Segredos para não errar na hora de comprar vinhos da Itália

Alguns truques simples que podem ajudá-lo a decifrar o que está escrito nos rótulos destas bebidas

vinho na itália

Acertar na compra de vinho europeu é bem mais difícil do que na de um vinho chileno ou argentino. Não porque o vinho europeu tenha uma qualidade média inferior, mas porque os seus rótulos são mais complicados.

Os rótulos são complicados porque o sistema de denominações é complicado. E esse é complicado porque o país tem uma tradição enorme, com séculos de história, que resulta na diversificação de estilos. Em cada esquina se faz um vinho diferente. E explicar as diferenças não é fácil.

Pensei nisso durante a masterclass que assisti no começo de abril no road show Top Italian Wines, promovido pelo guia de vinhos italianos Gambero Rosso para apresentar alguns produtores para a imprensa e profissionais do setor em São Paulo.

Provamos 19 vinhos só masterclass, depois seguimos para a feira, onde havia centenas de rótulos para provar. A diversidade de estilos dos vinhos italianos é incrível!

Outro dia uma amiga me perguntou: “Como posso ter certeza se um vinho que nunca tomei na vida vai me agradar?”. “Esquece”, respondi. “Impossível.”

Existem, porém, alguns macetes que podem ajudar a diminuir os erros, formas de reconhecer aquilo de que você gosta. No caso dos italianos, se você prestar atenção nos três pontos a seguir, seu grau de acerto já vai subir muito.

Lembre das aulas de geografia

Na escola, você estudou pelo menos um pouco de geografia italiana. Com certeza, lembra que o norte é mais frio e o sul é mais quente.

Temperaturas baixas resultam em vinhos de aromas de frutas frescas,  mais sutis, menos alcoólicos, mais elegantes, como os bons chiantis. 

Temperaturas altas rendem vinhos mais exuberantes,  potentes, com mais álcool, aromas de fruta em compota, como os primitivos da Puglia. Os dois estilos podem ser ótimos, é só uma questão de saber do que você está com vontade.

Como outros fatores além da latitude influenciam no clima, quanto melhor você for em geografia maiores as suas chances de se dar bem na hora de comprar um vinho.

Altitude, por exemplo, também abaixa a temperatura. Então, como você imagina que é um vinho da região do Monte Etna na Sicília, onde costuma nevar?

 

Há vinhos bons sem denominação de origem

Na Itália, os vinhos se classificam como vino di tavola, o mais simples, feito com uvas de qualquer parte;  Indicazione Geografica Tipica (IGT), que se aplica a vinhos de uma região grande, teoricamente só um pouco melhores que os di tavola;  Denominazione di Origine Controllata (DOC), classificação criada nos anos 60 para distinguir as melhores pequenas regiões produtoras, mas que perdeu prestígio, e Denominazione di Origine Controllata e Garantita (DOCG), que teoricamente reúne os melhores vinhos já que tem as regras mais rígidas.

Na prática, no entanto, muitos produtores preferem manter a classificação IGT para seus vinhos assim não têm de seguir tantas regras.

É o caso dos supertoscanos, vinhos caríssimos de grande qualidade feitos na Toscana muitas vezes a partir de uvas francesas como a cabernet sauvignon ou a merlot.

Mas também é o caso de vinhos de preço médio de muito boa qualidade. Um IGT que custe mais de cem reais tende a ser bem legal. Às vezes, até melhor do que um DOCG desse mesmo preço.

 

Aprenda a distinguir o que é uva e o que é região

A Itália é um país muito rico em uvas autóctones, variedades que só existem por lá.

Cada uma delas tem um perfil aromático, um grau de acidez, um corpo diferente. Se você gostar do vinho feito a partir de uma barbera, há grandes chances de achar bom outro rótulo da mesma variedade.

Por sorte, na Itália, à diferença da maioria dos países europeus, é comum o rótulo trazer estampado o nome da uva. Basta saber reconhecê-lo.

Ele nem sempre aparece sozinho, como nos rótulos do Novo Mundo. Quando são vinhos um pouco melhores, o nome da uva vem acompanhado do nome da micro-região: barbera d’Alba, barbera d’Asti, barbera del Monferrato.

Se você está começando a explorar os vinhos italianos, preste atenção na uva, no primeiro nome, naquele que vem antes do “de”.

Se gostou,  procure por um vinho da mesma uva. Algumas castas locais que costumam aparecer dessa forma: barbera, dolcetto, primitivo, montepulciano, vermentino, vernacchia, nebbiolo.

Numa segunda etapa, você memoriza o nome da região, já que a diferença entre um barbera d’Asti e um barbera d’Alba é bem mais sutil do que a diferença entre um barbera e um nebbiolo, por exemplo.

 

De dar nó em neurônio

Às vezes, no entanto, o primeiro termo não é nome de uva, é um tipo de vinho. Um ótimo exemplo desse tipo de nomenclatura é o caso do Amarone della Valpolicella. Valpolicella é a região, próxima a Verona, no Vêneto, onde esse vinho caro e especial é produzido. Amarone não é nome de uva. É nome de vinho.

A  região e as uvas (corvina, molinara e rondinella) são as mesmas do Valpolicella mais corriqueiro. Difícil não confundir os dois. Tanto que os produtores hoje dão maior destaque para a palavra Amarone.

Mas o Amarone é feito a partir de uvas passas secas naturalmente. Tem uma riqueza de aromas incrível. É super potente e alcoólico apesar de ser de uma região fresca. O açúcar da passa é que faz isso.

Na masterclass do Gambero Rosso, provamos alguns amarones. Gostei especialmente do Tenuta Sant’Antonio Campo dei Gigli 2012. Um vinho caro, bem caro:  R$ 424,00 na Wine. Mas que vale provar.

Tenuta Sant'Antonio Campo dei Gigli 2012

 (Wine/Divulgação)

Mais complicado ainda é o caso Montepulciano, o nome da segunda uva mais plantada na Itália, que nas regiões de Abruzzo e Molise rende um vinho seco, de taninos macios, com aromas de frutas frescas e especiarias, como o Villa Medoro  (R$ 79, na Grand Cru),  muito gostoso para o dia-a-dia.

VILLA MEDORO MONTEPULCIANO D’ABRUZZO DOC 2013

 (Grand Cru/Divulgação)

Mas é também como se chama uma cidadezinha na Toscana, que dá nome para um dos sangiovese mais elegantes da história: o Vino Nobile de Montepulciano, que não é feito da uva montepulciano.

Montepulciano d’Abruzzo e Vino nobile di Montepulciano são dois vinhos completamente diferentes.  O segundo é bem mais raro e bem mais caro.O preço Vino Nobile de Montepulciano costuma ser no mínimo três vezes o valor de um Montepulciano d’Abruzzo.

Na masterclass, provamos o Vino Nobile di Montepulciano Lunadoro Plagiareto 2013, um vinho bastante profundo, com uma enorme gama de aromas. O Lunadoro tem um ótimo preço: R$ 99.

Vino Nobile di Montepulciano Lunadoro Plagiareto 2013

 (Reprodução/Divulgação)

É vendido nas lojas do supermercado carioca Prezunic. Infelizmente, no meu caso, que moro em São Paulo!