Correr é uma droga
Acompanhamos a Nike 600K, a mais dura prova de revezamento da América Latina, para entender como a corrida pode dar barato ao liberar endorfina no organismo
Às 6h24 da tarde do sábado de 23 de outubro, depois de correr 5,5 km no limite de suas forças, a cabeleireira Alessandra Santana cruzou a linha de chegada. Sua equipe vencia a Nike 600K, prova em que 20 grupos de 13 corredores foram, revezando-se, de São Paulo ao Rio de Janeiro. Alessandra chegou cansada. Mas eufórica. A reação não era efeito psicológico de uma imensa alegria. Ela estava praticamente drogada – de endorfina, hormônio que, liberado pelo organismo após uma atividade física intensa, provoca sensações similares às (boas) das drogas. É, correr dá barato. “A sensação é tão incrível que correr vicia”, diz ela. “É um vício do bem.”
A teoria, que até algum tempo era apenas suposição, já foi confirmada por pesquisadores alemães da Universidade de Bonn. Eles conseguiram provar que a liberação de endorfina causada pela corrida age no cérebro diretamente no córtex pré-frontal e no sistema límbico, áreas ligadas às sensações de prazer. As drogas derivadas do ópio, como heroína, também agem nessas regiões – tanto que a endorfina é chamada de substância opioide.
Isso explica o ânimo dos malucos, ops, dos corredores da 600K. A prova durou três dias. As largadas eram de madrugada, entre 4 e 5h. Os postos de revezamento estavam localizados, em média, a cada 7 km. Era lá que os atletas passavam uma munhequeira com um chip para o colega de equipe que seria o próximo a correr. E assim seguiam até as três linhas de chegada: uma em Maresias (litoral norte de São Paulo), outra em Angra dos Reis (litoral sul do Rio de Janeiro) e a última em Ipanema.
Correr 1 hora com esforço moderado a forte = dez vezes mais endorfina = sensação de euforia

Ao fim de cada dia, os corredores tinham dormido uma média de três horas e corrido cerca de 20 km em areia fofa, asfalto, subidas íngremes e até trechos pantanosos. Enfiavam-se em tinas cheias de gelo e passavam por sessões de fisioterapia para aliviar a dor e recuperar os músculos. E, incrível, estavam felizes. Mais que felizes. Estavam elétricos.
“As poucas horas diárias de sono só serviram de estímulo”, diz o publicitário Hector Farto, 24 anos, que participou da equipe Athletics West. “Às 3h da manhã eu já estava gritando, pilhado. Para mim, a corrida serve como uma terapia ou uma sessão de tatuagem.” A Athletics West, aliás, era composta de corredores bem peculiares: a maior parte deles era toda tatuada.
“Correr dá mesmo barato”, diz, de dentro de uma tina de gelo, o soldado Jorge Magno Santos, 25 anos, da equipe Filhos do Vento, vice-campeã da prova. Era o segundo dia da 600K, e os atletas já sentiam no corpo os efeitos da exaustão. A diferença dessa competição de revezamento de outras maratonas é que, como os trechos que os atletas percorrem são relativamente curtos, eles correm o tempo inteiro quase no limite. “O esforço é tão grande que a vontade é desistir. Mas aí vem uma força não sei de onde e, depois, a sensação é a de estar no paraíso.
” Para conseguir os efeitos de euforia, o atleta tem de praticar o exercício de forma moderada a forte por pelo menos meia hora. Por isso, quem está começando a correr demora para senti-los. É considerado um exercício de esforço moderado aquele que mantém o praticante com sua frequência cardíaca máxima entre 70% e 80%. Se o exercício for feito durante uma hora, os níveis de endorfina sobem até dez vezes no sangue.
O “barato” dura mais de meia hora após a corrida. “Isso pode variar de indivíduo para indivíduo”, afirma o professor Cristoforo Scavone, coordenador da pósgraduação em farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. “No geral, a sensação agradável vem com corridas de longa duração.” Especialista nelas, o maratonista Franck Caldeira, que não competiu na 600K mas correu diversos trechos
para incentivar e motivar os demais atletas, diz estar acostumado à euforia. “Quem não sentiu não sabe o que está perdendo e quem sentiu não quer parar mais”, diz ele. A descarga de endorfina pode ser tão forte que as emoções se misturam. “Depois de correr muito, tenho vontade de gritar, mas não grito. Chego a chorar em silêncio. Fico manso, mas violento às vezes”, conta Adilson Dolberth, 26 anos, o Cabelo, da Athletics West.
Como um dependente de droga, ele diz sentir-se mal quando tem de parar de praticar o esporte. “Me sinto fraco fisicamente. Fico irritado e como se tivesse acumulado as tarefas do dia a dia. É como um dia sem nexo”, conta. Efeitos assim já foram percebidos pela ciência em corredores. Há pesquisas que associam os sintomas a uma crise de abstinência: irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimento de culpa.
