Não seja como a maioria: fuja do óbvio na hora de comprar vinho

Malbec, chardonnay, cabernet sauvignon... Alguns bebedores de vinhos não arriscam e esperam dos vinhos o que tem na Coca-Cola: padrão de aroma e paladar

garrafas de vinhos

 (Pixabay/Reprodução)

O consumidor médio de vinhos carece de ousadia e imaginação. Hoje as pessoas querem tomar sempre a mesma coisa: malbec, chardonnay, cabernet sauvignon, carmenere, sauvignon blanc, merlot e primitivo, claro, agora a primitivo é moda.

Escolhem rótulos feitos a partir dessas castas e mais uma meia dúzia de uvas na maior parte das vezes de origem francesa. Não arriscam. Esperam dos vinhos o que encontram na Coca-Cola: sempre o mesmo padrão de aroma e paladar.

Existem milhares de uvas viníferas espalhadas pelo planeta, mas o cidadão médio quer cabernet sauvignon.

Então, o que acontece? Em várias partes da Europa, eles estão derrubando vinhedos de castas locais para plantar cabernet sauvignon e outras castas que vendem bem.

Isso tem nome: ameaça à biodiversidade, além de ser um atentado ao prazer de quem gosta de se aventurar.

No novo mundo, leia-se Américas, Oceânia, África e Ásia (sim, Oriente é novo mundo quando se trata de vinho), a falta de diversidade impera. Isso é compreensível.

Na maioria das regiões vinícolas desses continentes, antes do boom do consumo dos anos 70, a indústria do vinho ou estava praticamente extinta, como nos países muçulmanos, ou nunca teve força suficiente para competir com o mercado internacional, como no Brasil e outros países da América.

Ela ganhou força já vendendo cabernet sauvignon, syrah e chardonnay.

garrafas de vinhos

 (Pixabay/Reprodução)

Quando se trata de vinhos brancos, na América Latina, praticamente, só tem chardonnay e sauvignon blanc. No entanto, como em qualquer coisa na vida, por pior que seja a situação, sempre tem alguém andando na contra-mão, dando murro em ponta de faca para fazer algo de bom para as gerações futuras,

Portanto, para esta Páscoa, resolvi sugerir vinhos brancos sul americanos que não sejam chardonnay nem sauvignon blanc. No Chile, Argentina, Uruguai e até Brasil, alguns produtores têm feito experiências com duas das castas brancas mais nobres e, ao mesmo tempo, mais difíceis de se plantar: a portuguesa/espanhola alvarinho ou albariño e a alemão riesling.

Os resultados são interessantes, mas variáveis. Em alguns casos, falta um pouco de tipicidade, as características mais típicas dos vinhos de uma determina uva.

A maior parte deles são um pouco caros se comparados com vinhos europeus da mesma qualidade. Mas, se você, como eu, gosta de se aventurar, tem de provar os rieslings e alvarinhos dos nossos lados.

Chile

Um dos  rieslings renanos mais baratos do mercado,  o Club des Sommeliers Riesling Reserva Chile é também um dos sul americanos que têm maior semelhança com os rieslings alemães secos.

Tem mineralidade e até aquele cheirinho de plástico novo que é típico da casta. A acidez é menos pronunciada que os alemães, mas isso era de se esperar por vir de um clima mais quente. Custa R$ 55 no Pão de Açúcar.

Se está pensando em fazer uma moqueca na sexta-feira santa, este é um bom par.


Brasil

Produzido a partir de uvas dos vinhedos da Miolo na Campanha Gaúcha, o Quinta do Seival Alvarinho tem casca de laranja, pêssego, algo floral no nariz. 

Vinho Quinta do Seival Alvarinho

 (Site Miolo/Reprodução)

Logo que abri a garrafa, os aromas estavam fechados, mas foram se abrindo. Na boca ele é leve, com bastante acidez. No site da Miolo  está em promoção R$ 90. Fica ótimo na entrada com bolinhos de bacalhau.


Uruguai

Um dos vinhos mais premiados do Uruguai, o Garzón Reserva Albariño é elegante e potente ao mesmo tempo. No nariz, tem aromas de jasmim, laranja, grapefruit, pêssego e outros mais.

Garzón Reserva Albariño 2016

 (World Wine/Reprodução)

Na boca, tem uma ótima acidez mas é untuoso, com bom corpo. Isso se deve ao fato de ter ficado em contato com as borras da levedura por três meses, no mínimo, depois de concluída a fermentação.

A Garzón tem uma das propriedades mais bonitas de Maldonado, próximo a Punta Del Este. Custa R$ 106, na World Wine. Vai muito bem com um bacalhau a lagareiro.


Argentina

O bom do novo mundo é que os enólogos têm liberdade para inventar, fazer os cortes mais inesperados.

O Viña Alicia Tiara, de Luján de Cuyo, em Mendoza, é uma ousadia que deu bastante certo.

VIÑA ALICIA TIARA 2010 (750ML)

 (Decanter/Reprodução)

Num encontro improvável entre Alemanha, Península Ibérica e França, ele combina riesling e alvarinho, com uma pitada de savagnin, a uva do cultuado vin jeaune, do Jura.

No nariz, tem uma flor branca, seguida de um cítrico discreto, maça, brioche, creme.  Na boca, é redondo, encorpado, com bastante untuosidade e frescor ao mesmo tempo.

Faz estágio de um ano em contato com as borras. Toda essa complexidade se reflete no preço, é claro. Custa R$ 241, na Decanter. Tem potência e acidez para enfrentar um peixe com molho branco ou um bacalhau com natas.