Nasci com a VIP em 1981 e, desde então, ganhamos corpo juntos: ela, como referência de moda e comportamento; eu, como um sujeito obeso, cheio de dobras. Resultado de muita pizza, cerveja, coxinha, refrigerante, ovo rosa e salsicha verde de boteco e congêneres. Não que eu fosse preguiçoso e não me exercitasse: sempre bati um futebolzinho — primeiro no Atari, depois no Master System e Mega Drive e, agora, no PlayStation. Assim, cheguei aos 30 fazendo parte do não tão seleto grupo dos pré-obesos — na linguagem popular, “gordinhos”. Minha circunferência me angariou vulgos de variada sorte: rolha de poço, Seu Barriga, Free Willy e alguns outros impublicáveis. O mais recente nasceu dentro da redação da VIP: Panda. Segundo o pessoal da revista, eu pareço Po, o personagem central de Kung Fu Panda.

Para celebrar as três décadas de vida da revista e deste Panda que vos escreve, VIP resolveu me colocar para malhar. Três meses dentro de uma academia, com uma dieta balanceada e apoio de profissionais competentes, para ficar saudável e perder uns quilos. Quando a proposta foi feita, houve torcida contra. Gente da redação já até havia bolado  o título da matéria: “Fiquei três meses na academia e perdi 90 dias”. A missão parecia impossível, de fato. Por isso, foi escalada a equipe da D’Elia Sports Consulting, espaço dedicado a atender desde executivos sem tempo para malhação até atletas profissionais como Bruno Senna e Robert Scheidt. Se José Rubens D’Elia conseguiu preparar atletas e equipes do Brasil para as Olimpíadas de Los Angeles, Seul, Barcelona,  Sydney, Atenas e Pequim, o que não poderia fazer por um Panda que desejava apenas perder uns poucos quilos e ter uma vida mais saudável?

Minhas sessões de tort… de treino
Ter as unhas arrancadas com alicate? Sofrer sessões de afogamento? Tomar choque no mamilo? Tudo isso é fichinha! Quem quiser torturar um gordinho sedentário como eu é só fazê-lo seguir esse ritmo de treino cinco vezes por semana. A sessão ao lado foi um modelo do que tive de enfrentar nos últimos meses. Vale lembrar: não faça exercícios sem a supervisão de um profissional

1º mês
Aeróbio

  • 5 minutos de caminhada a 6 km/h + 3 repetições de (3 minutos de trote a 8 km/h + 2 minutos de caminhada a 6 km/h)
  • 10 minutos de bicicleta (90 rpm)

2º mês
Aeróbio e musculação

  • 5 minutos de caminhada a 7 km/h + 3 repetições de (5 minutos de corrida a 9 km/h + 3 minutos de caminhada a 7 km/h)
  • 3 x 15 flexões
  • 3 x 15 abdominais (posterior, lateral direito e lateral esquerdo), com bola ou sem
  • 3 x 15 legpress
  • 3 x 15 agachamentos com peso
  • 3 x 15 peitorais
  • 3 x 15 costas

3º mês
Aeróbio, musculação e exercícios na cama elástica

  • 5 minutos de caminhada a 7 km/h + 4 repetições de (10 minutos de corrida a 9 km/h + 5 minutos de caminhada a 7 km/h)
  • 3 x 15 flexões na camaelástica
  • 3 x 1 minuto de explosão (corrida em velocidade alta) na cama elástica
  • 3 x 50 cordas na cama elástica
  • 3 x 15 abdominais (posterior, lateral direito e lateral esquerdo), com bola ou sem
  • 3 x 15 legpress
  • 3 x 15 agachamentos com peso
  • 3 x 15 peitorais
  • 3 x 15 costas

