Chelsea: o time da hora

Entramos no QG do campeão europeu para saber o que faz a grandeza do time que deverá ser o inimigo do Corinthians (e maior aliado de todos os rivais) no Mundial de Clubes em dezembro

Um clube de tradição de uma grande metrópole que amargou um longo jejum de títulos e também rebaixamento. Que começou a se modernizar para deixar de ser regional nos anos 1990 e, no século 21, intensificou seus esforços para realizar o sonho obsessivo de se tornar campeão de seu continente. Finalmente, essa conquista chegou em 2012.
Essa história se aplica ao Corinthians, campeão da Libertadores deste ano? Sim. Mas também ao Chelsea da Inglaterra, o campeão da Liga dos Campeões da Europa (Uefa Champions League) em 2012 e, muito possivelmente, adversário do time paulista na final do Mundial de Clubes em dezembro no Japão – basta que ambos vençam nas semifinais (veja no quadro que começa abaixo e continua nas páginas seguintes os altos e baixos semelhantes dos dois clubes que chegaram ao título continental pela primeira vez).

Ainda no clima festivo da conquista europeia nos pênaltis contra o Bayern de Munique na casa do adversário, no final de maio, visitamos o quartel-general do Chelsea na mesma semana em que o Corinthians ganhou o título sul-americano. O estádio Stamford Bridge é hoje o lar dos corações de estimados 22 milhões de torcedores no mundo todo (o que faz o clube ter a quarta maior torcida da Europa). E, até dezembro, também será o segundo lar de outros tantos milhões de brasileiros anticorintianos.

Fãs no mundo todo
Acompanhamos uma das visitas guiadas que o Chelsea instituiu em 1990, quando ainda era um clube tradicional, porém modesto e pouco vencedor, sem impacto internacional.

As visitas, com grupos de 30 pessoas em média, acontecem de meia em meia hora das 10h às 18h nos dias sem jogos, com ingresso a  18. Segundo o clube, 180 mil visitantes já conheceram o museu com troféus, atividades interativas e curiosidades (como as primeiras camisas com números nas costas, usadas pelo Chelsea num jogo em 25 de agosto de 1928), além da loja oficial e dos bastidores do estádio – a parte mais interessante e impactante do tour.

O ponto de partida nas áreas usadas pelo time: a moderna sala de imprensa criada em 1993  a pedido do então técnico Glenn Hoddle, no espaço antes ocupado pelo vestiário dos visitantes. Dali, passa-se aos vestiários atuais. O “dressing room” do Chelsea impressiona, com bancos estofados de veludo azul e armários individuais dos jogadores com suas respectivas camisas sempre penduradas e prontas para uso. A sensação de jogo cresce nos visitantes com a caminhada pelo túnel até o gramado de Stamford Bridge.

Ao entrar em campo, os visitantes são ovacionados pelo som gravado da torcida num dia de jogo com ocupação máxima, executado a pleno volume pelos alto-falantes. A pessoa comum sente exatamente a mesma carga de adrenalina que os jogadores quando aparecem diante de 41 798 pessoas – a capacidade máxima de público.

Inaugurado em 1905 e reformulado aos poucos de 1974 a 2001, Stamford Bridge teve suas alas norte, sul, leste e oeste modernizadas, tanto quanto a arquitetura (a área leste, primeira a ter a reforma concluída, ganhou um prêmio logo que foi inaugurada) e a tecnologia (um setor de 13 mil assentos na ala oeste tem aquecimento especial).

Vestiário aveludado e camisas prontas para o próximo jogo

A imponência das arquibancadas azul-royal que contrastam com as enormes letras C-H-E-L-S-E-A em branco e o amarelo das separações de fileiras impressionam até um cidadão dos Estados Unidos. Fã do “soccer”, o visitante Zach Pelech diz que Stamford Bridge é mais majestoso que os estádios gigantes de seu país: “A arquitetura é única e o tamanho é intimidante. Não é à toa que todo mundo gostaria de ser um jogador como Fernando Torres (atacante espanhol do Chelsea)”.

Zach é apenas um dos muitos estrangeiros que visitam o Chelsea e/ou torcem para o clube mesmo sem serem de Londres ou ingleses. Com o crescimento da competitividade e as vitórias da última década, os Blues conquistaram fãs em vários países. Como a polonesa Patrycja Lempek, de 19 anos, que  tatuou o escudo do Chelsea no braço – contrariando sua família de fãs do Real Madrid da Espanha. “Minha paixão chegou quando comecei a assistir aos jogos do Chelsea há dois anos. Gostei do jeito deles, das jogadas. Senti que esse era meu time”, disse Patrycja ao realizar sua muito sonhada visita a Stamford Bridge.

Bairro badalado
Embora seu estádio fique geograficamente no bairro de Fulham (que já tinha um time com esse nome quando o Chelsea foi fundado em 1905), o lar espiritual dos Blues é o distrito vizinho de Chelsea, cheio de museus, casas noturnas, lojas caras, universidades, áreas verdes e casas luxuosas, reduto tradicional de ricos e de envolvidos com cultura.

