Abaixo as paredes: a tendência do open desk

As empresas atuais prometem mais flexibilidade e benefícios. Mas nem todas as medidas são realmente funcionais para todos os ambientes

Ano passado, Marcelo Orticelli, diretor da área de pessoas do Itaú Unibanco, foi a trabalho ao Vale do Silício, na Califórnia. Sua missão era visitar os escritórios de empresas como Facebook e Google e trazer para cá as boas práticas. O espaço aberto, sem pessoas trabalhando trancadas em salas fechadas, sem divisórias, agregado ao ambiente descolado, com pintura na parede, e acesso à comida nos diferentes polos, entre outras ações, atraíram seus olhares. Algumas áreas do Itaú já adotaram o modelo.

A Melicidade, nome pelo qual é chamado o escritório recém-inaugurado do Mercado Livre em Osasco, São Paulo, segue essa tendência: a área construída de 33 mil metros quadrados foi inspirada em sedes de empresas de tecnologia da região. O Mercado Livre pretende, com o novo campus, repleto de amplos espaços de trabalho compartilhados, estimular a troca de experiência, a inovação e uma comunicação mais rápida entre todos. Lá, há academia gratuita para os funcionários, quadra poliesportiva, salão de beleza e jardim para descanso. “Incentivamos a criatividade e propomos o bem-estar aos funcionários”, diz a gerente sênior de RH Helen Menezes. Segundo ela, administrar o tempo diante das possibilidades de “diversão” faz parte da rotina dos funcionários: todos trabalham com metas.

Para Ana Pliopas, coach-executiva e sócia do Hudson Institute of Coaching no Brasil, o ato de derrubar paredes é uma provocação para uma mudança de mentalidade da empresa e de seus funcionários. “Não adianta uma organização adotar o open space e os chefes se reunirem em outro lugar”, explica.

Derrubar as paredes é uma provocação para a mudança de mentalidade de uma empresa e de seus funcionários

Ana Pliopas, sócia do Hudson Institute of Coaching no país

Desde o ano passado, a TIM está de casa nova no Rio de Janeiro. A empresa concluiu a mudança de sua sede para o edifício corporativo CEO Office, na Barra da Tijuca. Além da mudança de endereço, a companhia passa a adotar uma nova cultura de trabalho e de integração baseada nos conceitos de trabalho remoto e de home office, duas tendências em alta que, com alguns ajustes, prometem virar hábito.

“A necessidade de flexibilização dos funcionários nos fez repensar o espaço e estruturar nosso próprio programa de flex office, oferecendo mais qualidade de vida e condições para a inovação e entrega de resultados”, afirma Flávio Morelli, diretor de people value da empresa de telefonia. O programa de flex office da TIM prevê que o colaborador trabalhe de qualquer local, estabelecendo um horário flexível, até dois dias por semana. Segundo a empresa, cerca de 40% dos participantes registraram melhoria na entrega de resultados e 93% apontaram uma maior percepção de qualidade de vida e bem-estar. “É preciso avaliar números e pensar nas consequências. Os funcionários precisam ter disciplina e entregas definidas para dar certo”, diz Ana Pliopas.

Para ela, empresas que dão muita liberdade devem ter processo educativo e gestão fortes. As poucas paredes que sobraram podem ser coloridas, mas a cabeça das pessoas, principalmente a dos chefes, precisa acompanhar a tendência. O open space e a modernização do ambiente de trabalho são a atitude e um primeiro passo para buscar aproximação. Devem ser um meio, e não um fim.

Algumas tendências
Posições flexíveis
O funcionário escolhe o local de trabalho de acordo com as atividades e necessidade de interação daquele dia, facilitando as discussões. Já adotada pela TIM, por exemplo.
Trabalhar em pé
No Buscapé, a stand-up desk já é usada. Trabalhar de pé, alguns minutos do dia, faz bem para a coluna, mantém o funcionário acordado e ainda ajuda na criatividade.
Reunião em pé
Funcionários da Uber Brasil são chamados para algumas stand-up meetings, reuniões curtas de até 15 minutos, com foco na produtividade.
Benefícios personalizados
“Algumas empresas encaram os benefícios flexíveis como um plano de milhagens. Os colaboradores podem ganhar pontos e trocar por vantagens, como home office, viagens, day off, upgrade no plano de saúde”, explica Alexandre Slivnik, especialista em gestão de pessoas. A HP Brasil, por exemplo, foi uma das primeiras empresas a adotar a prática, oferecendo um “menu” extra de benefícios aos seus funcionários.