Maratonistas dão dicas de como se preparar para uma longa corrida

O que leva uma pessoa normal (ou mais ou menos, vai), que não vive do esporte e tem uma profissão comum, a correr ladeira acima? Em três depoimentos, algumas respostas. E inspirações para sua vida

Quarenta e dois quilômetros correndo não é tarefa para qualquer um. Quarenta e dois quilômetros de subida, então, é coisa apenas para superatletas, confere? Pois 50 pessoas normais (ou quase isso), que não são corredoras profissionais, passaram um fim de semana inteiro me provando que não, correr uma maratona (e para cima, ainda por cima) não é um absurdo. E que qualquer ser humano que treine, se esforce e queira mesmo pode fazer exatamente a mesma coisa.

Essa restrita turma – chamada, não por acaso, de “survivors” – faz parte de um grupo de atletas amadores escolhidos a dedo, com a ajuda de treinadores de corrida do país todo, para a Mizuno Uphill Marathon, primeira prova de subida do país, que aconteceu no último dia de novembro, na Serra Rio do Rastro, em Santa Catarina. Mesmo sob forte neblina, garoa chata, rajadas fortes de vento e temperatura de 10 graus (com sensação térmica de bem menos) no pedaço mais gelado do país, nenhum desses 50 sujeitos desistiu. Nem quem teve de receber glicose no meio do caminho ou ultrapassou a linha de chegada com princípio de hipotermia. Para entender melhor que tipo de motivação têm pessoas que encaram, por vontade própria, um desafio desses, conversamos com três delas. Nas respostas, lições que servem como inspiração para todos nós.

Sensação de poder – Frederico Mendes Vieira, médico, 36 anos

“Comecei a correr faz apenas dois anos. Fui para a academia pois estava 11 quilos acima do peso. Na esteira, fazia aquele treino de dois minutos caminhando e um de corrida. Em um mês e meio tive uma grande evolução e já fazia 40 minutos sem parar. Disse meio sem pretensão para meu treinador que queria correr a São Silvestre e um dia depois ele apareceu com minha inscrição.

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Foto: Marcelo Maragni

Em 17 de outubro de 2011, ele fez minha primeira planilha de treino. Quatro dias antes da prova eu, de 84,9 quilos que tinha, estava com 72,4. Peguei gosto e passei a fazer uma ou duas provas por mês. Foram umas 40 até agora. Sou ginecologista e obstetra e tenho cirurgias todos os dias das 6h às 9h da manhã. Depois, até o começo da tarde, faço consultas pelo município de São Joaquim, SC, onde moro. E atendo na minha clínica até as 21h. Meus treinos começam às 21h30 e são sagrados. Pode estar nevando – e como moro em São Joaquim estou falando literalmente – que não falto.

Trabalho com um nível de stress alto e mesmo assim, ou por isso mesmo, encontro motivação para treinar. Quando você começa a correr e a gostar daquilo, quando a corrida deixa de ser sofrida, a sensação que dá é de poder e você passa a imaginar que não há mais distância impossível. A gente não sabe o que é esse tal bichinho da corrida, mas sabe que ele nos morde. Correr a 14, 15 km/h, com vento no rosto, nos faz pensar como somos privilegiados de estarmos vivos. Podia estar dormindo, barrigudo, mas estou aqui, fazendo uma coisa legal. A sensação é de que aproveitei meu dia, de que aproveito minha vida.”

Frederico teve que fazer um parto complicado após terminar a maratona Uphill em sexto lugar entre os homens – no fim, deu tudo certo.

Um vício bom – Jacques Fernandes, leiloeiro, 41 anos

“Dois amigos que iam à Hípica de São Paulo, que frequento há 13 anos, desde que me mudei do Rio Grande do Sul, treinavam corrida e me chamaram para correr com eles. Depois de um tempo, resolvi fazer uma prova de 10 km e a completei em menos de 50 minutos. Para quem, como eu, gosta de competições, a corrida é perfeita.

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Foto: Marcelo Maragni

Quando você corre, quer ir aumentando seus desafios. No segundo ano correndo, já fui para a Maratona de Chicago. Quanto mais difícil uma prova, maior a satisfação quando ela termina. Inconscientemente, traçamos objetivos complicados para o fato de realizá-los nos deixar com essa satisfação. Além das distâncias, pensamos nos tempos. Queria correr minha primeira maratona em 3h15min. Não consegui. Cheguei com 3h22min. O divertido da corrida é que, quando você não consegue, fica estimulado a fazer melhor na próxima. E, quando consegue, quer melhorar ainda mais. É interminável. Por isso, voltei para Chicago e corri em 3h06min. Ótimo – mas aí quis correr em menos de 3h.

