Mansell sem memória e treta na ambulancia: causos médicos da F1

Senna fazendo mágica, susto com Alonso e pilotos brigando no carro médico... as histórias curiosas vividas pelos médicos do GP do Brasil

O momento em que Senna fecha a porta e faz Mansell rodar durante os treinos para o GP do Brasil de 1992

O momento em que Senna fecha a porta e faz Mansell rodar durante os treinos para o GP do Brasil de 1992 (arquivo/arquivo Abril)

Nigel Mansell falando a mesma coisa a cada cinco minutos… Fernando Alonso provocando uma operação de emergência. Ayrton Senna impressionando com sua guiada nas curvas de Interlagos. E dois pilotos chegando quase “às vias de fato” em pleno carro médico, depois de terem se envolvido em um acidente na pista.

Estas histórias todas são colecionadas por alguém que vive os bastidores da F-1 há 28 anos e que é o verdadeiro “anjo da guarda” dos pilotos quando aceleram em Interlagos: o experiente Dino Altmann, diretor-médico do GP Brasil de Fórmula 1, que conversou com exclusividade com a VIP após a apresentação do hospital Leforte como serviço médico oficial da prova brasileira da categoria máxima do automobilismo mundial.

“É claro que, em quase três décadas de atuação, sempre tem histórias curiosas e interessantes que chegam ao centro médico do GP Brasil de F-1. A minha primeira memória é de Interlagos, em 1990, quando trabalhei na ambulância localizada no final da Reta Oposta, e era incrível ver o Ayrton Senna na McLaren fazendo a curva do Lago. Simplesmente espetacular, a aceleração que ele impunha ao carro era diferente de todos os pilotos. E eu estava ao lado da pista”, relembra Dino.

Um caso curioso que envolveu Senna e outro campeão mundial é contado também pelo diretor do centro médico do GP Brasil de F-1: um incidente entre o brasileiro e Nigel Mansell no GP de 1992, durante um treino em Interlagos.

“O Mansell tentou ultrapassar o Ayrton (na curva Bico de Pato) e acabou batendo o carro. Ele teve uma concussão cerebral mínima, sem repercussão maiores. Mas o piloto que bate a cabeça tem uma amnesia, ele me perguntava a cada cinco minutos para perguntar se o Ayrton (Senna) já tinha sido punido! Era a única preocupação dele (risos). Mas depois voltou e foi super simpático com toda equipe, trouxe bottons do capacete dele e distribuiu sorrisos”, comenta o médico.

Senna não foi punido, mas Mansell não apenas se recuperou como, no dia seguinte, venceu com facilidades o GP com a poderosa Williams daquele ano.

Alguns acidentes, no entanto, foram bem piores para os médicos do GP Brasil, como dois envolvendo Michael Schumacher e o de Fernando Alonso e Mark Webber em 2003.

“Este foi o caso mais difícil para nós, de bastante preocupação após acidentes de grandes proporções. Alonso bateu em um pneu no meio da pista. Vi ele falando com o Flavio (Briatore) que precisava descontar o tempo perdido pois não sabia quanto tempo seria de bandeira amarela. Os pilotos têm o instinto de não aliviar o pé nestas situações. Hoje o piloto é flagrado pela telemetria e sofre punição, senão acho que eles não obedeceriam”, diz Dino, que também trabalhou na recuperação de Felipe Massa no Brasil, após o piloto ser transferido da Hungria, onde sofreu o grave acidente em que foi atingido na cabeça por uma mola, em 2009.

“São momentos tensos, mas que temos que estar preparados”, diz Dino, cuja comanda a equipe do Hospital Leforte na F-1, que terá 120 profissionais atuando para qualquer emergência que ocorra com pilotos e equipes durante o GP Brasil, cujo serviço é considerado um dos melhores de todo calendário da categoria.

Mas nem sempre o time está preparado para situações bastante inusitadas, como a do GP Brasil de F-1 de 1994. “Houve um grande acidente no final da reta oposta e, após o resgate, dois pilotos (Eddie Irvine e Jos Verstappen) vieram brigando dentro do carro médico para falar quem foi o culpado. Faz parte do nosso trabalho acalmar os ânimos dos pilotos”, diz Dino.

27 MAR 1994: AYRTON SENNA PASSES THE CARS OF BRUNDLE AND VERSTAPPEN, BOTH ON THE GRASS, AND EDDIE IRVINE, ON THE TRACK, DURING THE BRAZILIAN GRAND PRIX. Mandatory Credit: Mike Hewitt/ALLSPORT

Jos Verstappen fora da pista e minutos depois, fora de si (Mike Hewitt/Getty Images)

Ainda bem que, no caso do filho de Verstappen, Max, as lembranças de Interlagos tem sido muito melhores – como a do pódio após a brilhante corrida na chuva de 2016.