Uma viagem no Tequila Express, o trem da destilaria Jose Cuervo

Embarcamos no México no expresso do porre: um trem open bar entre as cidades de Guadalajara e Tequila. Tomamos 43 margaritas em três dias e sobrevivemos

jose cuervo express

 (Divulgação/Reprodução)

Assim que desembarquei em Guadalajara, segunda maior cidade do México, puxei pela memória o primeiro porre de tequila.

“Vira! Vira! Vira!”, festa à fantasia no co­­­­­legial, eu de seminarista, “mais um! Mais um! Mais um!”, uma diabinha, duas fadinhas, “sacode a cabeça!”, “uhuuuuuu!” e no dia seguinte a cabeça pesando 78 quilos enquanto balbuciava qualquer coisa como “acho que vou morrer”.

tequila

 (Pixabay/Reprodução)

Quase 15 anos depois de a diabinha, as fadinhas e as doses de um gole só se transformarem num borrão na memória, eu chegava ao México para conhecer um negócio chamado Tequila Express. Era como dar a mão àquele adolescente.

Pego um jornal local por acaso e no caderno de economia há um “índice tequileiro” ao lado de gráficos das maiores bolsas de valores do mundo. É ele que mede a variação do mercado do destilado cuja maioria dos consumidores (51%) está nos EUA.

Nos primeiros dez meses deste ano foram produzidos cerca de 158 milhões de litros de tequila. É coisa para danado, mas 10% menos que o mesmo período do ano passado.

Há uma leve crise no mercado, e a única maneira de saná-la é aumentando a quantidade de doses bebidas. No dia seguinte, a partir das 11h, eu ajudaria a enfraquecer a crise bebendo o máximo possível.

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Foi pelas mãos do espanhol Don Cenobio Sauza que, por volta de 1600, as primeiras destilarias de agave azul, de onde se extrai a tequila (os mexicanos falam “o te­­­­­­­qui­­­­­­­­­la”), se instalaram no México. Só 221 anos depois o país se tornaria independente.

Para os nativos, a bebida em sua versão mais primitiva (praticamente uma garrafa de álcool Zulu) era um meio de se conectar à deusa que habitava o vulcão aos pés de Tequila, a cidade. Pura viagem, estavam todos bêbados.

Durante quase dois séculos, a bebida concorreu com os licores espanhóis, causando furor e tentativas de barrar a concorrência. Cada dose de tequila se tornou um protesto, e a bebida virou uma peça de resistência da co­­­­­­lônia, que não deixou de produzi-la.

Enquanto passamos por estátuas de agave azul, garrafas gigantes e outdoors anunciando destilarias e drinques, o guia avisa que tequila quer dizer “montanha de fogo”. Faz muito sentido.

De novo, como aqueles filminhos em câmera Super 8, a festa à fantasia, o “Vira! Vira! Vira!” e tudo girando ao redor voltam com tudo.

jose cuervo express

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Até o começo de 2012, a estrada de ferro (antigo es­­­­coa­­­­­­douro da produção) que liga Guadalajara a Tequila, pequena cidade 70 km ao noroeste e com cerca de 60 mil habitantes, aos pés do vulcão que dá nome ao lugar, es­­­­­­­tava jogada às traças.

Por iniciativa da Jose Cuervo, a maior destilaria de tequila do mundo, que produz cerca de 99 milhões de litros por ano e é dona de 25 mil hectares de agave azul plantados, ferrovia, estações e trens fo­­­­­ram inteiramente reformados.

Nascia o Tequila Ex­­­­­press. O trem bombou os pacotes turísticos com visita guiada às destilarias e aos campos de agave com a sua promessa de selvageria alcoólica adolescente.

jose cuervo express

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Índias em trajes típicos e mariachis recebem os viajantes na estação. As primeiras doses são servidas e muitas outras se seguem à medida que as caravanas se juntam.

Quem já estava bebendo recebe os novatos com fu­­­­­­­­­ror de amigo bêbado em churrasco da turma. Três garrafas secam em instantes, nem subimos no trem ainda.

Lá dentro, em todos os vagões, há um bar ao redor do qual garçons empunham bandejas lotadas de copos de tequila. Dentro do bar, outros tantos litros de margarita de limão, tamarindo e manga são produzidos.

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O trem dá partida, todos balançam, um brasileiro gri­­­­­ta “arriba!”, todos repetem.

Uma mexicana que estava fan­­­­­­tasiada de índia surge vestida (acho que) de cigana, sorri e oferece mais tequila. Ninguém recusa. Os primeiros campos de agave surgem na janela.

Bons bebedores, os mexicanos não deixam de se as­­­­­sustar com a voracidade dos brasileiros no que diz respeito à tequila. Atribuem a fama de “bebida que deixa muito louco” ao modo como geralmente bebemos, com goles fartos e rápidos.

Alegam que assim mal se sente o sabor do destilado e qualquer coisa com 40% de álcool faria o mesmo efeito. Não é difícil ver mexicanos tomando tequila com duas pedrinhas de gelo, num calor de lascar.

jose cuervo express

 (Divulgação/Reprodução)

Mas nem sempre foi assim. No sé­­­­­cu­­­­­­­­­lo passado, a bebida passou por al­­­­guns processos de domesticação.

Primeiro, o refinamento dos mecanismos de destilação amainou o teor alcoólico que fazia a festa de pobres diabos na época em que ba­­­­­­tia a casa dos 55%.

Paralelamente a isso, vieram os drinques, como a margarita, criados para sua­­­­­­­­vizar e tornar mais palatável a be­­­­­bida, também para as mulheres.

