[Ideias VIP] No esporte, nós torcemos por roupas

Como diz Jerry Seinfeld, devemos torcer mais por símbolos e menos por jogadores

Camisa seleção brasileira

 (Buda Mendes/Equipa/Getty Images)

Vejo na Netflix um documentário recente sobre Jerry Seinfeld (Jerry Before Seinfeld), em que o humorista volta ao palco do Comic Strip, clube de Nova York onde iniciou, nos anos 70, a carreira na comédia stand up.

O filme mistura piadas com imagens de arquivo de sua infância e juventude, reconstituindo sua trajetória e brincando com as diferenças entre a vida naqueles dias e hoje.

Seinfeld, nascido em Long Island, Nova York, é fã de beisebol e torcedor do New York Mets.

A certa altura, perguntado sobre a má fase dos Mets, ridiculariza a própria condição. “Que ideia é essa de meu time, nosso time? Quem são esses caras? Eles não são daqui! São pagos para usar aquele uniforme. Os caras trocam de time, os times mudam de cidade… Acho estranho quando as pessoas ficam arrasadas se um jogador deixa o seu time para jogar no rival. Na realidade, nós torcemos para as nossas roupas derrotarem as roupas do outro time! Isso é o esporte. Estamos torcendo por roupa suja e nada mais.”

Penso na mais polêmica transferência de jogadores da janela de final de ano do futebol brasileiro: Fred saiu do Atlético-MG e voltou para o Cruzeiro, time que o projetou.

Conseguiu ser xingado por todos. Uns sujeitos da Máfia Azul, torcida celeste, gravaram um vídeo ameaçador, desaprovando a volta do ex-ídolo, que teria desrespeitado a nação cruzeirense quando esteve no Galo.

Seinfeld está certo. No esporte, deveríamos remontar à Antiguidade e idolatrar objetos e coisas: a camisa, a bandeira, o escudo do time, e não os caras que os envergam. A paixão está ali.

Sim, ela foi construída a partir do que fizeram mãos e pés humanos, mas os heróis foram ficando cada vez mais efêmeros, passageiros, e negociando seu heroísmo com outros povos e bandeiras, inclusive rivais mortais.

Há, claro, caras que desenvolvem uma relação mais profunda e duradoura com o time – Zico, Falcão, Rogério, Marcos… Mas são poucos.

A regra é o contrato de trabalho, frio e curto. Às vezes, o time dá sorte de o jogador desenvolver um sentimento bacana. Mas ele passará e será substituído pelo escudo do próximo contratante.

Portanto, torcedor, não se deixe enganar. Você é um carente e costuma cair de quatro por qualquer piscadela que os boleiros lhe dão. Dê-se ao respeito!

Não se derreta. Ame suas camisas, cores e títulos. Quanto mais pagã for essa paixão, mais divina ela será.


*Maurício Barros é jornalista, mestre em ciência política, blogueiro, comentarista dos canais ESPN e foi diretor de redação da PLACAR. Siga-o: @mauriciobarros

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