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Para abastecer sua adega, esta é a hora dos vinhos mais naturais

(Pxhere/Reprodução)

Embora não seja muito evidente para o grande público, existe diversidade no mundo do vinho. E não estou falando das diferentes castas, mas, sim, das tribos que formam esse mercado.

Tem o sujeito empolado que gira taça e arrota o valor dos rótulos, tem o caçador de ofertas que busca bom preço e um produto meramente honesto, o profissional (de imprensa ou de vendas) que tem pouco dinheiro mas prova vinhos caríssimos, o aventureiro que persegue novidades e bizarrices e uma série de outros tipos.

Nos últimos dias, uma turma está fazendo bastante barulho em São Paulo: a do povo dos vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais.

A cidade é sede da sexta edição Feira Naturebas, um encontro que reúne produtores, importadores e profissionais envolvidos com a produção e o comércio de vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais, que acontece neste sábado, dia 4, na Casa das Caldeiras.

E tem havido uma série de degustações em torno do tema. Eu mesma já fui algumas.

Promovida pela proprietária da Enoteca Saint VinSaint e maior embaixatriz dos naturebas no Brasil, Lis Cereja, a feira traz gente do mundo inteiro, produtores gaúchos e até um projeto da Serra da Cantareira, dentro da área urbana de São Paulo, o Going Wild.

É aberta ao público e o melhor lugar para quem quer provar de uma vez só vários desses vinhos – que podem ser bem diferentes dos convencionais.

Os ingressos da feira, no entanto, já estão esgotados. Se você não comprou o seu, ainda dá para participar da festa de alguma forma. Dê uma olhada no calendário da Semana Naturebas.

Há uma série de eventos paralelos que reúnem a mesma tribo, formada em sua maioria por jovens urbanos, hipsters e outros millennials, preocupados com a forma de produção do vinho e seu impacto no meio ambiente.

A maioria de nós, na verdade, nem sabe a diferença entre os vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais.

Para começar, é bom distinguir todos esses dos vinhos convencionais. Ou seja, a maioria dos vinhos que a gente compra nos supermercados ou mesmo em importadoras.

Convencional

Costuma ser feito a partir de uvas cultivados com o uso, em maior ou menor grau, de fertilizantes e agrotóxicos, herbicidas e pesticidas.

No processo de vinificação, há uma série de interferências. A começar das leveduras que provocam a fermentação.

Leveduras são responsáveis pela formação do álcool e outros compostos. Elas provocam a fermentação. Há leveduras naturais nas uvas e no ambiente.

Se alguns cachos de uva ficarem descansando num tanque, logo começam a fermentar espontaneamente.

Mas, como é mais difícil controlar que tipos de aroma e que ácidos podem se formar com essa fermentação natural, hoje a indústria usa leveduras selecionadas programadas para entregar as características que o enólogo quer.

Um dos componentes mais indesejados no vinho é o ácido acético, ou seja, vinagre.

Para inibir a ação das bactérias responsáveis pela transformação do álcool em vinagre, desde o fim do século XVIII os produtores de vinho usam Dióxido de Enxofre (SO2).

Até hoje, praticamente todo mundo usa, inclusive a maioria dos naturebas. A diferença está na quantidade e no momento em que se acrescenta esse composto.

Nos vinhos convencionais, ele costuma entrar logo de início, antes da fermentação alcoólica.

Além disso, é permitido o uso de uma série de outros produtos como ácido cítrico, ácido láctico, taninos, goma arábica, etc.

Para os adeptos dos naturebas, a maioria desses vinhos seria feita como refrigerantes, sem personalidade ou marca do terroir.

 

Orgânico

Vinho produzido a partir de uvas de cultivo orgânico. Esse cultivo segue as mesmas regras das empregadas a qualquer vegetal orgânico.

Não pode empregar herbicidas ou pesticidas químicos. Tem de respeitar o ambiente à sua volta. Mas a vinificação não é muito diferente da convencional.

Também são permitidas uma série de interferências e o uso de vários produtos.

A quantidade SO2 permitida é menor do que a do convencional. Há certificados diferentes nos diversos países.

Em termos de aromas e estrutura, muda pouco em relação ao convencional.

 

Biodinâmico

O método de cultivo das uvas segue os princípios da agricultura biodinâmica um dos ramos do pensamento do filósofo austro-húngaro Rudolf Steiner, que também criou a medicina antroposófica e a pedagogia Waldorf.

Na sua obra, Steiner sistematizou uma série de práticas usadas ancestralmente por produtores rurais, levando em conta fatores como as fases da Lua.

Segue uma série de regras e utiliza uma série de compostos naturais.

Na vinificação, não é permitido o uso de leveduras selecionadas nem a adição de ácidos ou taninos. 

O selo Demeter atesta essas práticas, mas muitos produtores biodinâmicos não são certificados.

Embora muita gente ainda acredite que agricultura biodinâmica não passe de crendice, costuma render vinhos de muita qualidade. O Romanée-Conti, por exemplo, é biodinâmico.

 

Natural

O termo se refere mais à vinificação do que ao cultivo das uvas. Na grande maioria das vezes, os produtores de vinho natural usam uvas orgânicas ou biodinâmicas.

Na vinificação, o vinho natural recebe a mínima intervenção possível. As leveduras são indígenas.

Não se pode agregar nenhum químico além do SO2, que nunca é adicionado no início para não inibir a ação dos microorganismos locais que garantem a identidade do terroir.