Segundo Scavone, essas reações não podem ser comparadas seriamente a uma crise de abstinência real de droga. “Até é possível dizer que alguém acostumado a correr pode apresentar sintomas se ficar alguns dias sem. Isso pode ser gerado por ansiedade, manifestação da abstinência”, diz o especialista. “Mas, embora os mecanismos sejam os mesmos, as perdas são diferentes das de uma droga.” O vício, afinal, é do bem.
O PROFISSIONAL
Nome: Adilson Dolberth
Idade: 26 anos
Profissão: corredor do BM&F Bovespa Pão de Açúcar
Corre desde: 1996
Treino para a 600K: não teve preparação especial, estava vindo de um período de competições fortes. O treino era de 40 a 50 minutos por dia em ritmo mais leve (para ele)
A MUSA
Nome: Isadora Martins
Idade: 22 anos
Profissão: personal trainer
Corre desde: 2006
Treino para a 600K: duas sessões de corrida diárias, uma de manhã e outra à noite, cinco vezes por semana. De manhã, eram treinos fortes, como tiro. À noite, treinos de rodagem, entre 10 e 12 km e ritmo mais leve. Fez também musculação e pilates três vezes por semana
A SUPERATLETA
Nome: Camila Nicolau
Idade: 25 anos
Profissão: arquiteta
Corre desde: 2003. Pratica também ciclismo, natação, canoagem, escalada, ski slalon na água e snowboard
Treino para a 600K: corria cinco vezes por semana, variando entre treinos longos, de velocidade e de rodagem
A INICIANTE
Nome: Penélope Nova
Idade: 37 anos
Profissão: VJ, apresenta o Programa a 2 na MTV
Corre desde: 2010, começou há cerca de três meses
Treino para a 600K: como ela pega pesado há anos na musculação e só usava a esteira para andar a 6 km/h, teve que começar meio do zero e mudar todo seu treino. Correu seis vezes por semana, duas vezes por dia. Os treinos variavam: eram tiros, em subidas, de longa distância e trotes
O TREINO DO BARATO
TÉCNICO DA EQUIPE CAMPEÃ MONTA SÉRIES PARA VOCÊ ENTRAR NA ONDA
Mário Sérgio Andrade Silva preparou dois treinos. Quem já corre pode fazer o 2 e sentir o barato. Se você quer começar a correr, faça o treino 1 e, após quatro semanas, passe para o 2. Use um frequencímetro para saber sua frequência cardíaca máxima ou faça a seguinte conta: 220 menos a sua idade.
Treino 1
1ª e 2ª semanas
Terça-feira, quinta-feira e domingo: 45 min de trote entre 60% e 70% da sua frequência cardíaca máxima
Sábado: 45 a 60 min de trote leve (entre 60% e 70%)
3ª e 4ª semanas
Terça-feira: 10 min de trote leve + 20 min entre 80% e 90% + 10 min de trote leve
Quinta-feira: 60 min de trote entre 60% e 70%
Sábado: 60 min a 1h10min de trote entre 70% e 80%
Domingo: 45 min de trote leve
Treino 2
1ª semana
Terça-feira: 15 min leve + 30 min variando a série: 3 min entre 70% e 80% e 2 min entre 80% e 90% + 10 min leve
Quinta-feira: 15 min leve + 3 séries de 5 min entre 80% e 90% com intervalo de 1 min parado ou andando + 10 min leve
Sábado: 60 min a 1h15min de trote entre 70% e 80%
2ª semana
Terça-feira: 15 min leve + 30 min variando a série: 2 min entre 70% e 80% e 3 min entre 80% e 90% + 10 min leve
Quinta-feira: igual ao da 1ª semana
Sábado: 60 min a 1h15min de trote leve
3ª semana
Terça-feira: 15 min de trote leve + 20 min entre 80% e 90% + 15 min de trote leve
Quinta-feira: 15 min de trote leve + 8 séries de 2 min entre 85% e 95% com intervalo de 2 min + 10 min de trote leve
Sábado: 1h10min a 1h20min de trote entre 70% e 80%
4ª semana
Terça-feira: 15 min de trote leve + 20 min variando: 3 min entre 80% e 90% e 2 min entre 70% e 80% + 15 min de trote leve
Quinta-feira: 15 min de trote leve + 10 séries de 2 min entre 85% e 95% + 10 min de trote leve
Sábado: igual ao da 3ª semana
Todos os domingos: 45 min de trote leve












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1 comentário
Correr não é uma droga,correr vicia sim,,mas é bem melhor vc não ser sedentario e gordo,do que correr e ser saudavel
corrigem acima