Cenouras e cervejas
O programa em que D’Elia me inseriu se chama “atleta corporativo”. Eu não sou atleta nem um corpo ativo, admito. Mas José Rubens me explica: “O executivo sempre fala que não tem tempo. Ele gosta de performance e, se não vê resultados, ele abandona os exercícios. Se a atividade física não fizer com que ele se ligue a um projeto de vida maior — profissional, pessoal —, ele para”. A fim de evitar a desistência, a equipe trabalha com aquela ideia bastante comum em desenhos animados: a cenoura presa na frente do burro. O “projeto de vida maior” é o objetivo — a cenoura. Na primeira conversa que tive com José Rubens, ele perguntou qual era a minha cenoura:

— Ir de São Paulo ao Rio de Janeiro, onde mora minha namorada, a pé — respondi, sem imaginar que logo no primeiro treino eu me depararia com um desafio maior que a Dutra: eu mesmo.

Em 8 minutos de corrida, fiz pouco mais de 1 quilômetro. Tempo e distância suficientes para meu coração chegar a 182 batimentos por minuto — para alguém com 30 anos, é um risco o coração chegar a 190. Doíam a coxa e o tornozelo. Faltava-me o ar. Fui um fracasso naquele Ibirapuera. Meu treinador Fernando Couto me disse para caminhar e diminuir os batimentos. Ao fim, foram 5 quilômetros em 50 minutos.

— Você perdeu calorias equivalentes a duas latinhas de cerveja — disse Fernando, querendo tirar de mim uma animação que não existia.

— Falando em… cerveja… uma gelada… agora… cairia bem — arfei em resposta. Eu falava sério. O relógio ainda não havia batido 11h da manhã, e Fernando obviamente não topou.

Não comecei bem minha vida de atleta, mas tinha de seguir adiante. Não fosse a obrigação de escrever este texto, eu teria desistido logo na primeira corrida. Que mania besta esse povo tem de correr! Mas com o peso do ofcio e da missão assumida, continuei, entre dores e frustrações.

Enquanto tentava domar minha respiração e meus músculos, passei a adotar hábitos que eu considerava saudáveis. Comia apenas salada, malhava até a exaustão e até adquiri um costume curioso: fazer supermercado comendo minicenouras. As pessoas me olhavam estranho quando eu abria o saquinho de minicenouras e começava a curti-las como se fossem Ruffles. Achei que me alimentando pouco estava fazendo a coisa certa. É o pensamento mais comum. Descobri que estava enganado quando conheci uma bela mulher que viria a mexer não com meu coração, mas com meu estômago e metabolismo.

Sebo nas canelas
Se você viu um Panda bufando no Ibirapuera, era eu. No primeiro e no último treino, eu corri no parque para medir quanto tempo e qual o esforço necessário para atingir o ápice de batimentos cardíacos.

Primeira corrida
16 de fevereiro

  • velocidade: 7,9 km/h
  • distância: 1 060 metros
  • Tempo: 8 minutos (a cada 2 minutos de corrida, intervalo de 3 minutos para caminhada, o que no total somou 17 minutos)
  • BPM: inicial = 129 / máximo = 182

Última corrida
6 de Maio

  • velocidade: 9,1 km/h
  • distância: 2 270 metros
  • Tempo: 15 minutos (direto, sem intervalo. Parei porque tive cãibras)
  • BPM: inicial = 127 / máximo = 183

Minha vida por uma pizza
Carolina Carnevalli, nutricionista que cuidou de mim durante os três meses, recebe este gordinho aqui com um sorriso redondo. É a primeira consulta. “Ela é linda”, penso, “e deve ter uns 55 quilos.”  Desde que passei a me exercitar, o peso das pessoas tem me assombrado — mas não mais do que minha própria massa à época: 87,8 kg. Outra obsessão é a quantidade de calorias das coisas: meu refrigerante favorito tem 149, meu fast-food preferido tem 590 e aquela noitada com cerveja e amendoim não sai por menos de 1500 calorias. Sei isso de cor.

— Como tem sido seu almoço? — pergunta Carolina.

— Basicamente só salada. Não mais que 1500 calorias ao dia.

