Nos tempos do telefone com fio

Nos tempos do telefone com fio

Quando não existia Facebook, Twitter e nem celular, a ideia de ficar sozinho era bem mais fácil de engolir

Por: as 12:34 pm em 22/06/2011


Nos tempos do telefone com fio

Levar bolo doía bem menos há 30 anos. Doía menos porque era bem mais comum. O telefone fixo era a única ferramenta disponível para combinar um encontro: quando um dos dois saía para a rua, a sorte estava lançada. Então, se fazia indispensável combinar direitinho antes de sair, mas claro que ninguém fazia isso.

As possibilidades de desencontro eram infinitas. Um dos dois poderia ter entendido errado o nome do bar, o nome do filme, o horário da sessão, a esquina em que se encontrariam. O pneu do carro poderia furar. A mãe dela poderia obrigá-la a tomar conta do irmãozinho pirralho. Vocês poderiam estar a poucos metros um do outro, mas caminhando sempre na direção errada na tentativa de se encontrar…

Esse era um terreno fértil para as desculpas esfarrapadas. Ficava fácil engambelar alguém quando não existia Foursquare, e éramos conscientes disso – fôssemos nós as vítimas ou os golpistas. Barracos em espaço público eram comuns. Como foi ouvido na Rua da Consolação, em São Paulo, num sábado de 1984: “Porra, Valdemar, eu fiquei plantada no cine Belas Artes e você aqui, bebendo com essa vagabunda no Riviera! ”. Quando o flagra não acontecia, ninguém se preocupava muito em investigar a causa do no-show.

Se você acha que o mundo de hoje é louco, saiba que nos anos 1980 as pessoas pagavam o preço de um carro usado para usufruir do direito de ter uma linha telefônica. Alguns compravam várias linhas e as alugavam para gente que não tinha grana para ter o próprio telefone. Você usava um bom tanto da sua memória para guardar os números mais importantes. Os outros eram rabiscados na agenda de papel ao lado da base do aparelho. O número da gata da balada você anotava num guardanapo ou no canhoto do talão de cheques. Então vinha a função de ligar. E se atendesse o pai? E se o irmão mala escutasse na extensão? Às vezes, a irmã mais nova demorava horas para desocupar a linha. No fim, tudo dava certo. Ou não.

O mundo dos anos 1980 era mais surpreendente que o atual. Obrigado a discar cada algarismo do número daquela chata cada vez que telefonava com sede de amassos fúteis, você tinha belas chances de chamar o telefone errado – um(a) usuário(a) aleatório, não outro contato da lista do seu celular. Numa dessas, poderia topar com o amor da sua vida, se é que você acredita nisso. O mesmo poderia acontecer quando você levava bolo no cinema, no bar, no show do Tarancón.

Não quero convencer ninguém de que isso acontecia sempre, porque não acontecia. O normal era aceitar a solidão. Nada de ligar 34 vezes para o celular, mandar SMS e DM, checar o perfil do Facebook atrás de uma atualização suspeita. Você fazia o que tinha que fazer, via o filme, bebia, jantava, sei lá. E chegava em casa sozinho, resignado,  com a esperança de que a secretária eletrônica tivesse um recado que não fosse da sua mãe.

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Por: em 22/06/2011

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