Lola Benvenutti, a moça das letras e do sexo pago

Ela estudou literatura, faz pós-graduação e traz no corpo tatuagens com frases de grandes escritores brasileiros. Escreve críticas literárias, mas sua profissão principal é outra: “Sou puta”, diz

O garçom do bar no Baixo Augusta, em São Paulo, estava plantado ao lado dela, atento a cada palavra. Tímido, pediu desculpas ao interromper a conversa quando ela falava de fetiches. Na mesa ao lado, homens sóbrios de terno e gravata olhavam as pernas nuas de Lola Benvenutti. O rabo de cavalo e o short curto exibiam a juventude dos seus 22 anos. As palavras denotavam a experiência.

Garota de programa desde quando cursava letras na Universidade Federal de São Carlos, no interior de São Paulo, Lola poderia ser a Lolita de Nabokov, uma amante de Bukowski, ou personagem de Almodóvar, ou ainda Diadorim vestida de jagunço em Grande Sertão: Veredas. É uma leitora compulsiva e abriga ao mesmo tempo a delicadeza e o impulso dominador da sadomasoquista.

Tatuada na sua pele clara estão seus mestres. “Dizer insistentemente que fazia sol lá fora”, recita Manuel Bandeira nos ombros. No braço, Guimarães Rosa sentencia: “Digo: o real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe para a gente no meio da travessia”.

Lola também é escritora e ativista. O primeiro livro será lançado este ano sobre a trajetória, as descobertas e o dia a dia com os clientes. Ela também resenha livros eróticos para a Companhia das Letras. E tem feito aulas de pós-graduação e se prepara para o mestrado no qual pretende estudar a prostituição nos mais variados am­­­­­­­bientes, das ruas aos hotéis de luxo. Seu objetivo é ser uma voz esclarecedora em meio a tanto preconceito.

Um detalhe importante: já namorou sério enquanto trabalhava (o namorado era cliente antes). Ela diz que jamais esconderia o trabalho de alguém e não o largaria por homem nenhum.

Quais são os seus autores e livros eróticos favoritos?
Eu gosto do Henry Miller, da Hilda Hilst… Tem um livro muito bom do John Cleland chamado Fanny Hill sobre uma órfã de 15 anos que vai para Londres e acaba se tornando garota de programa. O escândalo desse romance para a época [o livro foi publicado em 1748] é que ela retrata isso sem culpa. Um livro mais atual é o Pagando por Sexo, do Chester Brown. É uma história em quadrinho que conta as experiências do autor com garotas de programa.

Qual é o livro mais excitante que você já leu?
Sou suspeita para falar, mas Lolita, do Vladimir Na­­­­bokov, foi o livro que me inspirou. Acho que por trazer essa coi­­­­­sa do proibido, assim como O Diário de Lori Lamby, da Hilda Hilst, que trata da menina que está perdendo a inocência. Eu gosto muito dessa coisa da fantasia, que você não vê em filme pornô. É um assunto proibido, que envolve a garota que se transforma em mulher.

E o filme mais excitante que você já viu?
Dos mais recentes, eu gostei muito de Ninfomaníaca. Também de Jovem e Bela, que é a história de uma prostituta francesa. Gosto desses filmes porque retratam situações que têm a ver com a minha.

Como você usa a tecnologia no seu trabalho?
A internet, para mim, foi o meio onde tudo começou. Todos os meus agendamentos são feitos pelo site, e o YouTube, o Instagram, todas as redes sociais acabam sendo uma promoção da Lola, o que se reverte em clientes. Eu já aceito cartão, parcelo em duas vezes – acho que sou a única que faz isso – e tenho pensado em aceitar bitcoin. Cada vez mais a tecnologia está a meu favor, no sentido de não ter que ficar na rua ou na boate para conseguir clientes. Eu tenho que perceber o que a clientela quer e o que o mercado exige.

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Que estilo você usa para escrever os feeds no seu blog? Culto ou informal?
É uma mescla de várias coisas. É difícil, porque o feed não pode ser em uma linguagem muito erudita, mas na faculdade eu estudei os clássicos. Há quem me questione sobre o jeito que eu escrevo “para alguém que fez letras”. Eu não posso fazer um tratado erótico.

O jeito como você escreve o feed tem algum elemento ficcional?
Lógico, o feed tem que ser inebriante, porque é ali que eu ganho meu cliente. Às vezes, aquilo está muito mais elaborado, sou eu colocando minhas impressões. É uma questão subjetiva, como tudo na escrita. Por existir o trabalho de atrair o leitor e tornar aquilo instigante, o texto acaba tendo alguns elementos ficcionais, mas em essência é tudo realidade.

