[Ideias VIP] Facundo Guerra: somos todos machistas

Meu machismo não é agressivo, mas isso não me faz melhor do que homens que chamo de bárbaros

Machismo Facundo

 (Alphadog/VIP)

Confesso aquilo que me cobre de vergonha: não falarei sobre o machismo alheio, não falarei dele em seu sentido abstrato.

Falarei do meu machismo miúdo, íntimo, que se esconde nos cantos escuros e úmidos meus, que aflora mesmo quando tento me defender de seus ataques ardilosos, não importa quantos memes sobre o feminismo eu tenha compartilhado em minha timeline do Facebook ou quantos poucos livros sobre o assunto eu tenha lido.

Afinal, eu não sou machista como os outros machistas. Sou um macho desconstruído, suficientemente esclarecido pra não me chamar de feminista e passear com minha filha de cavalinho em meio à marcha das mulheres, caladinho enquanto elas gritam “Meu corpo, minha regra!”, que minha menina de 4 anos repete em tom desafiador para orgulho de seu pai desconstruído.

Meu machismo é enrustido. Meu machismo é de armário.

Posso me apropriar do discurso sobre o feminismo, mas jamais deixarei de ser um machista. E isso me traz vergonha, especialmente sendo pai de uma menina. E falar isso é machista, diga-se de passagem.

O machismo não deveria me envergonhar porque ele toca a pessoa que me é mais cara no mundo: ele deveria me chocar por colocar seres humanos de diferentes gêneros em diferentes platôs de privilégio.

Meu machismo não é do tipo agressivo, virulento. Jamais tocaria uma mulher sem seu consentimento. Isso é para animais, bárbaros. Sou humanista e demais refinado para isso. Meu machismo é menor, mas diferentes graus de machismo não me fazem ser menos machista do que os homens que chamo de bárbaros.

Ele é miúdo, pequeno, suave, discreto, molinho, edulcorado, com pendor humorístico: ele vem fantasiado de um discurso igualitário, mas redutor ou relativizador da condição da mulher em uma sociedade extremamente paternalista.

Meu machismo não entende o que as mulheres chamam de cultura do estupro. Não consegue alcançar o nível de empatia necessário para compreender o pavor de uma mulher de andar sozinha na rua à noite.

Ele não chega ao ponto de dizer “mas ela pediu por isso”, como os bárbaros; porém, não consegue se revoltar por mais um estupro no seu nível mais primitivo, mais íntimo. Ele não entendia por que uma mulher se assustava toda vez que, correndo por uma calçada depois das 10 da noite, alguém se aproximava de suas costas.

Pensava consigo: “Como as pessoas estão medrosas nas grandes cidades”, e não “Essa mulher tem medo de ser violada porque as chances de isso acontecer não são pequenas”. Ele não se dá conta de que nós, homens, sempre xingamos um homem de filho da puta e uma mulher de vadia. Ou seja, pra ele, a culpa é sempre da mulher, nunca do homem.

Meu machismo emerge de maneira ardilosa: quando recebo uma fechada de um carro e penso comigo “quer ver que é uma mulher, eu sabia que era uma mulher”; quando entro no Uber, sou surpreendido por uma motorista e penso comigo: “Uau, uma motorista, que legal!, mas será que ela não irá se perder?, liga o Waze, por favor”; quando sequestro a palavra de uma mulher em uma discussão; quando não paro de falar nem por um mísero segundo no momento em que uma mulher quer expor suas ideias; quando não acho estranho que praticamente todos os presidentes de empresa com quem já me reuni são homens; quando amigos machistas falam de mulheres de apetites livres como se fossem profissionais do sexo e eu não os repreendo; quando recebo vídeos ou fotos em grupos de homens no WhatsApp que expõem determinadas partes da anatomia feminina para dizer bom-dia ou que ridicularizam mulheres em situações tragicômicas e eu não me excluo imediatamente desses grupos, que são os lugares em que os machistas camuflados se reúnem, porque, afinal, “são amigos de infância”.

Meu machismo vê uma mulher bonita com talento ou competência e imediatamente esses atributos ficam em segundo plano. Ele é exposto a manifestações machistas de outros homens e covardemente se cala, desde que essas manifestações não tenham plateia, como uma rede social: aí não, aí ele aciona a revolta, a ira, a espuma surge no canto dos lábios, os olhos ganham tons de sangue e ele goza ao apontar o machismo alheio.

Ele não se envergonha de ter traído algumas das companheiras que passaram pela minha vida, mas, quando a traição foi no sentido inverso, ele se fez de vítima, ficou em posição fetal dentro de uma banheira e desejou o fim do mundo. Meu machismo é bunda-mole.

Meu machismo é miúdo, granular, e eu o alimento e o odeio todos os dias. Meu machismo jamais se diria machista: ele foi construído como parte da identidade de uma criança nascida na década de 70, de pais provedores e mães amorosas e que sabiam cozinhar.

Meu machismo não lava louça, não sabe arrumar uma cama, ele se pergunta se ela está assim por causa de seus hormônios ao ser repreendido com razão. Meu machismo se pavoneia secretamente quando me chamavam de garanhão, mas que, na verdade, deveria se crispar de vergonha se tivesse um mínimo de vergonha na cara. Meu machismo é indulgente consigo mesmo.

Não se trata de consolo, eu sei, mas confesso que sou machista. E, no fundo, isso pouco importa para uma mulher; afinal de contas, uma mea culpa de um homem pouco mudará o perigo que elas correm todos os dias na rua. Não é sobre nossa culpa, meu caro machista.

Por mais defesas que eu crie, jamais deixarei de ser um machista, e isso me faz parte do problema e culpado por tudo o que uma mulher enfrenta em seu dia a dia. De alguma forma, esse monstrinho peludo que mora dentro de mim conseguirá superar as barreiras que erguerei para dele me defender.

E me resta a esperança de criar uma feminista em minha filha e não deixar que meus erros se perpetuem nas gerações vindouras. É tudo o que eu posso esperar além do perdão de minhas hermanas.


Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano, é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia