[Ideias VIP] Por que Hugh Hefner não é um exemplo a ser seguido

Nosso colunista Facundo Guerra faz uma reflexão sobre como a ideia de masculinidade do fundador da Playboy prejudica os homens

Hugh e Crystal Hefner

 (Divulgação/Reprodução)

Era manhã de uma quarta-feira chuvosa quando recebi a notícia de que Hugh Hefner havia morrido, aos 91 anos, depois de ter ido e voltado à Lua dentro do corpo de milhares de mulheres e vivido uma vida que muitos de nós, homens, sonhamos.

Imediatamente meu feed foi invadido por homenagens de modelos que posaram para a Playboy e aproveitaram a ocasião para republicar as fotos de si mesmas e de homens que postaram as capas de suas coelhinhas favoritas, com um “adeus, mestre” de legenda.

Veio à minha imaginação os hectolitros de porra que foram derramados de uns para as outras sobre as páginas dessa publicação ao longo de suas décadas de existência.

E conto aqui o córrego que eu mesmo contribuí para a formação desse caudaloso rio leitoso.

Me lembrei, em tom sépia, das primeiras Playboys que segurei na mão, ainda quando era tenro como um carneiro, que acabaram por formar uma pilha escondida dentro do armário de vassouras do apertado apartamento onde morava com meus pais.

Como acariciava a capa das revistas que se empilhavam no fundo do armário, para eleger qual das minhas escravas sexuais teria a honra de me servir naquela noite, deitado no chão frio de meu banheiro, como um sultão de 12 anos.

 (Pianofuzz/VIP)

Confesso que me senti um pouco aliviado com sua partida, Hugh. Foi seu legado tóxico que me ensinou que ser homem deveria ser algo como o personagem de um roteiro de filme do James Bond: destrua seus oponentes com autorização da rainha para matar, dirija bólidos velozes, trepe com a maior quantidade de coelhinhas (loiras!) de países do leste europeu, limpe seu pau na cortina e siga para a próxima missão.

Para uma geração de homens sem internet e com sexo sendo um assunto tabu para a maioria das famílias de classe média, essa versão radioativa de como um homem deveria se comportar perante o outro gênero formou a triste ideia de masculinidade que tomamos para nós.

Tua revista me ensinou que você pode fazer qualquer coisa para ter acesso ao sexo de uma mulher e que essa atitude era socialmente aceita. Mais: era esperada.

Hugh Hefner

 (Getty/Reprodução)

Não quero moralizar o sexo, mas descobri a duras penas que você não deveria entrar no corpo de alguém impunemente nem usar uma pessoa para ser o receptáculo da descarga de seu desejo, sem deixar nada além do gozo, no melhor dos casos.

Você não entra, ou não deveria, no corpo de alguém impunemente porque você não entra só no corpo, você entra também na vida dessa pessoa. E, quanto mais vezes ficam juntos, mais os sonhos, vontades e desejos do outro serão atravessados por você.

Descobri a duras penas, depois de muito machucar e perder pessoas incríveis, que foda mesmo não é trepar com várias pessoas.

Foda mesmo é acessar as profundidades oceânicas que todo humano tem dentro de si, e trepar com sua companhia todos os dias, de maneiras diferentes.

Tratar uma mulher como uma companheira de vida, de igual para igual e com todo o respeito que um humano merece, e não como um vasinho de porra.

Não sentirei falta nem da minha ideia de masculinidade frágil, flácida, insegura ou do machismo que a Playboy nos ensinou, Hugh, e acho que a sua revista criou uma geração de homens e mulheres infelizes e inseguros. Você e seu rebento foram tarde, Hugh.

Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano, é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia.

Comentários

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  1. Com certeza não foi ele que te deixou amargo e projetando seus defeitos e culpada nos outros. Pessoas quer se regozijam com a morte de outras me causam asco. Lamentável é esse texto.

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  2. Agente Sommos

    + Rapaz… estou dando uma passada pelos textos atuais da revista e realmente não vejo nenhum bom motivo para voltar a ser assinante. E realmente, como já dito aqui, que texto lamentável.

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