Perfil: Edu Gaspar – O cara da seleção

Tite é o técnico. Mas quem cuida de todo o resto para o time brasileiro funcionar em campo é o ex-jogador que mudou o jeito de administrar da CBF

Um terço envolve o pulso esquerdo de Edu Gaspar, junto ao relógio suíço Audemars Piguet. “Foi o Tite quem deu. Para mim, para minha mulher e meus três filhos. E, quando arrebenta, ele dá outro para substituir”, conta o coordenador de seleções da CBF. Um presente do técnico para proteger quem dá proteção ao seu trabalho na seleção brasileira de futebol.

Um gesto que ilustra a relação entre gestor e treinador na parceria que nasceu há seis anos no Corinthians. A combinação rendeu ao clube paulista dois títulos brasileiros, uma Libertadores e um Mundial de Clubes. E, aos dois profissionais, a ascensão à seleção em junho passado.

O entrosamento deixou a missão na CBF menos árdua. Edu, que parou de jogar cedo e hoje é um dirigente de apenas 38 anos, cuida de todo o resto para que Tite pense somente em futebol. “Eu conheço o Tite. Sei do que ele precisa, do que ele gosta ou não gosta. Dependendo do jeito que ele olha para mim no vestiário, já sei o que fazer”, diz Edu. “Ele pensa no que é dele e eu penso no que é bom para ele.”

Durante a conversa com Edu, Tite ficou trancado na sala ao lado, no 2º andar do prédio da CBF na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Faltavam poucos dias para a apresentação dos atletas para os jogos das Eliminatórias da Copa contra Uruguai e Paraguai, no fim de março. Em semanas como essa, o treinador se transforma. E Edu dá o alerta aos outros funcionários: “Quando estamos próximos dos jogos, já aviso todo mundo que ele está diferente, testa mais franzida, mais sério, fala menos… Ele está no mundo dele. Temos que respeitar”.

Tite deixou Edu na reserva como jogador. Meses depois, Edu virou gerente e chefe de Tite no Corinthians

Em mensagem escrita posteriormente, Tite definiu a importância do coordenador: “Numa escala de hierarquia, as decisões passam por ele antes de chegar à equipe técnica. É o organizacional para que a gente fique voltado exclusivamente ao futebol”.

A parceria teve um início cheio de dedos. No final de 2010, Edu jogava no Corinthians quando Tite assumiu a equipe – e pouco o escalava. Como já vinha entrando em poucas partidas desde 2009, Edu decidiu encerrar a carreira com apenas 32 anos. Meses depois, já em 2011, ele era convidado para ser gerente de futebol do clube – ou seja, chefe do treinador.

“Eu devia brigar com ele, e não ser amigo, porque ele me deixou na reserva”, brinca Edu. “Tudo começou com certa preocupação dele e da comissão técnica. Ficou aquele desconforto: ‘Será que ele vai ajudar ou vai jogar contra? Vai estar puto com a gente porque não jogou?’…”

O gelo foi quebrado com uma estratégia do novo dirigente. “Quando o treinador pede um simples detalhe, faça. Se pede uma coisa complexa, faça também. Se pediu um meia, contrate um meia. Aí começa uma relação na qual ele pode contar com você. Porque se ele pede uma, duas, três ou quatro vezes e você não executa, na quinta ele não pede mais. Mas, aos poucos, ele percebeu que eu era um cara do bem. E construímos algo bacana, um confiando no outro”, relembra.

Sobre esse período, Tite disse por e-mail: “Houve essa construção da confiança baseada em valores pessoais e em conhecimentos profissionais”.

Gerente acidental

Eduardo César Daud Gaspar tornou-se gestor de futebol meio por acaso. Ele não pretendia seguir no esporte. Só foi fazer cursos depois de começar como gerente – por causa da carreira de jogador, ele nem completou o ensino médio. “Minha família sempre incentivou os estudos. Meu pai se formou músico, meu irmão fez doutorado em filosofia e minha irmã, que morreu num acidente de carro, cursava educação física. É um pontinho que me incomoda um pouco. Compenso com cursos, leituras, congressos. Mas as decisões que a gente toma aqui, num cargo tão específico, não há faculdade que ensine isso”, ele expõe.

Nascido em Guarulhos (SP), Edu começou a jogar no Corinthians aos 5 anos, indo do futsal ao futebol de campo. Por volta dos 14 anos, teve uma misteriosa paralisia que o deixou de cama por um ano sem que a causa jamais fosse descoberta. O clube deu apoio e pagou todos os exames. Recuperado, ele chegou ao time principal em 1998. Firmou-se no ano seguinte, sendo campeão brasileiro e, em 2000, do primeiro Mundial de Clubes da Fifa.

Edu-Gaspar-CBF-futebol-perfil-vip

(Eduardo Zappia/Reprodução)

Meses depois, foi para o Arsenal de Londres, onde ficou cinco anos. Ali, trabalhou com o manager francês Arsène Wenger, cujo planejamento e o trato educado e humano deixaram exemplos marcantes que serviram como aulas de gestão esportiva para Gaspar.

