Um brinde aos enochatos

O vinho é o território onde se trava a luta entre o conhecimento e o exibicionismo

enochato

Sou um enochato, desconfio. O enochato é um incompreendido. Não vejo por que um nariz mais sensível não pode perceber, nas entranhas de um rude tempranillo, o odor de folhas de jasmim pisoteadas às margens de um vinhedo no crepúsculo ibérico. Ou sentir, num grüner vertliner ainda jovem, a essência perfumada de chocolates típicos de uma confeitaria de Viena.

Amo abrir uma carta de vinhos e cortejar com os olhos, lenta, minuciosamente, os múltiplos segredos que ali se escondem. Gosto de escolher o vinho dos outros. Arrisco-me às cegas a distinguir um malbec novo de um pinot antigo, mas invejo sinceramente aqueles que acertam, sem pestanejar, a safra do Cheval Blanc e, mais ainda, quem adivinha num toque de paladar se aquele desprezado torrontés procede da Galícia, de Salta ou, vá lá, da Bulgária. Já vi o Manuel Beato, sommelier do grupo Fasano, fazer isso e, por melhor que seja seu traquejo cênico, o Manuel decididamente não estava trapaceando.

O vinho é um desses territórios de consumo ascendente onde mais claramente se trava o bom combate entre o conhecimento e o exibicionismo, entre o legítimo direito ao requinte e a frívola urgência da vulgaridade. Há enochatos e enochatos. A fronteira entre a paixão e a inconveniência pode ser sutil.

Cada vez mais, homens e também mulheres estão sorvendo por aí, em interessadas aulas pós-expediente, informações saborosas que possam ajudá-los na aflitiva escolha à frente de uma gôndola de supermercado. Lições de enologia têm hoje audiência comparável à dos cursos de mitologia greco-romana das Casas do Saber. As pessoas querem aprender. E que mal há de haver se a gente consulta o site do Robert Parker ou a Wine Spectator para checar a safra mais conveniente para aquele presente de Natal?

Parker e a WS são execrados pelos que patrulham a tribo dos enófilos — enochatos incluídos —, mas os rabugentos acabam sendo criaturas tão esnobes quanto aquelas que eles culpam de esnobismo. Se o vinho lava a alma, a inveja envenena o estômago. A gente pode consultar à vontade o Parker e a WS sem se tornar escravo do gosto alheio. Parker e a Wine Spectator, aliás, exprimem em si mesmos a principal virtude da arte do palato: a liberdade de ter opinião própria. Acusa-se a revista do Marvin Schenken de ser magnânima em demasia com os chardonnays da Califórnia. E não vai ser no Parker que você vai encontrar o julgamento mais isento a respeito dos borgonhas brancos e tintos (ele geralmente desqualifica ambos). Portanto, amigão, eles são só uma referência — o gosto é seu.

Na briga contra a futilidade e o show-off, porém, podem contar comigo. Dou um pequeno exemplo. O justificado anseio pelo conhecimento convida a viagens eventuais aos terroirs. Participar de uma colheita em Bordeaux, assistir àquele espetáculo, é como mergulhar numa tradição milenar. No entanto, já ouvi os locais ironizarem emergentes brasileiros que alugam Ferrari resfolegantes para trafegar em estradas vicinais tão estreitas, tão romanticamente bucólicas como aquela D2 que atravessa Margaux até Pauillac. Viagens, como diz Alain de Botton, podem ser experiências civilizadoras ou apenas a insossa reiteração do que você já viu ou já sabe.

Visitei, um ano atrás, a domaine da família Guigal, na Côte Rôtie, ao sul de Lyon. O Rhône lambe suavemente as encostas do Château d’Ampuis, ao pé de vinhedos suspensos em terraços que vêm da época dos romanos. Há poesia naquilo: um negócio em família, o carinho do artesanato, aquela simplicidade camponesa, e aí você prova um La Mouline 2003 ou um La Landonne na cave do château e é como descortinar, num gole, todo o paraíso. Não por acaso a abençoada família Guigal é recordista de pontos nas listas do — olha ele aí de novo — Robert Parker.

Dá também para viajar pelo universo do vinho sem sair de sua poltrona predileta. Deguste o livrod e Jonathan Nossiter — aquele do documentário Mondovino. A obra se chama Gosto e Poder (Companhia das Letras) e reitera aquela incessante busca de Nossiter por seu graal: o melhor syrah de garagem produzido organicamente no Vale do Rhône, o riesling perfeito da Alsácia e até mesmo um tannat de atitude nas altitudes de Santa Catarina. Americano afrancesado, Jonathan mora hoje no Rio de Janeiro. É um enochato radical. Dos melhores.