Ao longo das décadas, o charme local se deveu a moradores como os escritores Oscar Wilde e J.R.R. Tolkien, os autores de Drácula (Bram Stoker) e Frankenstein (Mary Shelley), o poeta T. S. Eliot, a criadora da minissaia (Mary Quant), os rolling stones Mick Jagger e Keith Richards, os roqueiros Eric Clapton e Bob Geldof, a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, os atores Hugh Grant e Michael Caine. E até mesmo o agente James Bond, que tinha um flat na King’s Road segundo os livros de Ian Fleming.

Na mesma badalada King’s Road, existiu a butique SEX, da estilista Vivienne Westwood e do empresário Mal­colm McLaren, o lugar onde nasceram em 1976 a banda Sex Pistols e o movimento punk inglês. “É provavelmente o maior nome do mundo: Chelsea. Ele evoca a melhor parte da maior cidade do mundo… Chel­­sea. É mágico.” Esta frase de Jimmy Grea­ves, craque do time entre 1957 e 1961, está numa parede do museu, que faz parte do complexo Chelsea Village, marco da modernização do clube iniciado por seu dono anterior, o empresário inglês Ken Bates.

Nossa repórter Giovanna na sala de entrevistas do time

Bates comprou o Chelsea em 1982 pelo preço simbólico de £ 1. Administrado pela família Mears desde a fundação, o clube estava praticamente falido e ameaçado de rebaixamento para a terceira divisão. Bates saneou as finanças, levou o time de volta à primeira divisão e seguiu investindo na reformulação do estádio e na criação do complexo Chelsea Village.

A polonesa Patrycja foi a Londres só para conhecer sua paixão
Concluído em 2001, o Chelsea Village tem prédio de apartamentos de luxo, o pub de acesso restrito e espaço de eventos Under the Bridge, restaurantes e dois hotéis. Além, é claro, do estádio, do museu e da loja oficial do clube.
A partir de 1996, Bates passou a contratar as primeiras estrelas internacionais, como o holandês Gullit, os italianos DiMatteo e Zola, o francês Desailly e o liberiano Weah. Mas as despesas acumuladas criaram uma dívida enorme. Novamente o Chelsea ficou a um passo da falência.

De local a global
Por causa dessa crise, entra em cena em 2003 o homem que transformou o Chelsea num multicampeão globalizado como jamais havia sido: o empresário russo do petróleo Roman Abramovich, frequentemente suspeito de práticas financeiras duvidosas. Ele comprou o clube por  140 milhões. Abramovich intensificou a política de contratações de astros com a meta de não apenas acabar com o jejum de títulos no Campeonato Inglês mas também chegar ao título europeu. Nos últimos nove anos, trouxe nomes como o argentino Crespo, os franceses Makélélé, Anelka e Malouda, o goleiro checo Petr Cech, o holandês Robben, o ganês Essien, o alemão Ballack, o ucraniano Shevchenko e os brasileiros Ramirez e David Luiz. A eles se juntavam jogadores vindos das categorias de base como o capitão John Terry ou contratados de outros clubes ingleses como Lampard e Ashley Cole.

O bilionário russo também jogou pesado nas contratações de técnicos. Em 2004, trouxe José Mourinho, que tinha acabado de ser campeão europeu com o Porto de Portugal. Ele encerrou o jejum de 50 anos no Campeonato Inglês ganhando um bi em 2005 e 2006. Com parte da missão cumprida, Mourinho foi para a Internazionale de Milão em 2007.

Nos anos pós-Mourinho, Abramovich revezou treinadores discretos como o israelense Avram Grant (que conseguiu um vice europeu) com medalhões como Luiz Felipe Scolari, que durou sete meses no cargo entre 2008 e 2009, o holandês Guus Hiddink, que só ficou três meses em 2009, e o italiano Carlo Ancelotti, que se manteve de 2009 a 2011.

André Villas-Boas, português que foi assistente de Mourinho, assumiu em junho de 2011 mas não resistiu a uma campanha irregular e caiu em março de 2012. A temporada que já parecia perdida teve uma reviravolta com o interino Roberto DiMatteo, italiano que jogou no Chelsea nos anos 1990.

Com um esquema de defesa forte, DiMatteo fez o Chelsea eliminar o poderoso Barcelona nas semifinais e conquistar o título da Europa nos pênaltis contra o Bayern. Um esquadrão numa situação improvisada conseguiu o título que equipes mais acertadas do clube perseguiram sem sucesso. DiMatteo pode ser um homem de sorte. Mas foi ajudado pela estrutura de preparação e aprimoramento que funciona das categorias de base até o time principal.

Todos os jogos são filmados para que o time e a comissão técnica façam comparações online entre suas partidas e as de outros times. Os atletas também usam sistema de navegação GPS para monitorar distâncias percorridas e posicionamento no jogo. Já as sessões de treinos são planejadas de acordo com o tempo de recuperação física e de atividades complementares com foco em aptidão, força e tática.

Se, em dois meses como interino, DiMatteo tirou proveito disso para ser campeão europeu, fica o alerta aos corintianos: até o Mundial, como técnico efetivado, ele terá praticamente cinco meses para deixar o Chelsea pronto para a decisão.

