Especial: os bastidores e curiosidades da origem do UFC

A história oral do Ultimate FIghting Championship contada pelos seus protagonistas, sem filtros - e com riqueza de episódios

Especial UFC: as origens

(reprodução/Divulgação)

Em 12 de novembro de 1993, um brasileiro organizou, nos EUA, um evento em que lutadores de diferentes estilos se enfrentavam. Com o tempo, os atletas que competiam nele começaram a incorporar técnicas de várias artes marciais. o negócio cresceu tanto a ponto de hoje ser transmitido em 29 idiomas para mais de 156 países.

Com vocês, a história do Ultimate Fighting Championship – contada por algumas das pessoas mais importantes que já passaram por ele.

 

Como tudo começou: Rorion Gracie

Rorion Gracie

(reprodução/acervo pessoal)

“Quando vim morar nos Estados Unidos, em 1978, minha finalidade era mostrar o jiu-jítsu, a arte da minha família, para o mundo.

Depois de trabalhar até como faxineiro, montei um tatame em minha garagem e chamava lutadores de qualquer outra arte marcial para desafios, que continuaram a acontecer quando abri minha academia em Torrance, na Califórnia.

Um dia um aluno meu me falou que aquilo era muito interessante e que todo o mundo tinha que assistir. Foi quando comecei a pensar em um evento para a televisão. Desde ter a ideia até ela acontecer mesmo, passou quase um ano.

Pensei em fazer um evento em que todas as artes marciais pudessem mostrar sua eficiência de forma irrestrita. Não teria limite de tempo nem regras, que poderiam favorecer um ou outro estilo. A única restrição que impus foi não poder morder nem enfiar o dedo no olho do outro – afinal, existe uma certa honra até em briga.

O Ultimate Fighting Championship seria um torneio com representantes de oito modalidades diferentes enfrentando-se. Antes de chegarmos ao formato do octógono com a grade, pensamos em diversas coisas – inclusive em um tanque com jacarés em volta, parede de um material que é uma espécie de vidro inquebrável ou cerca elétrica, tudo para os lutadores não fugirem.

Falei com um pessoal de Nova York, que me disse que colocaria aquilo na TV. Fiz um business plan e reuni 100 alunos na academia. Precisava de US$ 250 mil. Naquela noite, levantei o dinheiro para o show. Alugamos uma arena no estado do Colorado, um dos seis nos EUA que permitiam vale-tudo sem luvas.

Tatame na garagem de Rorion Gracie, nos EUA

Tatame na garagem de Rorion Gracie, nos EUA (reprodução/acervo pessoal)

A meta nesse primeiro evento era vender 40 mil pay-per-views. Vendemos 85 mil. Claro, eu esperava que o jiu-jítsu ganhasse o torneio, para todo mundo conhecer a beleza da luta: nela, você não arrebenta o oponente, tem a opção de dosar o grau de violência. Deu certo.

No segundo Ultimate, vendemos 120 mil pay-perviews. No terceiro, 140 mil e no quarto, 180 mil. Saí depois deste. A última luta demorou dois minutos mais do que o tempo de transmissão da TV e as pessoas não puderam ver o final. Então resolveram estipular tempo, e eu não concordava.

Com ele, muda-se a dinâmica do jogo: o cara sabe que tem 5 minutos no round e faz uso disso, amarrando quando está em situação favorável. Caí fora. Não me arrependo, porque para mim não era questão de dinheiro.

Consegui mostrar o que queria: o jiu-jítsu era a arte marcial mais completa. Hoje, sei que tudo que fiz até agora foi abrir caminho para um propósito maior: divulgar a dieta Gracie, com os conceitos de nutrição que meu tio Carlos acumulou a vida inteira.”

Rorion Gracie, 65, é o criador do UFC.

 

O primeiro campeão: Royce Gracie

Royce Grace

(reprodução/acervo pessoal)

“Muita gente achou que meu irmão tinha ficado maluco quando ele veio com a ideia de colocar ao vivo, na TV, uma luta de vale-tudo em um país como os EUA, onde brigar na rua dá cadeia.

