Maior evento do “novo mundo” dos vinhos, o leilão de Nederburg acontece nesse final de semana

Evento sulafricano é resultado de prova às cegas que mudou o panorama da produção de vinhos no mundo: o julgamento de Paris

Foi em 1976 que o mundo dos vinhos conheceu o “novo mundo”. A partir desse ano, vinícolas em Napa Valley, Chile, Mendoza e África do Sul ganharam o mesmo status que as tradicionais regiões viníferas do mundo na Itália e França.

Desde então, o leilão da vinícola Nederburg se tornou referência quando o assunto são vinhos do novo mundo. Chegando em sua 42ª edição, Nederburg Auction acontece nos dias 16 e 17 de setembro em Paarl, sede da vinícola, na África do Sul. Com o tema herança, o leilão se reafirma como o maior evento de vinhos do novo mundo, que nessa edição irá contar com 79 produtores dos mais diversos tipos de vinhos: serão 73 tintos, 50 brancos, quatro muscadets (vinho típico do Vale do Loire), 11 vinhos Noble Late Harvest (vinho doce feito com uvas que passaram do tempo maturação normal) além de seis tipos de vinho do Porto.

VEJA TAMBÉM

Uma das mais tradicionais da África do Sul, a vinícola Nederburg foi criada em 1791 e desde então se estabeleceu no cenário enólogo do país. Seu leilão foi criado em 1975 como um pequeno evento em conjunto com quatro outras produtoras. Mal sabiam eles que um evento no ano seguinte iria catapultar suas produções a outro patamar.

O julgamento de Paris e o “nascimento” do novo mundo do vinho

  Críticos que participaram do famoso teste às cegas (Crédito: Reprodução)

Críticos que participaram do famoso teste às cegas (Crédito: Reprodução) (/)

Antes de 1976, a geografia dos vinhos do mundo podia ser resumida em: França e Ítalia como os países de faziam grandes vinhos, e Portugal fazendo seus tradicionais vinhos do Porto. O resto era o resto, e não entravam no hall das bebidas que os grandes sommeliers se importavam em experimentar.

Com isso na cabeça, o dono de uma loja de vinhos de Paris, Steven Spurrier, conhecido no meio, resolveu promover seu estabelecimento com um teste às cegas. Para tanto, chamou sua sócia americana Patricia Gallagher para fazer a curadoria de vinhos da região de Napa Valley. Para o teste, uma série de enólogos importantes da França foram convocados, incluindo Odette Kahn, na época editora da Revue Du Vin de France.

O evento que colocaria em disputa vinhos franceses contra os feitos em Napa Valley foi solenemente ignorado pela imprensa da época, com exceção de George Taber, correspondente em Paris da revista Time que conseguiu o furo de sua vida no evento.

Por ser o único jornalista presente, Taber conseguiu amplo acesso aos críticos, inclusive a carta que mostrava os vinhos que os especialista estavam tomando.

Em certo momento, um dos enólogos degustou um vinho e bradou: “de volta a França!”. Com o detalhe de que o vinho tomado era de Napa Valley. Taber percebeu ter em mãos um furo que mudou a história dos vinhos no mundo. Ao final da degustação, os vencedores foram: chardonnay 1973 do Chateau Montelena e o cabernet sauvignon 1973 do Stag’s Leap Wine Cellars, todas produtoras da região californiana, garrafas que hoje estão guardadas no museu Smithsonian de história Americana.

O resultado provocou alvoroço no mundo do vinho, que percebeu que eles podem ser feitos em qualquer lugar e com alta qualidade, inclusive na África do Sul.