Vinho do Japão? Sim, hoje se faz vinho bom no mundo todo

Tecnologia tem permitido uma adaptação melhor das uvas viníferas a diferentes regiões do mundo todo e não apenas em terroirs consagrados

terroir

 (Grape 1368/Reprodução)

O Japão também produz vinhos. Poucos sabem disso, pois a produção é pequena e quase não sobra nada para exportação.

Tanto que foram três anos de negociação para a importadora Tradbras, especializada em saquês, conseguir importar 500 garrafas do rosé Sakura L’Orient para Brasil.

Quando soube que havia chegado um vinho japonês por aqui, fiquei louca para provar. Adoro conhecer vinhos de locais improváveis.

Até montei uma confraria, com outros jornalistas de vinhos, chamada Que Terroir é Esse?, na qual já tomamos vinho da China, da Dinamarca, da Tailândia e de outras regiões pouco conhecidas do consumidor brasileiro.

O tema me fascina porque tenho visto surgir muita coisa boa em locais que antes todo mundo dizia que o terroir não servia para vinho de jeito algum. A própria Serra Gaúcha, a região vinícola mais tradicional do Brasil, para os ortodoxos, não tem terroir para produzir bons tintos.

Mas que diabos é terroir? Muitos acham que termo francês se refere apenas à combinação de clima e solo.

Segundo essa definição, em locais onde o clima não é seco na época da colheita, onde o solo não tem boa drenagem e onde não há uma diferença de temperatura grande entre o dia e a noite no período de maturação da uva é impossível produzir bons vinhos.

Todos esses fatores realmente são super importantes para que a uva tenha uma maturação perfeita, o que é fundamental para um bom vinho.

O que essas pessoas esquecem, no entanto, é que existe um terceiro elemento definidor do terroir: o ser humano. E esse tem capacidade de manipular a natureza.

Tecnologias simples, de poda, resolvem muitos dos problemas de umidade, por exemplo. Antes com frequência a uva era colhida sem estar madura porque o produtor cismava que ia chover.

Equipamentos de alta tecnologia fazem previsão do tempo com precisão hoje. Tanto produtos químicos quanto técnicas de agricultura orgânica ou biodinâmica podem corrigir problemas do solo.

Não é eliminar a marca do local de procedência. É trabalhar para que cada região dê o melhor de si.

Nos encontros da confraria Que Terroir é Esse?, nunca tomamos um vinho muito ruim. A maioria era bom, uns mais, outros menos.

A seguir três vinhos de terroirs inusitados que você pode encontrar por aqui.

 

Delicadeza marca vinhos do Japão

Eu já tinha provado um rótulo japonês em uma feira de vinhos em Bordeaux em 2014. Era um branco, da uva koshu, seco, elegante, mineral.

Quando li no material de imprensa da Tradbras que o Sakura L’Orient era doce, fiquei com um pé atrás. Mas o vinho é bastante delicado.

Sakura L'Orient

 (Reprodução/Divulgação)

Na verdade, no Brasil, por lei, ele não pode ser chamado de vinho porque tem duas flores de cerejeira (sakura) dentro da garrafa. Mas é um vinho.

Os aromas são todos vínicos: frutado, floral, mineral. O floral deve ser em parte absorvido da flor, mas não se choca com os outros aromas.

Na boca, a acidez não é tão grande, poderia ser maior, mas há algo que parece salgado, mas não é, lembra saquê e compensa o açúcar. Talvez seja umami. Aí devem entrar o terroir e as leveduras indígenas. É elegante.

Ficou delicioso com sashimi. O preço, sim, é salgado: R$ 460, por uma garrafa de 500 ml. Mas é uma raridade e raridades custam caro.

 

Muçulmanos também produzem vinhos

Embora a religião proíba o consumo de álcool, nem todo muçulmano é religioso. E muitos países de maioria islâmica produzem bons vinhos.

A prática de produzir vinhos, aliás, já era comum no Oriente Médio e Norte da África antes de chegar à Europa. Mas, em 1517, o Império Otomano proibiu a produção de vinho, exceto para fins religiosos.

Então, os vinhedos foram dizimados. Hoje boa parte desses países trabalha com uvas francesas que foram introduzidas na época da colonização.

No Marrocos, há predominância de tintas: carignan (a mais plantada), cinsault, grenache. cabernet sauvignon, merlot e syrah. O país, apesar de ter um partido islâmico no governo, tem bons vinhos e mantém 12 apelações de origem.

O Tandem 2011, do Domaine des Ouled Thaleb, da região de Zenata, próxima a Casablanca, é exemplo do que melhor se faz por lá.

Tandem 2011

 (Rerodução/Divulgação)

Um syrah que compete de igual com bons vinhos do Rhône, na França. Custa R$ 167 na World Wine.

 

Vinhos da terra do café

O sudeste brasileiro, quem diria, está fazendo bons vinhos. A minha vida inteira ouvi dizer que isso não aconteceria nem que a vaca tossisse.

Pois é, aconteceu! O grande problema é que por aqui chove na época da colheita. Isso foi resolvido com um sistema de poda que inverte o ciclo da videira.

Esse sistema já é usado em outros países, mas houve um trabalho de pesquisa muito bacana da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).

Boa parte dos vinhos de São Paulo e Minas Gerais, inclusive, são vinificados na Epamig. É o caso dos rótulos da Maria Maria. Os vinhedos ficam numa fazenda de café em Três Pontas, perto de Varginha, Minas Gerais. Eu estive por lá no ano passado.

Maria Maria Diva - Sauvignon Blanc 2017

 (Reprodução/Divulgação)

Comi a costelinha de porco mais deliciosa da minha vida e provei duas safras do tinto e duas do branco. Todos muito bons.

Gostei especialmente do Maria Maria Sauvignon Blanc. Ele tem os aromas típicos de frutas tropicais, como maracujá, e cítricos. Tem o tomilho que eu encontro em quase todo sauvignon blanc. Mas tem também algo diferente, que me pareceu café, café fresco, não torrado.

Pode ser coincidência ou sugestão, pois nunca se provou que culturas próximas passam aroma de uma para a outra, mas, na
minha cabeça, esse café não está ali à toa, afinal o vinhedo está no meio de quilômetros e quilômetros de cafezais.

A safra 2017 custa R$ 132, na Cave Nacional. Se achou caro, aqui também vale o critério da raridade.