Nunca pedi, mas quis na hora lutar. Depois de consultar nosso pai [Hélio Gracie, um dos patriarcas do jiu-jítsu], Rorion me chamou para participar do primeiro torneio do Ultimate. Eu disse: ‘Maravilha, tô pronto!’

Não tive nenhuma preparação especial para o evento. Minha rotina normal era dar aula de jiu-jítsu e treinar com meus alunos. Me lembro de uma reunião que aconteceu um dia antes, para fazer o sorteio das lutas. Fui o último a ser escolhido na primeira chave.

É mais difícil ficar por último, porque você tem menos tempo para descansar para a próxima rodada. Mas achei bom que isso aconteceu para ninguém reclamar que eu pudesse estar sendo privilegiado.

Royce Grace

(reprodução/acervo pessoal)

Na reunião em que explicaram-se as regras, que não existiam, o pessoal começou a reclamar: um queria usar bandagem na mão, outro queria botar no pé. Achei que o que eles queriam era complicar o negócio e já arrumar desculpa. Tinha um certo pânico no ar.

Os outros atletas me olhavam por causa do tamanho, como se pensassem: ‘Pô, cadê o resto dele? Por que colocaram esse cara tão pequenininho? Tem gente muito maior na família’. Mas a ideia era essa mesmo, para mostrar do que o jiu-jítsu era capaz.

Antes das lutas, eu dormi no tatame. Sempre fiz isso. Meu irmão vinha me acordar devagarinho: ‘Hora de acordar e aquecer’. Sempre fiquei tranquilo porque sei o que tenho que fazer. Já estudei, a luta é só mais um dia de treinamento, com uma porção de gente olhando e um adversário que desconheço.

Royce Gracie

(reprodução/acervo pessoal)

No evento, o momento que mais me marcou foi quando Ken Shamrock [americano de 100 kg que praticava luta olímpica híbrida] bateu quando encaixei o estrangulamento e depois quis continuar, porque o árbitro não tinha visto.

Fiquei ofendido e falei: ‘Tu é homem ou não? Tá querendo roubar?’. Na final, o [holandês Gerard] Gordeu [especialista em boxe francês] me mordeu na orelha. Olhei pra ele e falei: ‘Não acredito que tu me mordeu’. Ele me olhou, tipo: ‘E daí?’. Dei duas cabeçadas nele de pura maldade.”

Royce Gracie, 50, foi campeão dos UFCs 1, 2 e 4 (teve de desistir do UFC 3 por desidratação) e é membro do Hall da Fama do evento.

 

Os anos iniciais: Dan Severn

Dan Severn

(reprodução/acervo pessoal)

“Antes de ouvir falar sobre UFC, vivia em Coldwater, Michigan. Estava desempregado: o trabalho que havia conseguido lá não tinha dado certo e eu precisava de dinheiro. Soube de um evento de dois dias de boxe, cuja premiação para o vencedor eram US$ 1 mil. Entrei e ganhei.

Um amigo me falou que eu deveria entrar para o UFC e me mostrou os dois primeiros eventos em VHS – na época, Coldwater não tinha tecnologia para receber pay-per-view. Fiz algumas ligações para o promoter. Preenchi um formulário, mas não me chamaram.

Quando me disseram finalmente que eu estava dentro, tive apenas cinco dias para treinar. Em 1994 não havia camps como os de hoje. Só treinei uma hora e meia por dia em Ohio, na academia Bodyslammers.

O negócio era assim: os atletas revezavam-se em turnos para me socar e chutar. Eu nunca treinei um único soco. Só fazia movimentos de wrestling – àquela altura, era um wrestler amador por 26 anos. E então fui para o UFC 4 e fui bem. Não contei para ninguém que estava no evento, nem para os meus pais.

No UFC, encarei os melhores: Mark Coleman, Tank Abbott, Ken Shamrock, Royce Gracie (para ele, no fim do UFC 4, quando me venceu, eu disse: `Você é o cara mais duro que já enfrentei’).

Fui o primeiro wrestler a pisar no octógono. Venci dois torneios (UFC 5 e Ultimate Ultimate 95) e o UFC 9. A última vez que lutei lá foi pelo UFC 27. Sempre fiel ao wrestling.

