mercadológico, divulga o polêmico Zoom Vaporfly Elite, de olho no mercado bilionário de running. Não é surpresa que, dias depois do anúncio do Breaking2, a Adidas tenha dito que desenvolve projeto semelhante”, afirma o jornalista Adalberto Leister Filho. “O Breaking2 mostra o que um indivíduo pode fazer se as condições do ambiente e de interação humana são otimizadas para um melhor desempenho. Isso providencia uma sólida definição de limites”, diz o pesquisador Mike Hahn.

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(Nike/Divulgação)

“Eu achava que qualquer tempo abaixo de 2:01:30 já seria um enorme sucesso, e eles fizeram melhor”, afirma Michael Joyner, da Mayo. “Em meus cálculos, previa que a sub-2h seria conseguida no fim dos anos 2020 ou nos anos 2030. Mas agora eu acredito que o tempo de Kipchoge em Monza redefine as coisas. Mais corridas oficiais vão começar a tentar criar condições favoráveis para tempos mais rápidos. Acredito então que, ‘naturalmente’, vamos ver uma sub-2h nos próximos cinco anos.”

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