Vem o esporro. Suave, quase maternal, mas ainda assim um esporro. Carolina diz que é preciso comer de maneira variada. Salada faz parte do cardápio, claro, mas quem quer perder peso deve comer de verdade. Para quem treina, carboidrato é fundamental, pois ele é responsável por gerar energia — caso contrário, o atleta passa a queimar massa magra (músculo) em vez de gordura. Eu, cujo  conhecimento de nutrição se resumia a “quando não aguentar comer mais, pare”, senti um alívio. Aquele monte de folha mexia com meus nervos a ponto de me fazer pensar em entrar na academia com uma calibre 12.

Carolina vai além: não basta comer de tudo, é preciso comer sempre. Parece contraditório, mas a nutricionista explica: “Seu corpo ‘pensa’. Ele pensa que deve se manter vivo, o que significa que precisa acumular energia — ou seja, gordura. Seu corpo ‘luta contra você’, entende? Por isso, se você faz apenas três refeições por dia, seu metabolismo fará com que o acúmulo de gordura seja maior. É uma forma de autopreservação. Mas tente ingerir algo a  cada duas ou três horas — uma fruta, uma água-decoco, coisas leves —, e logo seu corpo vai pensar: ‘Não preciso mais guardar energia porque daqui a pouco tempo terei comida de novo’.” O corpo de Rodolfo é um imbecil.

A partir daí, Carolina montou uma dieta superior a 1900 calorias ao dia. Ela chegou a este número por meio de cálculos que indicaram o metabolismo basal deste Panda aqui. “Imagine que você está em  coma. Sem movimento algum, sem piscar, sem mover um músculo. Seu corpo, apenas para se manter vivo, consumiria aproximadamente 1900 calorias por dia. Portanto, você nunca deve ingerir menos que isso.”

— E se eu consumir menos? Eu morro?

— Não. Mas, se consumir menos calorias, seu corpo se acostumará a isso. O que significa que, caso um dia você consuma mais do que seu corpo precisa, logo se tornará gordura.

— Sabe, Carolina — eu digo, fazendo da nutricionista uma terapeuta —, eu poderia matar por um pedaço de pizza.

Carolina olha com ternura.

— Comida mexe com os nervos mesmo — comenta ela. — Mas, ó, não faça nada radical. Quando sentir uma vontade grande de comer algo, coma. Não adianta ficar magro e infeliz. Só não abuse. E suas fezes, como estão? — pergunta a bela doutora, sem cerimônias.

— Obrigado por perguntar — respondo, olhando para o chão. Não curto muito falar de cocô com ninguém. Principalmente, com uma linda mulher.

Dissecando o repórter
Confira alguns índices corporais extraídos no primeiro e no último treino e faça sua aposta: quanto tempo eu preciso para ser um fisiculturista?

O pior aluno do mundo
Eu treinava por obrigação. Afinal, eu era um “sedentário total”, segundo Marcio Torres, meu outro treinador. Ia de cara amarrada para as sessões. Provocava a equipe. “Quando eu sair daqui, vou comer uma pizza!”, dizia a Marcio. Ficava feliz quando tinha de trabalhar mais e, assim, faltar à academia. Tomava refrigerante escondido, tal qual um fugitivo. Eu era um Panda raivoso, mal-humorado. E minha ira aumentava quando eu sentia o pulmão queimar e, ao olhar no mostrador da esteira, ver que haviam se passado apenas 10 minutos.

— Eu diria que você foi o pior aluno que eu já tive na vida — viria a confessar Fernando tempos depois, aos risos. — Mas sua pior fraqueza não foi muscular, mas de motivação.

A raiva foi passando quando eu comecei a ver os resultados.

— Você parou de roncar, graças a Deus. O som do seu ronco era igual ao de uma britadeira, parecia que tinha uma obra ao meu lado! — comemorou minha namorada, Winnee.

— Você está doente? — perguntou Tiago, amigo meu, depois de dois meses sem me ver. Nunca fiquei tão feliz com uma pergunta imbecil como esta.

— Essa calça ficou larga. Vou trazer uma 42 — disse um vendedor de roupa.

