No Dia Internacional da Mulher, precisamos falar sobre abuso

A dinâmica de um relacionamento abusivo nem sempre é simples e clara. Veja alguns sinais de alerta e, assim, poder ajudar quem passa por esta situação

casal medo abuso

 (Pixabay/Reprodução)

O papo hoje é sério. Há diferentes maneiras de transformar um relacionamento em uma rede de perseguição, sufocamento, angústia e sofrimento.

Não são os problemas de convivência, a família, os amigos, o sexo ou a grana que geram o conflito, mas a maneira de lidar com eles. E mais: a forma como você encara sua parceira.

Relacionamentos abusivos são produzidos pela dinâmica emocional da relação, que sempre é violenta na medida em que aniquila um em prol da segurança e fortalecimento do outro.

Em algum momento da vida, você já deve ter se sentido violentado. Talvez tenha apanhado de alguém, ou sido ameaçado com um revólver na cabeça em um assalto e teve que ficar ali, pianinho.

Pode ser que emocionalmente, na juventude, você tenha sido alvo de alguma perseguição amorosa. Todas essas situações são, sim, abusivas, em maior ou menor grau.

E talvez você já tenha também as provocado. Mas uma dinâmica de abuso e violência psicológica nem sempre dá sinais simples e claros.

Ela pode se estabelecer lentamente, começar com pequenos constrangimentos, humilhações, até que se perceba estar completamente cerceado em sua liberdade existencial.

O que poderia ser encarado como “comum” ou compreensível, na fase da paixão – em que duas pessoas estão fusionadas, os desejos se confundem e facilmente se abre mão da autonomia em nome de estar junto ao outro -, nas relações abusivas é levado ao grau máximo.

A despersonalização já não é como um momento ilusório de fusão, controlável, mas resultado da manipulação psicológica de um sobre o outro.

Quanto mais dependência emocional, mais fácil fica orientar a relação para a exclusividade do desejo de um só. E quanto mais fragilidade emocional, mais baixa autoestima, o que torna o dependente aprisionado na relação.

Não há reconhecimento da pessoa como ser pensante, desejante. Tudo é castrado nas frases: “Deixa que eu faço”, “você não entende disso”, “seus amigos não sabem de nada”, “poderia ter feito melhor”, “não gosto daquele seu amigo, deve estar dando em cima de você”, “você vai sair assim?”.

Isso revela o slogan principal da campanha amorosa: “Quem vai te querer, senão eu?”. Em casos mais cruéis, o ataque à pessoa, seja ao seu corpo, às suas ideias, escolhas ou ações, é direto e depreciativo.

Uma característica comum a relacionamentos abusivos é o afastamento das relações de amizade e familiares, já que elas ameaçam o relacionamento na medida em que testemunham a violência, física ou emocional.

Além disso, a manipulação psicológica também se arvora da generosidade alheia e do sentimento de culpa.

Com frequência, em discussões, há força no agressor, seja através da ameaça física (aquele sujeito que não argumenta, que grita e esperneia), do apelo da chantagem emocional (“você não me ama”, “você não é bom o suficiente para me perdoar”, “eu vou me matar se você for embora”) ou de uma argumentação que acaba fazendo com que um sempre se sinta equivocado, mudando de ideia, mesmo que convicto de sua posição.

Sexualmente falando, em uma relação abusiva a relação submissão/poder é reproduzida: um manda, o outro obedece. E, se não obedece, tem que aguentar a cara feia, a punição, a ameaça, a crítica – não raro, o estupro conjugal acontece.

As pessoas devem ser o fim de toda ação, e não meios para obtenção de prazer. Uma relação implica a existência de uma pessoa, e não meramente uma imagem, depositário de nossas neuroses, inseguranças e frustrações.

* Ana Canosa é psicóloga clínica, terapeuta e educadora sexual e acredita que sexo e afeto são dimensões constitutivas da vida humana

 

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