[Ideias VIP] Nomes de jogadores de futebol dizem muito sobre nós

Assim como canta Caetano, eu adoro nomes. Mas gosto mesmo é dos boleiros e seus nomes inexplicáveis

Creedence Clearwater encontra o jogador

Encontro histórico: o jogador Creedence Clearwater Couto e a banda que inspirou seu nome (reprodução/Facebook)

“Adoro nomes, nomes de nomes, como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé.” Assim canta Caetano Veloso em Língua, e eu também adoro nomes – só que de jogadores brasileiros de futebol. Desde os primórdios.

Preguinho foi o autor do primeiro gol da seleção em Copa do Mundo, em 1930. E ele não era marceneiro, mas, sim, filho do intelectual Coelho Neto. Se os gringos adotam sobrenomes (Beckenbauer, Beckham, Messi), nós vamos de apelido ou primeiro nome.

Friedenreich, Piazza e Rivellino são exceções na lista que tem Garrincha, Pelé, Tostão, Zico, Kaká, Biro-Biro. E ainda Neymar, Ronaldo, Adriano, Romário, Rivaldo. E o minimalismo de Jô. Com apenas uma consoante e cinco vogais, fizemos história com Dadá, Dedé, Didi, Dodô e Dudu. Diz muito sobre como somos.

O futebol é startup de uma língua única global, o esperanto de chuteiras. Pegamos os nomes do mundo e abrasileiramos, como o x-salada do cardápio.

O amor por Michael Jackson, por exemplo, fez estrago nos cartórios. Maicon, Maycon, Mayke, Malcolm, vários disputando a Série A do Brasileirão. Tem mais homenagens. Maicosuel deve vir de Maxwell, o Agente 86. Duvido que Keanu Reeves não inspirou a mãe de Keno, do Palmeiras.

Rithely, do Sport, talvez seja filho de algum boto, personagem maroto de Carlos Alberto Riccelli, o marido da Bruna Lombardi. Marlone, do Cruzeiro, só pode vir de Marlon Brando – que por sinal já havia sido homenageado por Marlon Brandão, atacante de sucesso no futebol português dos anos 80 e 90.

E a memória já puxa os clássicos Odvan (ex-Vasco, homenagem a O Divã, canção de Roberto Carlos), Oleúde (o Capitão, ex-Portuguesa, lembrando Hollywood, não sei se do cinema ou do cigarro) e Creedence Clearwater Couto, ex-Guarani e autoexplicativo.

Há também as firulas alfabéticas, adornos deliciosamente inúteis. Falo especialmente da letra h. Quantos Jhonatas e Jonathans não desfilam pelos gramados? O melhor é Rhodolfo, que chegou há pouco ao Flamengo. O “h” é um mero enfeite, um chapéu que os pais dele deram na língua. Chupa, Aurélio!

E como não torcer para um Botafogo que tem Rodrigo Lindoso e Rodrigo Pimpão? Muita autoestima em uma dupla só.

Mas desafiadores mesmo são os Júniores. Importamos o indicativo saxão para filho e botamos na frente. Virou nome próprio. Com sobrenome e denominação de origem. Juninho Pernambucano, Juninho Paulista. Júnior Tavares, Júnior Dutra, Júnior César. Tem até o Edgar Júnio, do Bahia, que dispensou o “r”.

Aguardo ansiosamente pela emancipação definitiva de Júnior a nome próprio. Atingiremos o ápice quando aparecer um… Júnior Filho!

 

Maurício Barros é jornalista, mestre em ciência política, blogueiro, comentarista dos canais ESPN e foi diretor de redação da PLACAR. Siga-o: @mauriciobarros