Minha esofagite — irritação do esôfago devido ao excesso de comida — parecia ter se curado do nada. Se Omeprazol outrora fora minha salvação, agora não significava mais nada. Eu não tinha mais azia ou refluxo. Também conseguia dormir melhor. Acordar mais cedo e me sentir realmente descansado passou a ser comum. Meu mau humor não era tão constante.

Percebi que aquela palhaçad… que aqueles treinos estavam fazendo efeito. Eu já não era um Panda — talvez um coala, vá lá. Conforme o tempo ia passando, eu me adaptava mais ainda à rotina de treinos e à dieta. Não sentia fome, pois estava sempre comendo frutas; não sentia dores, meus músculos já estavam mais tonificados; não enchia o saco da equipe do D’Elia tanto quanto antes.

Eu chegava ao meu limite — 10 minutos correndo a 9 km/h —, mas não parava mais. Seguia adiante até realmente ficar exausto. E, quando isso acontecia,  eu saía da esteira e seguia para a musculação. Nos fins de semana, apesar de não precisar correr, eu ia aos parques. Uns sábados atrás eu fui da Rua Fradique Coutinho (onde eu morava, no bairro de Pinheiros, em São Paulo) até o Parque Villa-Lobos apenas para correr — foram 10 km de caminhada (ida e volta), além de 4 km de corrida intervalada lá no local. Tudo isso simplesmente porque me deu vontade.

As dores ficavam cada vez menos frequentes no decorrer do tempo. Do segundo mês para o terceiro,  eu não sentia nada, a não ser um desejo nascido sabe Deus onde de ir adiante. Eu apenas me cansava de verdade quando tinha de fazer exercícios na cama elástica — tente um dia pular corda ou fazer flexão em uma e você vai entender. Evitar alimentos calóricos já não era um desafio hercúleo — afinal, eu podia comer um pouco de tudo! Salada, arroz, carne, frutas. Passei a sentir prazer com aquilo tudo. Como se alguém tivesse feito meu corpo e meu cérebro pegar no tranco. E foi mais ou menos isso que aconteceu, mesmo.

“Nos três meses iniciais, o seu corpo vai aprender a funcionar melhor. A primeira adaptação é a parte neural, que fica mais eficiente. Nesses primeiros meses, não há muita diferença de musculatura e peso. Portanto, relaxe. Só a partir do quarto mês a resposta muscular é mais rápida”, explica Fernando. Eu fiquei só nas preliminares, aparentemente. Mas pretendo manter o treino, perder mais peso, ganhar mais resistência e, quem sabe, chegar à Tijuca a pé. Winnee que me espere com um cheesecake. Melhor não: cheesecake engorda muito. Pode ser uma salada de rúcula mesmo. Mas quero uma cervejinha.

Dieta sem fome
Carolina Carnevalli montou um cardápio com nenhum açúcar e sustentado por 50% de carboidratos, 30% de lipídeos e 20% de proteínas. Por dia, meu consumo de alimentos seguiu esta equação, em quantidade de porções: 6 vegetais + 4 ou 5 carboidratos + 4 ou 5 frutas + 2 1/2 carnes + 2 laticínios + 1 leguminosa + 2 gorduras (exclusivamente no azeite para temperar saladas)

9 horas
Café da manhã: 1 copo de água-de-coco + 1 fruta + 1 fatia de pão integral + 2 fatias finas de queijo magro
11 horas
Lanche da manhã: 1 fruta
13 horas
almoço: salada e legumes variados + 1 1/2 colher rasa de arroz integral + 1 concha de feijão ou outra leguminosa (lentilha, ervilha, grão-de-bico…) + 1 filé pequeno de carne magra + 1 fruta
16 horas
Lanche da tarde 1: 1 iogurte 0% ou 1 fruta
19 horas
Lanche da tarde 2: 4 biscoitos sem recheio
21 horas
Jantar: salada variada + omelete de 2 ovos com legumes e cogumelos e 1 batata em rodelas ou 1 colher rasa de arroz integral