Vinhos mais leves e elegantes: o que é essa nova tendência no mercado

Vinhos com menos corpo, menos álcool e mais acidez ganham novos olhares de um mercado tão cheio de tradições

 (Getty Images/Reprodução)

Vinhos mais elegantes. Essa é a tendência apontada pela maioria dos produtores para os próximos anos. Mas o que define a elegância de uma bebida?

Não é a estética da garrafa ou do rótulo, nem a aparência da bebida na taça. O termo costuma ser usado para descrever vinhos leves de qualidade.

Diz-se elegante, pois leveza pode ser confundida com um vinho aguado, sem graça.

Na verdade, o mercado está em busca de líquidos menos encorpados e com menos álcool do que aqueles que foram, e para muitos até hoje são, sinônimo de grandes vinhos.

Vinte anos atrás, quanto mais notas de madeira o vinho tivesse melhor ele seria. Os aromas de baunilha, coco e chocolate, que vêm com o estágio em barricas de carvalho, eram automaticamente associados à qualidade.

Mas nem sempre foi assim. Até a década de 70, cada região do mundo produzia um vinho diferente, uns leves, outros encorpados. Ser bom ou ruim não dependia disso.

Quando o Novo Mundo entrou no jogo, a coisa mudou. Com o investimento da indústria de bebidas na produção fora do território europeu, houve um aporte de tecnologia em várias regiões vinícolas.

O modelo de vinho que áreas como Napa Valley, na Califórnia, ou Valle Central, no Chile, começaram a perseguir foi o dos grandes tintos de Bordeaux, encorpados e com longas passagens por carvalho, feitos a partir principalmente de cabernet sauvignon e outras uvas francesas potentes.

 

O truque amadeirado

barril de vinho

 (Pxhere/Reprodução)

Algumas regiões, como a Califórnia, se deram bem e, nas duas décadas seguintes, confundiram aquela produção com o modelo de sucesso.

Com isso, passaram a fazer vinhos cada vez mais encorpados e com passagens ainda mais longas em barricas. No meio tempo, surgiu o crítico americano Robert Parker, apaixonado por vinhos potentes.

Foi então que se começou a usar os famosos chips (lascas) de carvalho para dar gosto e aroma de madeira em tudo que era tinto.

A preferência recaía também sobre vinhos com bastante álcool e bastante tanino (componente presente na casca da uva que dá estrutura e corpo à bebida, além de ter ação conservante). “Antes disso muitos vinhos ‘elegantes’ eram deselegantes”, diz o sommelier Manoel Beato. “Tinha muito vinho ruim, com defeito.”

A madeira disfarça alguma derrapada na produção e arredonda o vinho. O aroma de baunilha esconde aromas indesejáveis.

O uso generalizado do carvalho foi um passo que pareceu acrescentar qualidade a um número grande de rótulos.

“Mas a madeira em demasia esconde as características individuais”, diz Lorenza Sebasti, CEO da vinícola Castello di Ama, na Toscana, Itália. “Fica tudo igual. E as pessoas estão se cansando de beber sempre o mesmo vinho. Muitos produtores voltaram a investir na tipicidade de cada região. Na Itália, estamos num caminho bom, valorizando as uvas locais.”

 

O novo repaginado

mesa de vinho rosé

 (Pxhere/Reprodução)

Diminuir o uso da madeira foi possível porque as técnicas agrícolas avançaram. Hoje há uvas de maior qualidade, mesmo em terroirs que não são tão espetaculares.

Ou seja, há menos defeitos a esconder, e várias regiões do mundo estão desenvolvendo estilos próprios interessantes.

Ter a marca do seu local de procedência é um dos pontos esperados de um vinho elegante. O outro é não ter tantos taninos, o que depende, em primeiro lugar, da uva.

Uvas com casca grossa, como a cabernet sauvignon, rendem vinhos com bastante tanino. O enólogo pode extrair menos ou mais taninos, variando o tempo em que ele deixa as cascas em contato com o mosto (suco da uva).

Se deixar por pouco tempo, o vinho fica mais leve.

Mas não se perde em estrutura? Sim. A estrutura é a espinha dorsal do vinho. Por isso, para ter menos tanino, um vinho precisa de acidez.

Traduzindo: essa acidez não é como a de um vinagre, volátil, de ácido acético. A acidez desejada vem de outros ácidos e costuma não chamar tanta atenção.

Ela aparece nas laterais da língua, nos faz salivar. Os melhores exemplos são os vinhos da Borgonha, na França.

Feitos de pinot noir, uva de casca bastante fina, os tintos dessa região surpreendem pela personalidade e longevidade. Outras uvas de casca fina são a gamay, da região francesa de Beaujolais, e a barbera, da região italiana do Piemonte, por exemplo.

O segredo de um vinho elegante em qualquer parte do mundo está na maior acidez e no menor teor alcoólico, que depende do grau de maturação da uva.

“Para isso, é preciso colher a uva antes”, conta Laurence Odfjell, chairman da vinícola chilena Odfjell, que tem diminuído progressivamente o uso da madeira em todas as linhas da vinícola (muitos rótulos já são até isentos).

“É preciso cuidar cada vez melhor das vinhas”, diz João Roquette Álvares Ribeiro, gerente de exportação da Quinta do Vallado, uma das vinícolas de maior prestígio do Douro, em Portugal.

Segundo ele, esse é o caminho da vinícola para obter vinhos prontos para beber num curto período de tempo (uma demanda do mercado), sem tanta extração e com menos tempo de passagem pela madeira.

Para ser elegante, um homem não pode combinar um terno bem alinhado com um sapato furado. Isso também acontece com o vinho.

O enólogo tem de respeitar a vocação da vinha. Se ela rende um exemplar encorpado muito bom, há que se respeitar isso. “O mais importante é que tudo esteja em equilíbrio”, alerta Ribeiro.


 

SILHUETA ELEGANTE

Três rótulos que fazem jus a um cumprimento da realeza

 

Clotilde Davenne Bourgogne Rouge

 (Divulgação/Reprodução)

Feito com uva pinot noir cultivada em agricultura biodinâmica.

750 ml | R$ 127


 

Orzada Carignan

 (Divulgação/Reprodução)

Este carignan é proveniente de vinhas velhas, com mais de 60 anos.

750 ml | R$ 151


 

Ama Chianti Classico

 (Divulgação/Reprodução)

Das parreiras mais jovens da vinícola, é o rótulo de entrada da Castello di Ama.

750 ml | R$ 290