O triunfo da defesa forte
Chelsea e Corinthians são a antítese do Barcelona?

O Barcelona de Messi é idolatrado pelo toque de bola e jogo ofensivo constantes. Só que os novos campeões continentais vão na contramão disso, com defesas fortes e futebol menos vistoso. Chelsea e Corinthians indicam uma nova tendência tática mundial?Mauro Cezar Pereira, comentarista dos canais ESPN, não crê nisso: “O Corinthians foi o brasileiro que mais finalizou na Libertadores: média de 14 vezes por jogo. E o Chelsea teve goleadas como os 5 x 1 no Tottenham na semifinal da Copa da Inglaterra. O que deveria mudar é a cultura de que, se o time joga defensivamente, o jogo é feio. Um zagueiro impedir um gol é tão bonito quanto um atacante fazer gol”.

Já para Mauro Beting, comentarista da TV Band, o Chelsea realmente joga feio, enquanto o Corinthians é sólido e competitivo: “O Tite tem razão de ficar bravo quando comparam os dois. O Corinthians não fica plantado atrás. Mas, se enfrentasse o Barcelona, ficaria como o Chelsea ficou”.

(Camila Ciarallo)

O Chelsea do futuro
O clube contrata muito, mas investe em sua molecada

Se sai um Drogba, herói do título europeu que foi para o futebol chinês, logo o Chelsea repõe com outra transação cara, como a proposta de £ 25 milhões por Oscar, do Internacional e da Seleção Brasileira. Mas quem pensa que o clube só vive de abrir a torneirinha de dinheiro do bilionário Abramovich deve saber que há uma firme política de formação de garotos e de contratação de jogadores ainda iniciantes – como o brasileiro Lucas Piazon0.

Para a formação em suas escolinhas, o clube tem uma equipe enorme de olheiros baseada em Londres e pode convidar qualquer garoto para um teste de até seis semanas em sua academia, com capacidade para até 130 crianças ao mesmo tempo, divididas por faixas etárias: de 9 a 11 anos, de 12 a 16 e de 17 a 18.
Além do preparo físico, treinos com bola e educação tática, os garotos têm direito a estudo (a escola é como outra qualquer, com a preocupação de educar e encaminhar na vida aqueles que não conseguirem se firmar no futebol), cursos de qualidade de vida, orientações sobre drogas e álcool e acompanhamento psicológico.

Além disso, eles recebem uma educação alimentar que vale para toda a vida (os chefs acompanham os meninos ao supermercado para comprar comida). E, tal qual o time de cima, estudam seus erros e acertos com a gravação em vídeo de todos os jogos. O centro de treinamento, aberto em 2004, fica em Cobham, na cidade de Surrey, a 25 km de Londres. Enquanto o time principal tem cinco campos de treino e os reservas têm direito a outros dois, os garotos dispõem de um pequeno estádio, dois campos de treino para os sub-18 e dois para os sub-16, além de quadra coberta para dias chuvosos.

Os pacotes para o Mundial no Japão
Os corintianos saem na frente dos ingleses

Para quem quiser ver o Mundial de Clubes no Japão (o Corinthians jogará a semifinal no dia 12 e a final ou a decisão de 3º lugar no dia 16), já há pacotes especiais.

Corinthians/CVC – Na agência oficial que o clube mantém em parceria com a CVC, são 12 opções de pacotes aéreos para estadias de 11 a 14 dias no Japão. As saídas a partir de São Paulo estão previstas para 8 e 9 de dezembro. Os planos incluem traslados aeroporto-hotel e hotel-estádio, hospedagem com café da manhã, coordenadores que falam português e um kit torcedor. Os preços vão de R$ 10 200 a R$ 16 370.
■ Tel.: (11) 2191-8410
■ site: cvc.com.br/site/_hotSite/vai-corinthians/default.jsf

Stella Barros – A agência preparou seis opções de voos com diferentes escalas, saindo de São Paulo nos dias 8 e 9 de dezembro. Inclui passagens de ida e volta, oito noites de hospedagem, traslados aeroporto-hotel e hotel-estádio, seguro-viagem e acompanhamento de guia. Preços por pessoa: de R$ 16 420 a  R$ 20 860.
■ Tel.: (11) 2166-2223    ■ site: stellabarros.com.br

Shigoto – Esta agência brasileira especializada em viagens para o Japão oferece pacotes para grupos de, no mínimo, 25 pessoas. O voo é da Emirates com saída de São Paulo na madrugada de 7 para 8 de dezembro e programação para estadia até o dia 20. Inclui hospedagem com café da manhã e almoço especial no dia 12 (data da semifinal), transporte de trem-bala de Osaka a Tóquio, passeios nos dias livres, traslados aeroporto-hotel e hotel-estádio e guia local falando português. Com acomodações duplas, o pacote custa US$ 5 890 (cerca de R$ 11 900) por pessoa.
■ Tel.: (11) 3101-8193     ■ site: shigoto.com.br

● Para entrar no Japão, é preciso visto (que valerá por três meses a partir da data de emissão) e passaporte com validade mínima de seis meses.

Matéria publicada na Revista VIP de agosto de 2012.