Vilão ou injustiçado? Até que ponto o leite de vaca é prejudicial

Parece que todo mundo tem intolerância à lactose e o leite de vaca virou um alvo. Descubra aqui até que ponto isso é verdade

soja

 (Pixabay/Reprodução)

É fato: a intolerância à lactose é comum.

No Brasil, segundo pesquisa da Faculdade de Medicina da USP, 57% dos brancos e pardos, 80% dos negros e 100% dos descendentes de japoneses sofrem com ela – ou seja, seis em cada dez pessoas.

Nos Estados Unidos, são quase 50 milhões de pessoas.

E a incidência na população global é ainda maior: 65%.

O problema acontece quando o organismo não produz ou produz quantidades muito reduzidas de lactase, a enzima responsável pela quebra da lactose, tipo de açúcar presente no leite, para que ele possa ser digerido.

“Se o processo não ocorrer adequadamente, a lactose permanece inteira no intestino, sem ser absorvida pelo sangue.

Isso aumenta a retenção de líquidos no órgão e a fermentação provocada pelas bactérias da flora intestinal, o que costuma causar dor, inchaço, flatulência e diarreia”.

Isso diz Paula Castilho, nutricionista da Sabor Integral Consultoria em Nutrição, em São Paulo.

O tipo mais raro dessa deficiência é congênito e faz com que a pessoa nasça sem condições de fabricar a lactase.

Em outros casos, a produção da substância é afetada por doenças intestinais, como síndrome do intestino irritável ou doença de Crohn, e a intolerância costuma desaparecer com o controle da patologia.

Além disso, todo mundo sofre com a diminuição progressiva e natural da produção dessa enzima a partir da adolescência, mas há pessoas que não apresentam dificuldade para digerir a lactose em nenhuma fase da vida.

intolerancia leite

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Justamente por isso, não faz sentido que o leite e seus derivados sejam retirados de todas as dietas.

Isso, aliás, pode ter efeitos colaterais.

“Se o indivíduo não apresentar esse tipo de problema e consumir só produtos sem lactose, ele pode se tornar intolerante”.

“O organismo entende que não é mais necessário produzir a enzima”, alerta a nutricionista Priscila Rosa, da Fit Saúde e Nutrição, também na capital paulista.

“Além disso, o leite é uma das nossas principais fontes de cálcio, vitamina D e zinco, tem boa quantidade de proteína, vitaminas B12 e B6 e potássio”.

Quantidades insuficientes de cálcio no organismo (a recomendada é 1,2 grama/dia) podem causar osteoporose, insuficiência cardíaca, depressão e demência – e só 2% dos brasileiros consomem o quanto deveriam.

O cálcio do leite é praticamente insubstituível, porque o organismo o absorve muito melhor do que o proveniente de outras fontes, como vegetais verde-escuros.

Segundo o parecer técnico do Conselho Regional de Nutricionistas dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, a recomendação indiscriminada para restrição do consumo de leite e derivados não encontra respaldo científico suficiente.

leite

 (Pixabay/Reprodução)

O órgão orienta que ela só deve acontecer em quem tem diagnóstico de intolerância à lactose, alergia à proteína do leite ou quaisquer outras condições que exijam a retirada.

Os produtos sem lactose não passam por um processo em que o açúcar é retirado: eles apenas recebem a adição da enzima lactase para facilitar a digestão.

Segundo especialistas, não deixam nada a dever em relação aos convencionais, pois essa alteração não implica na perda de nutrientes.

A não ser em relação ao preço — geralmente bem mais alto.

Por isso, optar por esses itens nem sempre vale a pena.

Além disso, se você tiver desconforto com a ingestão de leite, mas não for totalmente intolerante, pode consumir iogurtes – eles têm entre 25% e 50% menos lactose.

A exclusão da lactose da dieta também não faz perder peso.

“A questão é que essa modificação na dieta leva a uma diminuição da ingestão de calorias, pois a pessoa acaba excluindo alimentos como bolos, molho branco e alguns tipos de biscoito, que têm leite na receita”, esclarece a nutricionista Clarissa Hiwatashi Fujiwara, de São Paulo, membro do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e da American Society for Nutrition (ASN).

Por isso tudo, não custa lembrar: consulte um profissional antes de cortar a lactose de sua dieta.

 

Alergia × intolerância

Elas são coisas diferentes.

No caso da alergia ao leite, o organismo interpreta algumas proteínas da bebida – nada a ver com a lactose, portanto – como um elemento estranho.

Isso, por sua vez, acaba gerando, além de sintomas similares aos da intolerância, quadros como lesões na pele, dificuldade para respirar e queda da pressão sanguínea.

Ela atinge apenas 3,5% da população adulta.

 

Os “leites vegetais”

Semelhantes na aparência, os leites vegetais são polêmicos.

A maioria dos especialistas não concorda com a forma com que foram batizados porque afirmam que, em termos de nutrientes, o produto extraído de grãos, cereais ou oleaginosas não substitui a bebida proveniente da vaca.

Eles são, porém, uma boa opção para quem sofre com intolerância à lactose, já que não têm a substância na fórmula.

O mercado desse tipo de produto está em franca ascensão nos Estados Unidos e deve representar 40% do setor de bebidas lácteas até 2021.

De fato, a Whole Foods, rede de supermercados americana, divulgou em um relatório que os leites vegetais são uma das tendências da alimentação saudável para 2018.

Veja aqui alguns deles:

 

Soja

soja

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Tem cálcio, potássio, vitaminas do complexo B e magnésio.

É um dos mais ricos em proteínas e fibras, além de um dos mais baratos.

 

Arroz

pote de arroz

 (Pixabay/Reprodução)

Rico em carboidrato, pobre em proteínas e com vitaminas do complexo B.

É bom para quem briga com a balança, pois tem poucas calorias.

 

Aveia

Aveia

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Tem muitas fibras, além de magnésio, zinco, vitaminas do complexo B e glúten.

É ótimo para quem sofre com prisão de ventre.

 

Amêndoas

amêndoas

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Mais um que conta com cálcio, magnésio e fibras.

Outra vantagem é a pequena quantidade de gorduras, mas é caro.

 

Coco

água de coco

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Feito a partir do coco maduro, tem valor de cálcio próximo ao do leite de vaca (embora o organismo não o absorva tão bem).

Não tem glúten nem lactose.

 

Faça você mesmo

Leite de aveia

Ingredientes
■ 2 xícaras (chá) de aveia em flocos
■ 3 xícaras (chá) de água mineral ou filtrada
■ 1 colher (chá) de essência de baunilha (ou outra a sua escolha)
■ Qualquer tipo de açúcar a gosto

Preparo

Deixe a aveia de molho na água por 1 hora. Coloque todos os ingredientes no liquidificador e bata bem. Em seguida, coe e leve à geladeira, onde pode ser armazenado por até três dias.

Rendimento 1 litro

 

De amêndoas

Ingredientes
■ 1 xícara (chá) de amêndoas cruas (sem nenhum tempero)
■ 3 xícaras (chá) de água filtrada
■ 1 colher (chá) de essência de baunilha
■ Água suficiente para deixar as amêndoas de molho

Preparo

Em uma vasilha funda, coloque as amêndoas cobertas com o dobro de água e deixe de molho por 12 horas. Se estiver muito calor, tampe e coloque na geladeira. Depois, escorra a água e coloque as amêndoas em um liquidificador com as 3 xícaras de água e a essência de baunilha. Bata tudo até virar uma mistura cremosa e esbranquiçada. Coe em uma peneira bem fininha ou com um paninho higienizado.

Rendimento 700 ml

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