3 vilões para guiar sua vida

Inspirar-se somente em pessoas reais ou em personagens bonzinhos é viver uma vida muito besta. Não caia nessa!

3 vilões para guiar sua vida

Quem afinal é influenciado por pessoas reais? Talvez um pai, um avô, um amigo o tenham influenciado um pouco. Mas vamos admitir a verdade, as pessoas da vida real são sem graça demais, com suas lumbagos e camisetas polo e o carro no mecânico e os crocs e a babinha no canto da boca. Precisamos todos, precisamos mesmo sem saber que precisamos, da grande variedade de personagens da literatura e do cinema para nos lembrar alguma coisa das possibilidades da vida.

Porque é isso que são os personagens, da Madame Bovary ao Capitão Sparrow, quando somos jovens: exemplos de possibilidades da vida, numa época em que ainda podemos fazer o que quisermos com ela. Nessa fase da vida, cada romance é como um cardápio num restaurante: corremos os olhos pelos personagens e logo escolhemos um para nos identificarmos – não, ao contrário de outras épocas da vida, porque eles são parecidos conosco, mas porque nós é que queremos ser parecidos com eles. Assim vamos testando a possibilidade de nos tornarmos um embaixador alcoólatra, um ladrão sofisticado de joias, um místico desagradável, um estalajadeiro grosseirão. Vestimos essas personalidades durante alguns dias (às vezes por tempo demais, por anos, num erro de cálculo que todos cometemos) até o momento em que percebemos que ela não nos serve muito bem, ou até que outra personalidade nos pareça mais atraente.

Os personagens que me atraíram foram sempre os insuportavelmente metidos e petulantes, uma coleção que me foi servindo de modelo ao longo dos anos: o tio esnobe do personagem principal de O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, o crítico maligno Addison DeWitt em A Malvada (filme de Bette Davis), que aliás também serviu de modelo para Paulo Francis, Lord Sebastian, o aristocrata de Memórias de Brideshead, de Evelyn Waugh, e principalmente Dick Diver, o psiquiatra desocupado e charmoso, de Suave É a Noite, de F. Scott Fitzgerald.

Dick Diver! Nunca quis ser tanto como alguém quanto quis ser como Dick Diver. Ninguém dá melhores jantares e festas do que ele, nem é amado por mulheres tão bonitas. É verdade que ele passa a segunda par te do livro numa decadência medonha que me atrai bem menos; mas o Dick Diver da primeira parte é o que há, e tenho pena de quem se deixa influenciar pelos personagens bocós de Kerouac ou Bukowski. Os personagens de filmes e livros que mais o inspiram ao longo da vida não são aqueles que são perfeitos (como a Melanie de E o Vento Levou, toda bonzinhice e sem-gracice), porque a dificuldade de descrever a perfeição da alma é tamanha que esses personagens costumam sair insossos na página. Ninguém quer ser como eles, ninguém nem sequer se lembra deles, e daí vem o fracasso de toda literatura e filme com um propósito moral explícito. Se você quer que o personagem influencie alguém, ele precisa ter força, e nesse caso a sua virtude tem que vir com alguma coisa da força usual mente associada ao pecado.

Este é o momento de fazer a defesa daqueles que são comumente chamados de vilões. Todos os grandes vilões do cinema e dos livros, se você ignorar o lado um tanto desagradável que eles infelizmente têm, exibem alguma grande virtude, de modo mais concentrado e glorioso do que os heróis. É por isso que apresento como modelos de conduta três personagens injustiçados, tolamente chamados de vilões por um público de pouco discernimento.

3 vilões para guiar sua vida