Break Point: conheça Lui Carvalho, diretor do Rio Open

O jogo vai bem, mas não está ganho. Entenda seus planos para inserir o Brasil definitivamente na rota dos grandes torneios de tênis

Na pequena sala dentro do Jockey Club, um grupo tentava organizar uma situação inusitada naquela semana que aparentemente pretendia reeditar o dilúvio. Depois de cinco dias de chuvas torrenciais atrapalhando a programação do Rio Open 2016, o mau tempo interrompeu também a final do evento, entre os argentinos Pablo Cuevas (naturalizado uruguaio) e Guido Pella, então empatada em 3-3. Sem previsão de melhora, em meio à quadra encharcada e ao deslocamento do público para um local coberto, a organização estava esgotada. Lui Carvalho entrou na sala e, com sua habitual tranquilidade, disse sobre a situação: “Gente, tenho uma boa notícia. Pior que está não fica”.

Aos 35 anos, Lui, o mais jovem diretor de um torneio da ATP, Associação de Tenistas Profissionais, é oriundo de uma família com história no esporte. Seu avô é Alcides Procopio, morto em 2002 aos 86 anos, primeiro brasileiro a disputar o torneio inglês de Wimbledon, e que ocupou os cargos de presidente da Federação Paulista de Tênis e vice-presidente da Confederação Brasileira de Tênis, criou o torneio infantojuvenil Banana Bowl e fundou a Procopio Sports, primeira fábrica de raquetes do país.

Lui é filho de Suzana e Wilton Carvalho, ambos ex-tenistas. “Tinha uma raquetinha de tênis pendurada na porta da maternidade quando nasci”, diz. “Gosto de contar a história dos meus pais. Minha mãe foi campeã brasileira infantil de tênis. Meu pai era pegador de bola de clube, virou rebatedor e conheceu minha mãe, da alta classe, quando era professor de tênis no Harmonia, em São Paulo. Há 40 anos essa coisa de sociedade era mais pesada. Meu avô foi contra o namoro, mandou minha mãe estudar fora do país. Ela chorou todos os dias. Quando voltou, não teve jeito: ele acabou aceitando e os dois se casaram.”

Crédito: Chico Cerchiaro

Crédito: Chico Cerchiaro

Horrível e com sotaque

Lui nasceu Luiz. O apelido foi dado pela mãe, com medo de ver o filho transformado em “Lu”. Grande incentivadora da carreira dele, Suzana deixou Lui crescer na academia que o marido abriu com o também tenista Marcelo Meyer. “Fazia aula, entrava na aula dos outros, não queria sair da quadra de jeito nenhum, era um drama”, ele conta. O garoto começou a competir e foi relativamente um bom juvenil, sempre entre os três primeiros do ranking brasileiro. “Meu avô acreditava muito em mim. O sonho dele era me ver jogando em Wimbledon e isso era sabido pela família. Ao mesmo tempo em que era legal, porque ele confiava no meu talento, era uma baita pressão. Fora a pressão externa, de ser neto do Procopio, filho da Suzana e do Wilton. Me julgavam muito.”

Aos 19 anos, Lui percebeu que estava em uma encruzilhada. Perto da 800ª colocação no ranking mundial, “algo até decente”, começou a se comparar com atletas mais novos e viu que não daria para continuar no tênis. Uma decisão difícil, que ainda devia ser comunicada ao avô. “Pedi desculpas e disse que não ia continuar. Ele entendeu.” Foi estudar nos Estados Unidos, para conciliar educação com esporte. Teve convites de três universidades e escolheu a Mississippi State University, “que tinha uma árvore no meio do campus para poder estudar sentado embaixo dela, como nos filmes americanos”. Embora nunca tenha realmente trabalhado com isso, Lui se formou em jornalismo e relações públicas. Voltou para o Brasil decidido a ser apresentador de telejornal, até que, em um curso voltado para a área, foi desencorajado pela professora. “Ela acabou comigo, disse que eu era horrível, que me atrapalhava lendo notícias e tinha sotaque americanizado. No fim, foi bom, porque vi que estava na hora de bolar uma estratégia diferente.”

Foi quando o acaso entrou em cena. Lui, que havia feito um breve estágio de jornalismo na ATP na Flórida, foi chamado novamente pela instituição, desta feita para trabalhar no departamento de comunicação e marketing. Cabia a ele ser o porta-voz da Associação de Tenistas Profissionais nos torneios ao redor do mundo, fazendo a promoção dos eventos. “Viajei durante quatro anos a mais de 30 torneios por ano. Isso me deu uma experiência incrível, porque pude ver as melhores práticas de todos os torneios. Abriu minha mente para uma coisa diferente: por que eu não posso organizar um torneio de tênis do meu jeito?”

