Rômulo Mendonça, entre o caos (!) e o jornalismo

Entre os dez momentos mais marcantes das Olímpiadas, só um passou em apenas um canal: a hilária narração ao ritmo da música Ragatanga por Rômulo Mendonça

São uma infinidade de bordões. Alguns já viraram marca registrada, outros nascem no calor do momento. Não importa, Rômulo Mendonça sempre vai encontrar uma maneira de criar uma frase que, além de combinar com o jogo, tem o poder de fazer até o mais nervoso torcedor esboçar um sorriso.

FUNÇÃO DE COMUNICADOR

Mesmo fazendo uma transmissão engraçada, leve, o profissionalismo tem que estar presente. O jornalista precisa entender que está em situação privilegiada. Mexe com o sonho de muitas pessoas e deve respeitar sua função, se preparando o máximo possível. Assim, você percebe a importância do que faz. A fama acaba vindo na sequência. Fico feliz que tudo o que está acontecendo comigo é por conta de meu trabalho e da minha narração. Pelo menos não é algo no estilo de subcelebridades, efêmero.

BORDÕES 

Sempre busquei fazer coisas diferentes. Conforme o tempo foi passando, fui ficando mais à vontade e comecei a experimentar, mas só com a visibilidade isso ficou evidente. Nunca fiz algo quadrado nem sério. Para tentar trazer mais dinamismo para a transmissão, coloquei na cabeça: se um dia eu trabalhar com narração de forma frequente, vou buscar fazer uma interação do jogo com coisas do estádio, do cotidiano e até com subcelebridades exóticas. Só que os bordões têm prazo de validade. Você não pode ficar refém deles, senão o público se perde. É legal fazer a ponte com  o cotidiano, mas é preciso saber quando parar, entender o timing do bordão.

POLITICAMENTE CORRETO

Tento driblar polêmicas porque sei que há uma patrulha muito grande. Para evitar polêmicas, imagino o que passa na cabeça das pessoas. Sigo a linha da sinceridade na narração. Se o Brasil está jogando vôlei, vou torcer para o time, mas também não vou ignorar o adversário. Vou admitir quando está jogando bem e trazer dados sobre ele. Mas, quando precisar, vou ser irônico com o ufanismo, “chamando” o Olodum e o Márcio Canuto. Muitas vezes o ufanismo é fabricado nas transmissões.

FUTEBOL AMERICANO

Estamos fazendo coisas que têm pouquíssimo tempo no Brasil. Espero que, em 2060, as pessoas olhem para a trajetória do futebol americano aqui e vejam nosso nome [Rômulo é um dos narradores de jogos da NFL na ESPN]. Como é o início, vai ser marcante, mas não sei qual vai ser nossa influência. Acredito que o esporte vai crescer sozinho no país: tem força, velocidade, impacto e estratégia, coisas que o brasileiro gosta. Acho que em um futuro não tão distante poderemos ver partidas de futebol americano em TV aberta. Falta a cultura do esporte. O brasileiro não cresce vendo isso e cria uma barreira por não ter conhecimento básico.

JORNALISMO HOJE

Um problema dos jornalistas atuais é a queima de etapas. Nos anos 1970 e 1980, quase todo mundo passava pelo rádio antes de ir para a TV, e isso dava capacidade de improviso. Hoje, as transmissões são muito engessadas. É preciso ter a noção de que, fazendo algo ao vivo, você comete erros. Nas transmissões mais quadradas, quando se comete um erro, a reação é a de tentar esconder ou ficar abalado, esperando reações negativas do canal ou das redes sociais e antissociais. O erro é natural. Uma mistura de falta de sensibilidade e temor resulta na transmissão engessada. Sinceridade e coragem são algo que falta no jornalismo esportivo atual. As transmissões são marcadas pelo conservadorismo.

FUGINDO DA POLÍTICA

Sempre vou tentar evitar falar de política. Busco o humor em relação ao assunto porque não há diálogo. O que há são conversas entre surdos. Ninguém pensa em se retificar porque escutou bons argumentos contrários. Todos estão só gritando. Não vou desperdiçar tempo dando uma opinião política porque sei que não vou estabelecer diálogo. Seria uma perda de tempo falar em um cenário de guerra. Ninguém vai vencer e essa conversa afiada vai continuar