Um pequeno guia de corrida urbana pelo mundo

Praticar esportes é uma das maneiras mais legais de conhecer uma cidade. Conheça as sete pistas urbanas preferidas de um escritor e corredor português

Somos um olhar que avança pela cidade, detendo-se em nada, como se desligados das imagens do mundo e, aparente paradoxo, levando-as dentro de nós. Dependendo da sua resistência, a corrida permite que, relativamentemente rápido, se percorra distâncias que, caminhando, parando em vitrines, poderiam demorar tardes inteiras. Há poucas formas mais envolventes de se descobrir uma cidade.

Ao longo dos anos, tenho tido a oportunidade de correr um pouco por todo o mundo. Para ilustrar a experiência, escolhi sete cidades essenciais, sete pistas de corrida a céu aberto. Vá sem medo. Leve um cartão com o endereço do hotel e saia correndo. Quem corre sabe como é um hábito que vicia, entra na própria identidade. Correr pelo mundo é força misturada com abundância. É vida condensada.

Nova York

Mesmo considerando o trânsito, a fumaça e os semáforos constantes, vale a pena correr nas calçadas da cidade. Nenhum nova-iorquino se surpreende, claro. Vale a pena subir ou descer a Quinta Avenida. E vale a pena correr pela Broadway e chegar à Times Square em absoluta glória. Outras opções igualmente atraentes estão ao sul de Manhattan, no Battery Park, perto do distrito financeiro, ao largo da Estátua da Liberdade; ou na Brooklyn Bridge, sobre o Rio Hudson, com vistas incríveis para uma e outra margem. Mas…

Man runs across Brooklyn Bridget at dusk.

(Kristen Elsby/Getty Images)

Minha indicação: é mesmo o Central Park. Todo mundo já viu algum filme em que os personagens corriam no Central Park. Essa é uma das cenas marcantes da cidade. É assim mesmo que nos sentimos, dentro de um filme. A grande dimensão e a quantidade de trilhas permitem inúmeras combinações, mas o percurso mais tradicional é em torno do reservatório de água Jacqueline Kennedy Onassis, ou “The Res”, como os moradores o chamam. Nesse caminho circular de 2,5 quilômetros, a superfície é plana e há marcadores de distância. A qualquer hora do dia, há pessoas de todas as formas correndo a todas as velocidades, com todos os estilos possíveis. Assistir a essa diversidade é estranhamente viciante.

Miami

South Beach, ou SoBe como dizem os locais, contém a grande maioria das imagens emblemáticas de Miami. É também um dos melhores cenários para correr na área metropolitana da cidade. Na própria praia, a areia branquíssima, igual aos postais, não é muito solta e permite uma passada segura. Para quem não gosta muito de tirar areia dos tênis…

Minha indicação: é o calçadão que acompanha toda a praia. Começando na famosa Ocean Drive, com seus bares e edifícios de art déco, o Lummus Park é excelente para o aquecimento. E, logo depois, há os mais de 6 quilômetros de calçadão. De um lado, a praia e o cheiro do Atlântico. Do outro, toda a sofisticação dos hotéis de Miami: arquitetura limpa, piscinas cheias, gente bronzeada.

Lisboa

Um bom jeito de conhecer Lisboa é correndo nas ruas intrincadas dos bairros mais tradicionais, como Madragoa, Mouraria e Bairro Alto, entre outros. É preciso estar preparado para subidas íngremes e prestar atenção para não se perder nas vielas mais labirínticas. Mas a melhor ideia é a corrida ao longo do Tejo.
O rio acompanha a cidade de Lisboa, que se ergue a partir dele: colinas cobertas por casas, como bancadas de um enorme anfiteatro. Na zona de Belém, há sempre gente correndo ao longo do rio. Na outra ponta da cidade, também junto ao Tejo…

LISBON, PORTUGAL, FEB 08 2010, Tagus River shore in Lisbon is a popular jogging an cycling area for sports people and families. Here a men jogging goes by 25 April Bridge.