Você tende a fazer mais feeds positivos ou negativos?
É mais raro ser ruim. Eu procuro falar a verdade, mas é claro que eu não posso acabar com a pessoa, porque é o meu trabalho. Se eu falar muito mal do cara, ele vai ficar com tanta vergonha que nunca mais vai voltar, e isso também é ofensivo. Uma vez, em um feed, eu disse algo como “podia ter chupado uma balinha…”. Foi uma coisa sutil. O cara estava com um bafo de onça, mas eu não disse isso. Achei que ele nunca mais me ligaria, mas ligou e pediu desculpas, disse que não tinha almoçado.

Você acha que 50 Tons de Cinza é um retrato fiel do mundo BDSM?
As pessoas que seguem a doutrina BDSM não gostam do livro porque não o acham realista. Acho difícil escrever um livro desse ponto de vista tão açucarado, tão romântico. As coisas se misturam e o resultado é mais um conto de fadas moderno do que de fato uma relação BDSM. Não é exatamente a realidade, mas tem pontos interessantes. Esse livro abriu a cabeça de muita gente para o que é o sadomasoquismo. Embora não seja um retrato fiel, acho que é válida a leitura para fazer as pessoas irem atrás de uma literatura como a do Sacher-Masoch, o pioneiro do sadomasoquismo.

A trilogia 50 Tons foi muito criticada por ser de baixa qualidade como obra literária. Você concorda com essa avaliação?
Isso é uma discussão eterna. A qualidade literária de um texto não é necessariamente o que faz com que ele venda. Existem livros clássicos que são parte de uma literatura muito difícil, que exige uma formação prévia. Agora, quando você pensa em mercado, você tem que pensar em algo que atinja a maior parte do seu público. Se as pessoas que não têm o costume de ler estão lendo 50 Tons de Cinza, elas po­­­­dem querer outras coisas depois.

Qual é o objeto de estudo do seu mestrado?
Na faculdade, minha pesquisa era sobre moda punk, então eu pensei em estudar moda e fetiche, o sexo, as roupas, o comportamento. Mas com essa guinada que minha vida deu ouvi muita gente falar que eu poderia ser uma voz, fazer um estudo que realmente significasse algo. Então eu quero pesquisar sexualidade em relação à prostituição nos diferentes meios de trabalho – boates, sites e rua. Estou procurando alguém que possa me orientar. Eu não quero uma visão estigmatizada sobre o assunto. Ainda hoje a prostituição é vista de forma muito preconceituo­­­­­sa e isso dificulta o meu projeto de mestrado.

Você acha que a prostituição é vista como uma “última opção”?
Existe essa ideia da prostituta como vítima – ela não teve escolha e acabou assim. Essa imagem ainda é muito forte, e esse é um problema grave da prostituição, no sentido de as meninas serem marginalizadas. Muitas garotas têm filhos, torcem para achar um príncipe que as tire da prostituição. Isso porque elas não são aceitas na sociedade, e isso as torna tristes. Minha preocupação maior é despertar um tipo de trabalho que possa dar um resguardo a essas meninas, mas isso é difícil por causa da pressão social. Até os clientes são preconceituosos, acham que podem fazer tudo só porque es­­­­­­­tão pagando. É uma relação que ainda está muito errada, e é isso que precisa mudar, não o trabalho.

Como se comportam o homem e a mulher quando um casal contrata você para um ménage?
De­­­­pen­­­­­­de. Tem casais que são muito liberais, então o cara pode transar comigo e eu interajo com ela. Às vezes, ela concorda em fazer o ménage mas não quer que o homem interaja comigo. Eu fico na minha, tenho que ter essa delicadeza. Tem o trabalho de deixar o casal muito à vontade, conversar antes… É um processo delicado, mas as mulheres estão se soltando cada vez mais.

Qual é o fetiche mais estranho que você já viu?
Já vi um cara com fetiche de se sentir em um ambiente em que ele vai ser abatido como um porco. A faca amolando, as pernas amarradas… Uma vez um outro me ofereceu R$ 150 mil para fazer um filme pornô em que eu transaria com um orangotango. Perguntei: “Um homem vestido de orangotango?”. E ele respondeu: “Não, um orangotango de verdade”. Nem por R$ 5 milhões.

Você deixaria de trabalhar por um namorado?
Nunca! Imagina.

Coordenação: Gregório Souza / Beleza: Branca Moura / Lola veste acervo pessoal 
Agradecimento: Motel Lush (tel.: 11 2274-7433 e lushmotel.com.br)