Os vinhos não são filtrados ou clarificados.

Não há certificação e nem leis que definam os vinhos naturais. Portanto, o conceito varia. Há quem aceite o controle de temperatura e quem não, por exemplo.

O vinho natural costuma ter uma gama de aromas mais ampla do que os vinhos convencionais, já que na garrafa há muito mais microorganismos em ação.

Aparecem, às vezes, inclusive, aromas considerados defeituosos pela indústria, mas que em muitos casos trazem personalidade. Costumam ser mais ácidos, combinam com comida.

Difícil descrever. Melhor provar. A seguir alguns dos naturais que você encontra nas importadoras, em cartas de restaurantes mais modernos ou em casas especializadas como as paulistanas Enoteca Saint VinSaint , Jardim dos Vinhos Vivos e o recém inaugurado Beverino Bar de Vinhos Naturais.

 

Um nature natural

A região de Champagne tem um terroir complicado. Chove muito e tem poucas horas de luz, o que as pragas amam.

Geadas na primavera quando as flores, que vão dar nos cachos, estão nascendo.

Funciona porque, para fazer espumante, a uva precisa ter bastante acidez. Então, não precisa atingir uma maturidade perfeita.

Mas para a produção de uvas sem pesticidas ou a ajuda de máquinas que sequem as uvas no pé, por exemplo, isso tudo dificulta.

Mesmo assim, a região tem passado por uma revolução, com uma série de pequenos produtores se libertando das grandes maisons e produzindo o que eles chamam de champanhes de terroir, boa parte deles orgânicos, biodinâmicos ou naturais.

O Laherte Frères Blanc des Blancs Nature é natural. O termo nature, porém, não tem nada a ver com isso.

(Divulgação/Reprodução)

Quer dizer que não foi acrescentado nenhum açúcar no fim da segunda fermentação, como costuma ser feito com a grande maioria dos champanhes mesmo naturais. Ou seja, é bastante seco. Importado pela Garrafa Livre, custa R$ 375.

 

Puglia mais primitiva

A região do sul da Itália tornou-se conhecida por seus primitivos de produção em larga escala, cheios de fruta e madeira, redondos, aveludados, feitos para agradar o paladar do consumidor médio.

Esqueça tudo isso. Vinhos naturais costumam ter acidez, aromas menos óbvios.

O Anne Negroamaro Salento IGT 2016, da Azienda Agricola Biológica Natalino del Prete, é uma ótima porta de entrada para quem está querendo conhecer esse mundo.

(Divulgação/Reprodução)

Ele não é enjoativamente redondo como esses primitivos, mas a acidez é na medida, não tem o carater sauer (azedo) ou a sapidez (sabores minerais que lembram salgado) de alguns naturais, que até parecem cervejas lambics. Tampouco tem os aromas mais funkies, como o brett (estrume) ou o acético.

Só fruta escura, alcaçuz, pimenta preta, bastante pimenta preta. Importado pela Wines4U, custa R$ 98.

 

Manifesto pela alegria de beber

Uma das coisas que os produtores e amantes dos vinhos naturais pregam é a descomplicação do ato de beber. Dão pouco valor a velhos rituais e celebram o caráter festivo da bebida.

O produtor piemontês Stefano Bellotti é um dos principais líderes do movimento na Itália. O seu vinho de entrada, Semplicemente Vino Bellotti Rosso, é quase um manifesto nesse sentido.

(Divulgação/Reprodução)

Feito das uvas dolcetto e barbera, é fresco e fácil de beber. Deve ser consumido relativamente jovem, como indica a tampa de cerveja no lugar da rolha.

Também não tem aromas funkies, só frutas frescas. Mas já tem uma leve sapidez. Fica incrível com comida.

Outra ótima forma de ser apresentado ao mundo dos vinhos naturais. Trazido para o Brasil pela Piovino, custa R$ 154.

 

Natural desde sempre

O que consideramos como o tradicional hoje, os métodos e produtos empregados na produção de vinhos convencionais, na verdade, são práticas muito recentes.

A maior parte delas começaram surgir no pós-guerra e se estabeleceram como regra só nos anos 70.

Antes da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, praticamente não existiam os fertilizantes químicos ou agrotóxicos.

Os fertilizantes foram criados a partir do excedente de produtos químicos, como o fósforo, gerado pela diminuição na produção de bombas.

Antes toda agricultura era orgânica e a vinificação era bem mais natural, embora desde Pasteur (1822-1895) já exista a seleção de leveduras.

Alguns raros produtores nunca aderiram nem à seleção de leveduras nem ao uso de produtos químicos na terra.

O Château Le Puy, na Côte de Francs, na margem direita de Bordeaux é o mais famoso deles.

Está na mão da família de Jean Pierre Amoreau há 400 anos e nunca deixou de ser natural. É um grande bordeaux, mas que faz um contraponto ao estilo amadeirado dos grand crus.

O Château Le Puy Emilien 2011, atenção à safra, já está num ponto ótimo para ser bebido.

(Divulgação/Reprodução)

Além da fruta (muita goiaba), tem aromas terrosos de cogumelo e animais de carne. Com um tempo na taça, vem um cheiro de hortência seca que me lembra Campos de Jordão.

Os taninos são delicados e estão sedosos. Delicioso. Custa R$ 428, na World Wine. Nada barato, mas vale.