Quando comecei, o UFC era um evento de vale-tudo, não havia regras nem divisões de peso. As regras começaram a surgir aos poucos – atualmente são 37. Custou muito chegar ao ponto que é hoje, um evento mainstream. Eles estavam apenas sendo descobertos.”

Dan Severn, 59, faz parte do Hall da Fama do UFC e fez 127 lutas.

 

Pindaíba e volta por cima: Dana White

Dana White

(reprodução/Divulgação)

“Em uma conversa com o então dono do UFC, Bob Meyrowitz [no fim de 2000], descobri que o evento estava com problemas. Liguei para Frank e Lorenzo [Fertitta, bilionários donos de cassino e amigos de Dana] e disse: ‘Acho que podemos comprar o UFC, acho que esse negócio pode dar certo’.

Trinta dias depois, compramos o UFC por US$ 2 milhões. Chegamos a investir nele US$ 44 milhões, era como um buraco negro. Um dia, Lorenzo me ligou e falou: ‘Acho que não dá mais. Preciso que você encontre alguém para quem possamos vender esse negócio’.

Comecei a ligar para algumas pessoas e tarde da noite telefonei para ele e disse: ‘Que tal US$ 6 milhões?’. Ele: ‘OK, te ligo amanhã’. Ele me ligou na manhã seguinte e disse: ‘F**a-se, vamos continuar nessa’. E continuamos.

Resolvemos fazer eventos grandiosos ao vivo. E esses eventos nos ajudaram a começar a sair do buraco, começamos a fazer caixa vendendo ingressos. Depois, passamos a vender DVDs, o que também fez crescermos. E então tivemos a ideia do reality show The Ultimate Fighter. Aí o negócio decolou.

Para reverter a proibição do UFC em vários estados americanos, fomos educar as pessoas das comissões atléticas a respeito do esporte. No mercado externo, como Inglaterra e Canadá, já começamos a pensar em 2002, logo depois que compramos o UFC. E passamos a olhar para o Brasil depois de uma luta de Vitor Belfort, em que percebemos que houve muita repercussão no país.

Nos últimos tempos, estive envolvido com o The Ultimate Fighter China, que começa a ser gravado agora. E o Brasil continua sendo prioridade. Agora temos uma equipe brasileira para ajudar o UFC a atingir o potencial que acreditamos que ele tem.”

Dana White, 47, foi empresário de lutadores e é presidente do UFC.

 

A era dos fãs-lutadores: Matt Serra

Matt Serra

(reprodução/acervo pessoal)

“Meu pai fazia artes marciais e foi por causa dele que comecei a praticar jiu-jítsu. Era adolescente quando ele me mostrou os DVDs que traziam os Gracie em ação e eu fiquei extasiado. Eles venciam todo mundo e eu precisava saber fazer aquilo.

Certa vez, fui fazer um seminário com Rorion e Royce, por volta de 1992. Eles já estavam conversando sobre o UFC, mas eu nem sabia o que era aquilo. Comecei a treinar com Renzo Gracie e ele me levou sob suas asas.

Mais tarde, fui para vários mundiais de jiu-jítsu no Brasil e para o ADCC de Abu Dhabi. Lá o pessoal do UFC estava de olho em um brasileiro amigo meu, Ricardo Almeida. E o Renzo falou sobre mim: ‘Levem esse cara também, ele é muito bom’.

Cheguei lá em 2001. Era uma época estranha, o MMA não era legalizado. E eu tinha de explicar para todo mundo que aquilo era, sim, um esporte. Que havia regras, que as pessoas envolvidas eram profissionais. Por causa do jiu-jítsu, eu tinha uma vantagem no jogo de chão – hoje isso não acontece mais, todo mundo treina jiu-jítsu.

Em 2006, fui chamado para participar do The Ultimate Fighter The Comeback, só com lutadores que já haviam participado do evento. Foi uma oportunidade incrível. A exposição na TV fez minha popularidade ficar enorme. As pessoas passaram a conhecer minha personalidade.

Por causa de minha vitória no show, pude disputar o cinturão com Georges St-Pierre. Ninguém via a menor chance de eu vencer e eu o derrotei. Sabe o filme Rocky, um Lutador? Aquele foi o meu Rocky. Tive vários momentos especiais no UFC, mas nada foi maior do que vencer St-Pierre.

