Carta de amor aos canhotos

Está na medula a responsabilidade por nascermos Pelés ou Maradonas – e desde que somos fetos

Assimetria hemisférica é o nome científico para as diferenças entre os lados do nosso corpo. Tenho uma das pernas milímetros mais curta que a outra e acredito que esteja aí a causa da minha lombalgia, hoje controlada pelo legado de Joseph Hubertus Pilates. Ao menos esse bug me rende um gingado de mestre-sala esloveno. Assimetria hemisférica também contempla o fato de sermos destros ou canhotos. E faz pouco mais de três meses que pesquisadores da Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha de Pilates, jogaram água no chope de quem creditava ao cérebro a responsabilidade por nascermos Pelés ou Maradonas nos pés, Borgs ou McEnroes nas mãos.

Dizem os germânicos que a causa está determinada desde muito cedo. O estudo defende que na 13a semana de gestação os fetos já fazem movimentos preferencialmente com um dos lados do corpo. E o uso prioritário de uma das mãos já se nota na oitava semana. Nesse período, ainda não foi completada a ligação do córtex motor com a medula espinhal. Portanto, segundo o estudo, é na medula que acontece a preferência por direita ou esquerda – e aqui, por favor, não falo de política, embora nessa seara há muito eu me encontre em posição fetal.

Daí caímos como um tijolo em Messi e Cristiano Ronaldo. O FutLAB, grupo que fundei com amigos feras em estatísticas para analisar o futebol sob o prisma exclusivo dos números, publicou recentemente no site da ESPN uma comparação entre os dois mais Neymar. O brasileiro ficou bem atrás. Messi venceu CR7 pelas características relacionadas à maior participação no jogo. Os números se restringiram às quatro temporadas em que os três atuaram juntos na Espanha.

Confesso que minha preferência por Messi já existia muito antes de ver os números. E mesmo que o argentino perdesse, eu mandaria às favas minhas próprias convicções estatísticas. Tudo porque o pequeno Lionel, na barriga da mamãe Celia Cuccittini, já usava a canhota. E eu amo os canhotos. Sua biomecânica é diferente, improvável, estilosa. Minha medula me fez destro, mas desde pequeno não me conformei. Treinei a esquerda à exaustão, a ponto de poder bater tranquilamente um escanteio com esta perna que não é a minha boa. Mas meu movimento sempre será forçado, robótico, porque na barriga da minha mãe eu mexia a destra. Frustrante.

O Capiroto, o Indivíduo, o Sujo, o Cramulhão, o Das Trevas… Guimarães Rosa nos deixou dezenas de nomes para o Demônio. Até nisso eu renego o legado da minha assimetria hemisférica. Prefiro, de longe, “o Canhoto”.

Maurício Barros é jornalista, mestre em ciência política, blogueiro, comentarista dos canais ESPN e foi diretor de redação da PLACAR. Siga-o: @mauriciobarros