(Miguel Angelo Silva/Getty Images)

Minha indicação: é o Parque das Nações. Essa é uma área que foi reestruturada no fim dos anos 90 e que consiste num enorme local de lazer, sem trânsito, com vegetação, arquitetura moderna, onde os lisboetas saem para passear – ou, claro, para correr. São 5 quilômetros ao longo do rio com várias opções de trilhas – todas elas calçadas e com ótima estrutura.

Buenos Aires

Correr na cidade do tango? Sim, claro. Puerto Madero é um dos lugares preferidos para muitos. Os longos calçadões são divididos com ciclistas e patinadores, sobretudo no fim de semana. Toda a área é renovada, oferece bom piso, além da tranquilidade das margens do Rio de la Plata, com suas águas opacas. Mas o trânsito em Buenos Aires pode ser um problema. Nesse caso, o melhor é encontrar opções mais próximas de onde estamos hospedados. Na região de Palermo, por exemplo…

Minha indicação: é o Parque Tres de Febrero, nos chamados Bosques de Palermo. Aí, contornando o lago ou seguindo por um dos muitos caminhos dos mais de 25 hectares do parque, há boas condições e segurança para manter a forma. A trilha toda pode alcançar até 10 quilômetros, com a vantagem de haver vários equipamentos de treinamento ao longo dela, para quem quiser fortalecer ainda mais os músculos. Mas atenção: deve-se evitar o parque quando começa a escurecer.

Cairo

O melhor é acordar bastante cedo. Informe-se sobre a hora em que nasce o sol: é o momento ideal para a corrida. Não apenas pelas temperaturas, mas também pelo trânsito. Esse é um problema grave que os habitantes de lá enfrentam todos os dias. Diz-se que há um código que permite aos condutores comunicar-se por buzinas. Talvez seja assim, mas, quando se está correndo, a última coisa que se quer é um carro buzinando nas costas. O chamamento matinal para a oração, a partir de alto-falantes nas torres das mesquitas, e o coro de vogais arrastadas acertam-nos no peito enquanto corremos. Mas o melhor lugar para se correr na cidade é outro.

Minha indicação: é a pequena Ilha de Zamalek, no meio do Rio Nilo. Apesar de toda animação, que vai crescendo ao longo da manhã, trata-se de um bairro tranquilo e, seguindo ao longo do rio, de lindos cenários. Mas as ruas em muito mau estado e os carros estacionados em cima da calçada exigem atenção.

Pequim

Na China, tudo é sempre novo. Correr em Pequim é uma oportunidade. As ruas são imensas, têm calçadas amplas, próprias para muita gente, e são extensas, sem fim. As grandes diferenças culturais permitem imagens incríveis: trabalhadores fazendo ginástica sincronizada na porta da empresa, grupos de estudantes de uniforme, vendedores ambulantes de tofu. Mas há uma séria desvantagem: a poluição. A qualidade do ar é muito, muito baixa. Uma máscara é aconselhável. Para amenizar…

Minha indicação: correr no Parque Florestal Olímpico. O maior parque de Pequim tem ótimas trilhas asfaltadas com marcações de 3, 5 e 10 quilômetros. Como carros não podem passar pelos portões e o local tem inúmeras árvores, o problema do ar mesmo nos dias mais poluídos é muito pouco sentido. No cenário, multidões que se juntam para cantar, dançar, praticar tai chi com ou sem acessório: espada, leque etc.

Paris

A magia de correr nas margens do Rio Sena dispensa grandes explicações. Não é preciso ser um casal de corredores em lua de mel para se interessar pela ideia. Junto às águas, há caminhos que estão vários metros abaixo do nível das ruas. É por aí que se deve seguir, fazendo corridas imaginárias com os barcos, passando por baixo de pontes que foram atravessadas pelo próprio Napoleão. Além desta escolha óbvia…

Two men running with the view of Note Dame in day (Paris, France, Europe)

(William Allard/Getty Images)

Minha indicação: é o Bois de Vincennes ou do Bois de Boulogne, ambos com histórias de muitos séculos e paisagens inesquecíveis. O primeiro tem quase 1.000 hectares, abriga o zoológico da cidade e a melhor rota de corrida é de chão batido com 6,9 quilômetros. O segundo tem mais que o dobro da área do Central Park de Nova York e pessoas andando de pedalinho e a cavalo. O percurso mais popular tem 10 quilômetros, também de terra batida.