Nos anos 1980, quando a tequila entrou para valer nos EUA e virou febre no verão da Flórida à Califórnia, deu-se a loucura de tomar tudo como se o mundo fosse acabar no fim da festa. A moda pegou.

drinks tequila

 (Pixabay/Reprodução)

No trem, alguém faz pirueta com uma garrafa cheia de tequila. O barman pede calma, o primeiro de cerca de dez pedidos até chegar ao destino final.

Até lá, apenas se bebe, bebe e bebe (eventualmente alguém aparece com uma cestinha de petiscos), grita-se, can­­­­­­­­­­­ta-se e fala-se um portunhol horroroso festejando as mexicanas que aos poucos invadem os vagões para apresentações de danças típicas.

O volume e a “alegria” em torno disso aumentam em progressão geométrica.

A uma hora e meia de viagem, quando meu caderninho anota tortamente 12 margaritas e cinco shots, a Salma Hayek da vez avisa que vai ser promovido um bingo. Só pode ser brincadeira, penso, já catando os primeiros pedaços de dignidade e a cartela.

O prêmio: uma garrafa de tequila envelhecida da melhor qualidade (hoje há cerca de 1 100 rótulos produzidos por 250 destilarias no México). Não marquei (ou não entendi) um ponto se­­­­­­quer. Já são 14 margaritas.

jose cuervo express

 (Divulgação/Reprodução)

Na janela, um véu azulado cobre os cam­­­­­­pos (tombados pela Unesco em 2006 como Patrimônio da Humanidade) até onde a vista alcança. Milhares de pés de “abacaxi gigante”, que é com que o agave azul parece, se espalham na paisagem que lembra o cerrado.

“Bienvenidos a Tequila!” e a última dose no trem, antes da primeira na estação local, é servida assim que se desce.

Cada agave demora de seis a dez anos para amadurecer. Não é rara a extração de peças com 10, 12 quilos já a partir do sexto ano. A cada 7 quilos, produz-se 1 litro de tequila.

A primeira visita é aos campos de agave, onde “jimadores” (pronuncia- se rimadores) apresentam os métodos de plantio e extração.

agave tequilana

 (Pixabay/Reprodução)

Nas destilarias, sem parar de be­­­­­­ber, aprende-se o passo a passo da des­­­tilação, armazenamento e, com sorte, visita-se a cava da família te­­­­­­quileira, onde estão as melhores sa­­­­­­fras em barris que podem demorar até 50 anos para chegar ao mercado.

Pela primeira vez desde que deixei a Gua­­­­­­dalajara, sinto a embriaguez se dis­­­­­sipar levemente. Não dura nem meia hora.

A visita se transforma ou­­­­­tra vez numa espécie de São Silvestre do porre. Entre isso e o jantar, al­­­­­guém passa apontando garrafas cheias para a boca dos presentes.

O jantar do passeio é quase sempre realizado nas instalações das des­­­­­­­­tilarias ou em casas onde antes vi­­­­viam seus donos. A comida não vem antes de algumas rodadas de tequila e drinques; a etiqueta recomenda que se aceite tudo.

Em algum ponto do convescote, quan­­­­­do mais cosplays de Salmas Hayeks (elas são impressionantes) dançam entre mariachis, memória e presente se embaralham.

jose cuervo express

 (Divulgação/Reprodução)

Num segundo, os brasileiros (quem mais?) tomam de assalto os instrumentos dos mariachis e logo dolorosas canções de amor mexicanas dão vez a hits noventistas de samba-reggae e funk carioca. Parece uma festa à fantasia adolescente.

Sobre as cabeças dos presentes, equilibram-se mais bandejas de te­­­­­quila, margarita e outros drinques, como michelada, paloma e sangrita. Mal uma rodada acaba, surge alguém com mais copos cheios.

Entre o jantar e a volta, há visitas às lojas da cidade, onde se encontram tequilas premiadas (que nunca chegam ao Brasil) a preço de cachaça. Dá para montar um estoque de grandes rótulos gastando uns R$ 500.

É noite, o trem dá partida. As pessoas cantam, gritam, se abraçam, “viva Tequila!”.

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Num canto, mariachis cansados tomam a última dose do dia. Começa a viagem de volta e o novo loop de drinques e euforia.

“Una más, señor?”, pergunta, me acordando com tapinhas no ombro a mexicana meio índia meio cigana e que agora aparece vestida de Frida Kahlo (acho que é isso), assim que che­­­­­­­gamos de volta a Guadalajara.

Por alguns segundos, tento lembrar onde estou e para que direção fica a minha casa. O México é uma imensa festa à fantasia do colegial mo­­­­­­vida a tequila. Aceito a dose.

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UN, DOS, TRES… TEQUILA!

  • Há voos da AeroMexico saindo de São Paulo para Cidade do México. De lá até Guadalajara é cerca de 1h30 de viagem.
  • As viagens do Tequila Express acontecem de terça a sábado, de manhã cedo e à tarde.
  • Os pacotes de viagem (trem + open bar de tequila + visitas) custam em média US$ 130 por pessoa. Tente comprá-los antes de chegar ao México (mundocuervo.com).
  • Em Tequila, a cidade, é onde se encontram os melhores preços da bebida. Visite as lojas em torno da praça central, que também têm bons preços.
  • Não deixe de ir ao Museu Nacional da Tequila, aberto em 2000, e que reúne dados e objetos muito interessantes da cultura tequileira.
  • A maldição de Montezuma não é lenda. Excesso de pimenta e beber água local sem tratamento podem fazer você morar no banheiro por dias. Assim que desembarcar, compre uma caixa de Imodium, o melhor preventivo.
  • Prepare o fígado. A maratona é realmente pesada e concentrada em poucas horas. Pouco álcool e comida leve nos dias anteriores à viagem ajudam a enfrentar o porre inevitável. Estando lá, pé na tábua!
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