Tempo ao tempo

Investimos muito tempo em matá-lo, mas, ironicamente, ao fim e ao cabo é ele que nos mata

“Nossa, como o tempo passa rápido. Já faz dois anos!” Acabei de ouvir o lugar-comum há pouco, antes de me debruçar sobre o Word para escrever este texto. Devolvi com outro chavão: “É porque estamos nos divertindo”. Vivemos a falar sobre o tempo, reclamando de que a vida passa rápido e que não temos dele o suficiente. O futuro, essa abstração, é parido e gestado no presente, assim como o passado é só uma memória muitas vezes gasta. Arrisco dizer que temos muito tempo: nossos 80 anos de vida são uma eternidade – um átimo, sim, do ponto de vista cósmico, mas não contamos com um cérebro capacitado para entender tanta imensidão. Não é que temos pouco tempo: investimos muito tempo em matar o tempo, expressão das mais irônicas. Ao fim e ao cabo, é o tempo que nos mata.

Outro dia, Pina, minha filha de 4 anos, voltou com uma lição de casa de enlouquecer qualquer astrofísico: explique o tempo. “Filha, o tempo e tudo que conhecemos estava concentrado numa pequena esfera menor do que um grão de areia, até que um belo dia, buuuuummmmmmm!, tudo passou a existir, inclusive o tempo.” Confesso que pensando assim a explicação soa tão inverossímil quanto a existência de uma consciência maior sentada em uma nuvem, mas o xeque-mate de Pina veio com a pergunta: “Se o tempo passou a existir depois de a bolinha explodir, o que existia antes dela?”. Meu cérebro quase se liquefez e escorreu pelas orelhas.

Acredite, o tempo é uma questão diária para mim: além de dez empregos, mais cinco projetos em desenvolvimento e as palestras, o livro que ando a escrever e os cuidados mínimos com minha saúde mental, como me exercitar e me entreter de vez em quando, sou pai solteiro de uma menina de 4 anos, e faço questão de dividir seu tempo igualitariamente com a mãe de Pina. Vivo pensando onde devo investir as horas de meu dia. Ter uma filha me trouxe uma dimensão física para o tempo, um padrão com que posso cotejá-lo: em cada decisão, levo em consideração minha menina. “Esta reunião que ocupará duas horas da minha vida é mais importante do que investir estas mesmas duas horas nela?”– é uma pergunta que tenho feito cada vez mais amiúde. E, no caso de uma negativa, e quase sempre me deparo com um não, trato de resolver o assunto com rápidas chamadas, videoconferência, conversa em um café. Se depois da Revolução Industrial a máxima “tempo é dinheiro” passou a ser um imperativo, nos dias atuais penso que tempo é muito, mas muito mais valioso que dinheiro. Basta perguntar para qualquer moribundo milionário se valeu a pena. E você já pode supor sua resposta.

Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano,é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia