[Ideias VIP] Absurdos que já vi e vivi sendo casado com uma mulher negra

O colunista da VIP, Ike Levy, mostra as faces do racismo e a estupidez alheia que o persegue por ser casado com a cantora Luciana Mello

O primeiro contato que tive com o racismo foi quando o meu melhor amigo suicidou-se aos 18 anos.

O Roberto era negro e não aguentou tanta discriminação. Morávamos no mesmo bairro, tínhamos vários amigos em comum. Mas ele era filho do zelador e sofria preconceito.

Uma vez, ao se declarar a uma menina e não ser correspondido, veio conversar. Disse que estava triste, que sabia que a menina não tinha ficado com ele por ser negro, que as pessoas o tratavam de forma diferente. Contou que tinha pensado em se matar.

Fiquei preocupado, falei com ele uma noite inteira, até parecer ter desistido da ideia.

Um ano depois, sem dar pistas, deixou uma fita gravada para mim e se jogou do prédio onde morava.

Anos mais tarde, me apaixonei por uma negra.

No Brasil, por ser artista, a Luciana Mello sofre bem menos preconceito. Mas sempre que viajamos para outros países acontece uma coisa bem esquisita: enquanto sou liberado na imigração, ela sempre é parada.

Nos casamos em uma cerimônia ecumênica. Sou judeu; ela, católica. Ela tem 1,86 metro de altura; eu, mesmo se respirar fundo, não passo de 1,71 (e 3 milímetros).

Somos completamente diferentes, mas nos amamos e temos os mesmos valores. Dessa união, nasceram dois filhos lindos, a Nina, hoje com 9 anos, e o Tony, 4.

Uma vez, estava com o Tony bebê e minha mãe numa padaria em São Paulo.

Quando ele acordou e chorou, peguei-o do carrinho e fui dar uma volta. Assim que me afastei, minha mãe ouviu duas senhoras dizendo: “Acho que ele é gay, adotou o garotinho e a mãe ajuda a cuidar”.

A que ponto chega a cabeça das pessoas? Eu não podia ser simplesmente o pai dele? Como, aliás, sou?

Conversamos bastante com a Nina em relação ao seu cabelo.

Ela é a única da classe com lindos cachos. Falamos para ela se aceitar e orgulhar-se de sua etnia. Que a chapinha nunca passe por sua cabeça – no duplo sentido.

Enquanto as pessoas perdem tempo com pensamentos retrógrados, a gente anda para a frente, com o maior orgulho de nossa família real.

*Ike Levy é fotógrafo, pai da Nina e do Tony, marido da Luciana e criador do Instagram @fotografilhos. Siga-o!

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