“American way” na fórmula

O GP da Austrália vai inaugurar uma era de mudança, com carros diferentes novos donos: será que o jeito americano de promover vai deixar a F1 mais atraente?

Você pode até não gostar de basquete, futebol americano, hóquei etc., mas, se o evento é organizado por americanos, a garantia de show é certa. É com essa expectativa que os milhões de fãs da F1 aguardam o início da temporada em 26 de março na Austrália.

Será a primeira vez em quatro décadas que a categoria terá nova direção: o grupo americano Liberty Media comprou a F1 por
8 bilhões de dólares no fim de 2016 e começa 2017 com discurso de mudança. O novo regulamento já vai modificar os carros [veja ao lado].

“A F1 não está crescendo o que deveria. Precisamos de um novo tipo de organização para fazermos com que cresça no mundo atual”, disse Chase Carey, presidente da Liberty Media.

A primeira medida: aposentar o inglês Bernie Ecclestone, que, desde os anos 70, transformou a F1 no esporte mais bilionário do planeta, com cifras e lucros equivalentes aos da Copa do Mundo e Olimpíadas. “A diferença é que eu organizo uma Olimpíada a cada 15 dias”, costumava dizer Bernie.

Sacadas espertas do todo-poderoso da F1 transformaram o então “circo” num modelo de negócios. Há três décadas, Ecclestone foi chamado de megalomaníaco quando investiu milhões em equipamentos de transmissão de TV. Afinal, cada país cuidava de transmitir seu GP para os outros.

Mas, ao centralizar a transmissão e os cortes de câmera, Bernie começou a controlar quem aparecia mais para uma audiência anual de 1 bilhão de telespectadores. Assim, patrocinadores, equipes e organizadores tinham sempre de se reportar a Ecclestone, aumentando seu poder e lucros.

As mudanças prometidas pelos novos donos geram duas esperanças. A primeira: maior interação dos pilotos com os fãs, seja em eventos, seja nas redes sociais. A internet sempre foi vista com desdém por Bernie, hoje com 86 anos.

A outra, de longo prazo, é que exista maior equilíbrio entre as equipes. Quem acompanha uma liga como a NFL sabe que os americanos gostam de estimular a competitividade – com coisas como o pior time ter direito a pegar o melhor jogador do draft. Já na F1, a meritocracia vem beirando a crueldade. Se quem anda na frente ganha mais dinheiro da TV, quem não fica entre os dez melhores nem mesmo recebe dinheiro para transporte. A Manor, 11ª e última colocada de 2016, pediu falência…

“Espero que a Liberty Media compreenda claramente que o entretenimento tem de voltar a ser levado a sério nesse esporte. A audiência caiu por uma série de razões. Esse é o trabalho que precisa ser feito”, diz Sergio Marchionne, presidente da Ferrari – escuderia que sempre fez boas negociações nos tempos de Ecclestone.

formula-1-automobilismo-vip-1 Maior, mais largo, mais comprido. As mudanças dos carros de F1 estão bem visíveis. Como indicam os carrinhos acima, o modelo preto representa o de 2017 e o prateado, o de 2016

Maior, mais largo, mais comprido. As mudanças dos carros de F1 estão bem visíveis. Como indicam os carrinhos acima, o modelo preto representa o de 2017 e o prateado, o de 2016 (Giorgio Piola/Reprodução)

Pneus
Os dianteiros vão de 24,5 cm para 30,5 cm. Os de trás, de 3,25 cm para 40,5 cm
Piso
A largura máxima do assoalho vai de 1,4 m para 1,6 m
Asa dianteira
A largura total aumenta de 1,6 m para 1,8 m

Asa traseira
5 cm mais larga, a altura-limite é 80 cm (era 95 cm)

Largo e longo
A largura total passa de 1,8 m para 2 m. E o bico 20 cm mais comprido é a mudança mais imediatamente visível

Fim da era Mercedes?

Quanto à disputa do campeonato, a grande pergunta é: alguém será capaz de superar a Mercedes? Com a aposentadoria abrupta e surpreendente do alemão Nico Rosberg, o campeão de 2016, a equipe terá agora o finlandês Valtteri Bottas como companheiro do inglês tricampeão Lewis Hamilton. Eles têm a responsabilidade de manter a hegemonia que se iniciou com a entrada dos novos motores turbo em 2014 – foram três títulos de pilotos e de construtores, e 51 vitórias em 59 GPs.

A Red Bull aparece como candidata mais forte a incomodar a Mercedes. Tem o arrojo do jovem Max Verstappen, a constância de Daniel Ricciardo e o mago das pranchetas Adrian Newey – ótimo projetista para se ter num ano de grandes mudanças aerodinâmicas.

Para o Brasil, a aposentadoria de Rosberg significou a volta de Felipe Massa ao grid, como se nem tivesse parado no fim da temporada de 2016. Aos 33 anos, ele será na Williams o mentor do canadense Lance Stroll. Com 18 anos, é descrito por alguns como o piloto melhor preparado a estrear na categoria em toda a história – vale dizer que deve ser o mais rico também…

Felipe Nasr, mesmo brilhando no GP Brasil com a Sauber, ficou sem vaga. A meta é retornar em 2018. Mas a volta de Massa impede que o Brasil fique sem um único representante pela primeira vez desde 1970.