Após quatro anos no Valencia da Espanha, voltou ao Corinthians. Mesmo jogando, já cuidava de seus negócios. Foi representante de uma empresa americana de pisos e empreendeu no setor de construção. Para deixar de ser conhecido como “Edu do Corinthians” em outra carreira, passou a usar Edu Gaspar na camisa do time, para tornar seu sobrenome conhecido – criou uma marca para si.

No fim de 2010, decidiu rescindir seu contrato um ano antes do prazo e foi tratar com Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians. Edu recorda: “Ele me falou: ‘Pô, Edu, você tem um perfil muito bom para ser um gerente. Você fala inglês, espanhol, tem bom trânsito na Europa, gosta de business… Acho que você se daria bem’. Falei que nunca havia me passado pela cabeça ser treinador, mas me atraía fazer projetos, pensar em coisas novas”.

Cerca de 40 dias depois, veio o convite de Andrés para a gerência de futebol após a saída do ex-zagueiro William Machado, hoje comentarista do canal SporTV. Ali começou a atual carreira do senhor Gaspar.

Hoje deputado federal, Andrés Sanchez não deu retorno ao pedido de entrevista, feito ao seu gabinete. Em outubro, o ex-presidente declarou, em entrevista ao site UOL Esporte, que estava decepcionado com o velho amigo por ter trocado o Corinthians pela CBF. Na ocasião, Andrés até afirmou que achava difícil eles voltarem a se falar.

Período integral

Edu e Tite implantaram um método de trabalho novo no comando da seleção. Mudaram-se para o Rio para dar expediente de segunda à sexta, das 10h às 19h. O coordenador até costuma chegar antes e sair depois. “Acordo muito cedo para correr ou fazer musculação. E minha família está em São Paulo. Vou ficar fazendo o quê em casa?”

Assim como no Corinthians, foram intensificadas a informatização e a organização dos dados dos atletas da seleção e dos adversários. Telas nas salas do departamento de seleções, no 2º andar, exibem em loop as planilhas com programações das seleções masculinas, da principal à sub-15, todas sob supervisão de Gaspar. Na sala do Centro de Pesquisa e Análise (CPA), dezenas de jogos do mundo todo são dissecados em vídeo e em dados.

Edu deixou a família em São Paulo para dar expediente em tempo integral na CBF, no Rio de Janeiro

Para a seleção principal, Edu estabeleceu um ciclo de quatro etapas em torno das partidas: pré-convocação; período estratégico; apresentação, treinos e jogos; análise e relatórios pós-jogo. O trabalho é desenvolvido por uma equipe que agrega cerca de 25 pessoas. Os mais próximos são os auxiliares de campo Cléber Xavier e Sylvinho (que jogou com Edu), a equipe técnica de Matheus Bachi (filho de Tite), Fernando Lázaro e Thomaz Araújo, e o preparador físico Fábio Mahseredjian.

Parece ter dado resultado. Quando o técnico Dunga e o coordenador Gilmar Rinaldi foram demitidos, o Brasil acabara de fazer feio na Copa América Centenário e estava em 6º lugar nas Eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018 – ou seja, estaria fora do Mundial.

Edu relembra a sensação antes dos primeiros desafios em agosto. “A gente viu: ‘Malandro, Equador lá no país deles, a Colômbia voando… Poxa, não tinha outro momento para a gente assumir?”, ele ri. Com Tite, a seleção venceu os seis jogos restantes de 2016 pelas Eliminatórias e o Brasil foi elevado do 6º para o 1º lugar. As previsões de futuro sombrio se dissiparam.

Mas Edu se preocupa em não bancar o inventor da roda. Tanto que ele e Tite conversaram com todos os treinadores anteriores – para Carlos Alberto Parreira e Zagallo, já foram três visitas. “Tudo é aprendizado. Temos muito claro que não somos experientes em seleção. Em clubes, sim, mas seleção é diferente. Nada mais justo que bater papo com quem tem experiência”, reflete.

Meta: Copa

O trabalho feito até agora teve sempre uma meta: classificar o Brasil para a Copa de 2018 na Rússia. Edu tem uma razão adicional: uma contusão no joelho o impediu de ir à Copa de 2006, depois de dois bons anos na seleção. Ele já coleta informações sobre a Rússia para definir onde seria a melhor base para o time. E quer que a equipe tenha uma grande preparação com amistosos de qualidade. Tanto que Edu providenciou um amistoso contra a campeã mundial Alemanha, aquela dos 7 x 1, em março do ano que vem, em Berlim.

Muitos na imprensa acharam isso perigoso. Edu defende seu ponto: “Eu brinco: não quero fazer pré-temporada contra time pequeno, mas contra equipes que vão me fazer sangrar. Os atletas precisam encontrar dificuldades para chegar seguros e cascudos a uma Copa. A gente aprende enfrentando grandes seleções. Se for para perder, prefiro em um amistoso a no Mundial”.

 

Assine nossa newsletter e receba conteúdo VIP toda sexta-feira no seu e-mail. Ensaios com lindas mulheres, diversão, futebol, carros, o melhor da gastronomia e muito mais. Basta entrar neste link e colocar seu nome e e-mail para começar a receber o melhor da VIP.