Fiz a sub-3 em Berlim, em 2h58min. Obviamente que não parei e quis melhorar meu tempo. Fiz também Iron Man. Treinar é árduo. A prova, então, acaba sendo o paraíso. Coisas assim mostram que tudo na vida é possível. Qualquer pessoa pode fazer, no seu ritmo, se tiver persistência. Isso te deixa forte para o resto da vida, para o dia a dia, para quem trabalha e acorda cedo. Nada é mais difícil do que aquilo. Também funciona ter motivação psicológica. Já corri para homenagear meus afilhados e grandes amigos, que perdi em um acidente de avião, por exemplo. Pensar neles no meio da prova me fortaleceu. O importante para o atleta amador é se motivar. E assim vamos nos enganando. Admito que é um vício. Mas é saudável.”

Jacques foi quarto lugar masculino na Uphill e já correu uma maratona empurrando o carrinho de bebê da filha, dando mamadeira para ela e ouvindo Galinha Pintadinha.

Bem-estar – Leonardo Sant’Anna Antunes Maciel, engenheiro de computação, 32 anos

“Pratico esporte desde criança. Comecei com natação e, aos 12, descobri os patins. Mais tarde, fui para a academia e passei a praticar spinning. Fazia ao menos duas aulas por dia. Descontava todos os meus estresses no esporte – nunca precisei de terapia. Meu primeiro contato com a corrida foi quando encontrei um amigo, aos 23 anos, que treinava para uma meia maratona. Perguntei, à toa, se podia acompanhá-lo nos treinos. Também me inscrevi para a meia e fiz em um tempo modesto, 1h55min – mas cheguei antes do meu amigo. Mais tarde, achei que dava para encarar a Maratona do Rio. Fui orientado pelo treinador a correr só metade. Pedi então para minha mãe ficar no meio do percurso com alguns géis [de carboidrato, para dar energia] e, se estivesse bem, continuaria. Continuei, mas teve uma hora que minhas pernas travaram.

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Foto: Marcelo Maragni

Fiz os últimos 4 km em um trote sem-vergonha, mas cheguei, feliz. Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia, eu estudava engenharia de computação, trabalhava desde o primeiro período e fiz mestrado. Sempre estudei bastante. Depois da primeira maratona, tomei gosto. Fiz a segunda meses depois, em Amsterdã. Cheguei a treinar triatlo e até fiz três provas de Iron Man, mas decidi ficar só na corrida. Gosto de testar os limites do corpo, da mente, ver até onde posso chegar. A sensação no fim é de dever cumprido, de recompensa pelo esforço e dedicação. Uma sensação de reconhecimento, como uma promoção no trabalho. Isso muda uma vida.”

Leonardo, campeão da Uphill Marathon, passou a lua de mel na Itália só para correr uma prova de 88 km – sua mulher correu 48 km.

Lições de dois ultramaratonistas

Bernardo Fonseca, atleta profissional e organizador da Uphill, e Clayton Conservani, repórter da TV Globo, deram algumas dicas para os atletas. Use-as na corrida e no dia a dia.

Gerencie seu problema
Fato: todo mundo terá um problema a certa altura. O negócio é sacar que não é só você que está em apuros. Nos momentos ruins, vale pensar em coisas bacanas, em sua família, no filho, qualquer coisa que renove sua energia e o empurre para a frente.

Faça a sua parte
Não se importe com o que os outros fazem, o ritmo deles. Faça a sua prova e dê o melhor de si. E tenha em mente a regra básica: não olhe para trás. Se fizer isso, o cara que está colado em você vai te pegar, tenha certeza.

Não existe milagre
Nada cai do céu, meu caro. Se você quer se dar bem no trabalho, tem que trabalhar bastante e bem. Se quer se dar bem no esporte, tem que treinar para caramba.

Tenha parceiros
Provas longas têm altos e baixos. Se você tiver alguém do seu lado que te puxe quando você está mal – e a quem você retribua na hora certa –, o negócio fica mais fácil.

O sofrimento é passageiro
Mas desistir é para sempre. Não se esqueça disso.