Hoje estou aposentado porque lutador velho é como stripper velha: ninguém gosta de ver.”

Matt Serra, 43, foi campeão dos pesos meio-médios do UFC.

 

Ascensão e queda do Pride: Rodrigo Minotauro Nogueira

Rodrigo Minotauro Nogueira

(reprodução/Divulgação)

“Comecei a me interessar por artes marciais de uma forma mais séria por causa do UFC. Já treinava várias coisas, judô, kickboxing, boxe, até kung fu, porque gostava. Mas, quando vi os primeiros UFCs e vi o Royce pela primeira vez, há 20 anos, fiquei pasmo e pensei: é isso que quero fazer. E fui procurar o jiu-jítsu.

Mas as coisas foram andando na minha vida. Mudei para os EUA com minha mãe, comecei a treinar na Flórida e fui lutar em outro evento, o World Extreme Fighting. Em pouco tempo fui campeão e fui para o Japão.

Lá o negócio tinha sofrido um boom. Acabei tomando outro rumo que não o UFC: lutar no Rings e depois no Pride. Mas sempre fiquei com aquela coisa do Ultimate na cabeça. Só que nessa época o UFC se encolheu, foi proibido em vários estados nos EUA e foi ficando cada vez menor. Já o Pride foi crescendo, inflando.

Em 2003, depois que ganhei do Mirko Cro Cop, fomos comemorar em um lugar chamado Hide Out em Tóquio, meio underground. Mandaram uma garrafa de champanhe para minha mesa. Eram o Lorenzo [Fertitta] e o Dana White. Passei perto e o Lorenzo me chamou para conversar. Não sabia nem quem ele era. Ele disse que eu tinha lutado pra caramba e falou: ‘Um dia você vai lutar no UFC’.

Ri, mas pensei: pô, o Pride está tão bem, por que faria isso? Só que minha relação com o Pride não ficou tão boa muito tempo. Em 2004, lutei com o Fedor [Emelianenko] e ele me deu uma cabeçada. A luta parou e, pela regra, eu ganharia. Eles me deram o dinheiro da vitória, mas não me deram a vitória. Não gostei.

Rodrigo Minotauro Nogueira

(reprodução/Divulgação)

Passei 2005 inteiro sem falar com o dono do Pride [Nobuyuki Sakakibara]. Um clima muito escroto, ele nem me cumprimentava. Quando meu contrato estava acabando, em 2006, ele mudou completamente. Chegou a me acompanhar até o aeroporto, quase embarcou comigo, falando na minha orelha.

Ao mesmo tempo, o UFC começava a se levantar. Foi ganhando direito de lutar nos estados americanos e eu comecei a dar atenção ao evento. Depois da minha última luta no Pride, eu já estava procurando um jeito de falar com alguém lá. E foi quando o Anderson [Silva] entrou para o UFC.

O Ultimate tomava oxigênio. Primeiro criaram aquela rivalidade entre Randy Couture e Chuck Liddell. Depois com o Tito Ortiz. Esses clássicos despertaram o interesse do público americano. E teve também o TUF, que popularizou ainda mais o negócio. O que acontece hoje no Brasil aconteceu naquela época nos EUA. O MMA virou a nova paixão dos caras, o esporte do momento.

Quando o Anderson virou campeão, o UFC passou a se internacionalizar mais. Não era mais um evento tão americano, feito para americano. Anderson era o cara de fora, era a cara do mundo. E era um super- atleta.

O contrato com o Pride acabou e, como não acontecia nada com o UFC, pensei até em parar de lutar. Comprei uma fazenda de gado em Cuiabá e tudo. Mas daí o pessoal de lá me chamou. Disseram que eu tinha muita lenha para queimar e que eles queriam trazer o evento para o Brasil – isso era 2006 ainda, cinco anos antes de eles virem mesmo.

Vários lutadores do Pride foram para lá e o UFC cresceu mais, até que eles compraram o Pride. Para mim foi incrível. A adrenalina voltou novamente. E, com mais atletas, as lutas passaram a ser mais bem casadas, mais empolgantes.”

Rodrigo Minotauro Nogueira, 41, foi campeão do Pride e do UFC.

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