Ninfomaníacas

Ninfomaníacas

Inspirada pelo novo filme de Lars Von Trier, Carol Teixeira vai a campo para falar com mulheres que adoram sexo acima de tudo

Por: as 3:02 pm em 24/02/2014


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Todos nós já ouvimos sobre celebridades que foram diagnosticadas como viciadas em sexo: Michael Douglas, Tiger Woods, Charlie Sheen e outros tantos nomes que causaram frisson nos tabloides com suas peripécias sexuais. Uma personagem de Gwyneth Paltrow pergunta num filme sobre o assunto: “Mas isso não é a desculpa que os homens dão quando traem?”. Não. O vício em sexo pode ser um problema sério e nem sempre fácil de diagnosticar. Na época do lançamento de Shame, filme de Steve McQueen que tinha Michael Fassbender como o protagonista viciado em sexo, lembro que uma amiga comentou: “Mas todos os homens são assim”. Eu fui contra esse comentário dela e fiquei pensando sobre o quanto a sexualidade humana é ampla e inclassificável. É muito difícil saber onde acaba a tal normalidade e onde começa um estado patológico relacionado a isso.

Esses dias vi o recém-lançado e polêmico A Ninfomaníaca de Lars von Trier e me peguei pensando a mesma coisa. Será que a menina do filme não poderia ser apenas considerada uma pessoa um tanto compulsiva, que buscava novas experiências para se entender sexualmente? Aquela busca era, de fato, um vício? Fiquei fascinada pelo tema, comecei a analisar meu histórico sexual e o dos meus amigos, fui em grupos de viciados em sexo (cheguei a dar depoimento) e decidi escrever sobre isso. Tinha muitas dúvidas: em que ponto exato gostar muito de sexo vira um vício?

Saí falando com todas as mi—–nhas amigas para descobrir se elas sabiam de alguém que curtia tanto sexo a ponto de beirar o vício. Depois de ouvir a mesma piadinha de 99% delas (“Você!”), acabei falando com duas mulheres que reconheceram, sim, ter questões relacionadas a is-so. Vamos chamá-las de L. e M.

Antes, um pouco de ciência: “A satiríase e a ninfomania são os termos médicos clássicos para o desejo sexual excessivo em, respectivamente, homens e mulheres, mas não há um consenso se tais quadros devem ser classificados como transtornos dos impulsos, como dependência, ou como um subtipo de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)”, me disse o psiquiatra Eduardo Aratangy, supervisor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Segundo ele, geralmente há o diagnóstico quando os comportamentos sexuais excessivos (frequentes e repetitivos) trazem sofrimento e prejuízos para pessoa. “A percepção de sofrimento surge quando os relacionamentos afetivos mais importantes são comprometidos, quando há consequências sociais e profissionais.”

Este é o caso de L., que foi procurar ajuda no Dasa, grupo de auxílio para dependentes de amor e sexo. Ela me contou que desde a adolescência sempre achou o sexo a forma mais fácil de agradar e ser aceita. “Tinha essa tendência de oferecer sexo em troca de aceitação e achar que as pessoas me amariam por isso. Foi um padrão destrutivo de ação que eu estabeleci muito cedo na minha vida”, diz.

L. é sexualmente compulsiva, tem a necessidade de gozar muito rápido e várias vezes numa relação sexual e quando se masturba diz não ter tempo para ver filmes ou imaginar fantasias elaboradas, quer logo chegar lá para logo ter um outro orgasmo, processo que ela reconhece como completamente mecânico. Vê o sexo como a maneira mais fácil de preencher lacunas e insatisfações de sua vida. L. resolveu mudar quando sentiu que tal comportamento estava afetando de forma significativa seus objetivos em relação a sua vida pessoal. “Tem gente que está feliz da vida dando livremente por aí, mas não é meu caso – então por isso quero tratar essa minha relação com sexo.” L. reconhece que muito do seu comportamento vem também da baixa autoestima que acaba refletindo no que ela considera um mau uso do próprio corpo.

Já minha amiga M. se encaixaria no que L. se referiu como “gente que está feliz da vida dando por aí”. “Sempre tive uma sexualidade muito aflorada. Quando eu era mais nova, era mais descontrolada, já fiz sexo oral em metrô meio vazio, já transei no fundo de um ônibus, já dei numa van de uma banda sem ninguém ver. Sempre fui hipersexualizada e percebia isso quando falava com minhas amigas, que não tinham a mesma ânsia que eu”, diz ela.

M. curte homens e mulheres, dá no primeiro encontro sem culpa caso sinta vontade e diz que algumas práticas sexuais que mulheres em geral fazem só para agradar ao parceiro (tipo deep throat e sexo anal) ela faz com muito prazer. Masturba-se em média seis vezes por semana e diz que sempre gostou de ver filme pornô por curiosidade e para aprender coisas no-vas. “Sexo para mim resolve tudo. Por exemplo: eu teria ciúme de uma menina bonita falando com meu namorado ou dando em cima dele numa balada, mas não teria de vê-la na minha frente dando para ele” (nesse ponto, lembrei da última frase do livro Juliette Society, da ex-porn star Sasha Grey: “Sexo é o grande equalizador”). Quando pergunto se ela já cogitou a hipótese de ser uma viciada em sexo, ela nega: “Nunca me atrapalhou, até meus amigos machistas me respeitam muito, sabem que eu não ultrapasso limite ético, meu grande desejo sexual não atrapalha ninguém”.

O que ficou claro para mim é que geralmente o vício no sexo vem juntamente com outros problemas e compulsões. Quem realmente era considerado ou se considerava viciado tinha vários outros problemas ligados à compulsão – vício em sexo é algo que raramente vem sozinho.

E sobre a piadinha das minhas amigas que eu devia dar depoimento para minha própria matéria? Eu diria que eu me encaixaria mais no perfil de M. e em sua visão leve sobre o assunto. Será que não fui eu que dei esse depoimento? Vocês nunca vão saber.

Carol Teixeira tem o blog aobscenasenhoritac.com.br. Siga-a: @carolteixeira_

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Por: em 24/02/2014

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