Em 2011, voltou para São Paulo para trabalhar na Koch Tavares, empresa de marketing esportivo responsável pelo Brasil Open de tênis, um torneio ATP 250 – um degrau abaixo do ATP 500 na hierarquia. Por dois anos e meio, ele, na prática, dirigiu o campeonato. Soube que acontecia um movimento para o Brasil sediar um ATP 500 e, antes mesmo de se candidatar ao cargo, foi indicado a ele. A empresa responsável era a IMX, braço de esporte e entretenimento da multinacional IMG com o Grupo EBX, de Eike Batista – hoje, o nome é IMM. Sob a batuta de Lui, diretor técnico do evento, e Márcia Casz, diretora de operações da empresa, o Rio Open conta atualmente com 36 empresas patrocinadoras e apoiadoras, como Claro, Rolex, Itaú, Fila, Pirelli e Peugeot. “Tínhamos só um projeto em PowerPoint, que íamos apresentar para as empresas. Foi bem difícil. A gente teve de se provar. O primeiro ano foi o mais importante. Não podíamos errar.”

Neste ano, o evento que acontece entre 20 e 26 de fevereiro comemora sua quarta edição. “Todas as anteriores foram muito bem-sucedidas, mas a cada ano aparece uma dificuldade diferente. Fazer evento é fazer gestão de problemas. Você pode trabalhar incansavelmente o ano inteiro, mas no dia tem algo que foge do controle.” Em 2016, por exemplo, foi a chuva torrencial – que ele enfrentou com uma calma impressionante. “Não existe um manual: choveu, o que fazer? O bom de ter sido atleta é que o esporte me deu muito autocontrole.”

Você pode trabalhar o ano todo, mas no dia do evento tem algo que foge do controle

Boa-praça e sorridente, Lui mora há quatro anos no Rio de Janeiro, mas vive na ponte aérea – a maior parte dos patrocinadores está em São Paulo. “São 45 minutos em que meu telefone não toca e eu posso ler.” Trabalha das 10h da manhã à meia-noite, mas não é raro trocar e-mails com a chefe às 2h da manhã. Os dois têm uma missão entre médio e longo prazo: dar um upgrade no Rio Open e transformá-lo em Masters 1000.

Bonzinho e justo

Para isso acontecer, o primeiro passo é uma entre as nove cidades que sediam um evento desse porte, como Miami, Madri ou Roma, abrir mão dele (por dificuldade financeira ou falta de interesse) ou ser descredenciada pela ATP, que avalia a qualidade de cada torneio nos mínimos detalhes, do estado da quadra ao atendimento aos atletas, passando por alimentação, logística, iluminação e transporte, entre outros pontos. “A avaliação é importante para subirmos o status. Por isso, decidimos que em 2017 não vamos fazer o WTA, o torneio feminino. Mantendo só o ATP, temos chance de melhorar ainda mais os serviços”, diz Lui. Sem as mulheres, o número de atletas passa de 120 para 60, o que facilita a logística. “Sou suspeito para falar, para mim o Rio Open é perfeito”, diz o tenista João Souza, o Feijão, 1220 no ranking. “Mas vai ficar ainda melhor.”

“Em três anos, o Rio Open não só se confirmou como o maior evento do calendário esportivo brasileiro como alcançou prestígio e reconhecimento indiscutíveis”, diz Márcia Casz. “O primeiro movimento é a mudança da superfície do evento, passando do saibro para a quadra rápida. Com isso, acreditamos que vamos atrair mais jogadores entre os melhores do mundo e crescer. Estamos trabalhando politicamente para isso. Estamos confiantes de que vamos conseguir muito em breve.”

Como diz Márcia, um dos desafios é atrair os grandes nomes. Rafael Nadal e David Ferrer vieram em todas as edições – este vem novamente em 2017. Agora, estão confirmados dois top 10: o japonês Kei Nishikori, quinto do ranking, e o austríaco Dominic Thiem, o oitavo. “Existe uma competição interna entre os torneios para atrair os melhores jogadores. Então vai muito do tratamento que você oferece. E ainda tem o atrativo do Rio de Janeiro e do Carnaval. A experiência legal vira historinha de vestiário. Estamos em fase de construção.”

Lui Carvalho percebeu recentemente, ao fazer coaching, que nunca planejou nada em sua carreira. “As oportunidades aparecem às vezes quando não se espera, cabe a você estar preparado para elas. É como num jogo de tênis.” Fez o coaching para livrar-se de um mal: ser bonzinho demais. “É até feio falar isso, mas tive que fazer coaching para aprender a falar não, saber dar dura, ser firme. E entendi então a diferença dos conceitos de ser justo e de ser bonzinho. Isso ajuda até a outra pessoa, porque é injusto com ela você passar a mão na cabeça quando faz bobagem.” Em terras cariocas, acorda cedo e pratica esportes: corre, pedala, faz trilhas. Em São Paulo, curte a noite. “Adoro festa.” Solteiro, aproveita para emendar férias nas viagens a trabalho e faz roteiros gastronômicos, mas quer conhecer as Maldivas, um lugar “muito romântico para ir sozinho”, diz. “Quem sabe não aparece uma interessada depois desta matéria?”