“Na minha época, de 20 pilotos, morriam 3 por ano”

Às vésperas de fazer 67 anos, Emerson Fittipaldi, nosso primeiro bicampeão da F1, faz um balanço de como chegou lá e lembra dos maiores dramas

Emerson Fittipaldi

Fico impressionado como os pilotos novos aprendem com a tecnologia, inclusive simuladores. Dá para aprender tudo de regulagem de carro. Na minha época, tinha que fuçar na oficina mesmo.

A paixão pelo automobilismo foi herdada de meu pai [o radialista Wilson Fittipaldi, o Barão]. Quando tinha 5 anos, ele me levou a Interlagos e ali descobri o que queria fazer na vida. Com o Barão, também aprendi a ser focado no trabalho.

Quando você tem um sonho, tem que lutar. Meu primeiro desafio foi: como vou correr de kart ou de carro sem meu pai me dar um tostão? Por isso, planejei um negócio. Comecei vendendo volantes para outros pilotos e consegui financiar minha carreira. Aprendi a ser meu próprio patrocinador.

Às vezes, você tem que dar um passo para trás para conquistar algo na frente. No Brasil, pilotava carros superpotentes e fui iniciar a carreira na Europa em carros menores da Fórmula Ford [em 1969].

Morar fora foi um desafio. Não sabia nem fritar um ovo. Na Inglaterra, eu morava em uma pensão com cinco quartos e só um banheiro. Ia tomar banho e o banheiro sempre estava livre. Depois de alguns dias, o dono da pensão me chamou: “Emerson, vamos aumentar o preço da sua estadia, pois você toma banho todo dia e consome muita água e energia”.

É difícil falar não, mas é necessário em momentos importantes. No meu primeiro ano na Europa, disse não ao Frank Williams e ao Colin Chapman [dono da Lotus]. Eles queriam que eu testasse seus F1, mas preferi ter mais um ano de experiência. Foi a decisão acertada.

No meu primeiro teste com um F1, em Silverstone, achei o carro instável. Mas o Jochen Rindt [piloto principal da Lotus em 1970] me falou: “O carro está saindo de frente porque você não está acelerando tudo. Acelera mais que o carro equilibra”. Comecei a virar tempos tão bons que o próprio Rindt se entusiasmou. Essa amizade não existe mais na F1.

No carro, não pensava em nada. Senão, não conseguiria guiar um F1. Na época, de 20 pilotos, morriam uns três por ano.

Convivíamos com a morte de perto. Aprendi a me precaver: um médico particular ia comigo a todas as corridas. Se sofresse um acidente grave, ele tinha autoridade para me levar para determinado país: se tivesse queimaduras, iria para a Alemanha; se fosse um problema ortopédico, para a Suíça; se fosse um problema para cirurgia neural, iria para a Inglaterra.

No acidente do Niki Lauda [no GP da Alemanha em 1976, reproduzido no recente filme Rush], saí correndo para ajudar no resgate pois tinha medo que o carro explodisse. Lembrei do acidente do Jo Siffert em 1971, em que também parei para ajudar. Estava vazando combustível e tinha fogo. Reuni uns bandeirinhas e falei: “Vamos virar o carro!”. Quando estávamos indo, houve a explosão. O Siffert morreu na minha frente. Aquilo me marcou muito.

Meu acidente com o ultraleve [em 1997, junto do filho Lucca] foi o pior da minha vida. Caí na hora do almoço, mas começou a escurecer e ninguém tinha encontrado a gente. A pior parte, depois de 11 horas desidratado e perdendo sangue, foi quando os urubus começaram a descer. Falava para meu filho ficar com um galho na mão. “Se eu desmaiar e o urubu vier me pegar, bata no urubu.” Ter saído vivo de lá foi uma das minhas maiores vitórias. Aprendi a valorizar ainda mais a vida.

Quando fui ver meu neto Pietro [piloto de F4 e FRenault] andar em Silverstone, nem fiquei nos boxes de tão nervoso. O melhor é ir para um lugar mais alto para poder analisar o traçado, ver detalhes técnicos. É a forma de não ficar tão ansioso.

O braço do piloto ainda conta muito. É o piloto quem ganha corrida.

Gosto mesmo é de acelerar. Andei com o F1 da Lotus Renault em Paul Ricard em julho deste ano e foi fantástico. A adrenalina é incrível. Quero mais.