Abominável montanha das neves

Nossa editora foi até o MontE Rainier, terceira maior montanha dos EUA, para descobrir por que todo mundo tem de subir uma pelo menos uma vez na vida

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Para onde você olha, só vê neve. É frio para diabo e o vento gelado é constante. Tem uns 18 quilos de peso nas suas costas. Você não pode ficar sem óculos de sol porque há o perigo de queimar sua retina. Existe em cada passo uma chance muito, mas muito grande mesmo de levar um baita escorregão – que você vai querer evitar ao máximo depois do primeiro, porque o esforço para se levantar é tremendo. Depois de algumas horas andando, tudo dói: dos ombros ao dedão do pé, espremido naquelas botas desconfortáveis e rígidas de plástico. E mesmo assim, acredite, fazer um hiking em uma montanha coberta de neve é uma das experiências mais incríveis que alguém que gosta de esporte pode ter.
Já vou ser sincera logo de cara: eu não cheguei ao cume do Monte Rainier, a terceira maior montanha dos Estados Unidos, aonde fui no fim de junho para um trekking de três dias e meio. Os guias me fizeram descer com menos de três horas de caminhada, na metade do caminho para o campo base, logo no primeiro dia de subida. Tive sintomas que poderiam evoluir para hipotermia e desidratação: comecei a suar muito, ao mesmo tempo que minhas extremidades e meu rosto congelavam. Uma coisa meio bizarra. O resto do grupo também não chegou, mas por causa do mau tempo. Havia muita tempestade e o frio era intenso. Enquanto eu curtia minha frustração, todos me consolavam dizendo que isso é comum. Apenas 50% das 10 mil pessoas que tentam alcançar o topo do Rainier todos os anos conseguem, seja por causa das condições climáticas, seja por esgotamento físico, problemas com altitude e frio ou acidentes. “O que importa de verdade não é nem chegar lá em cima”, diz George Dunn, guia com 507 subidas ao Rainier no currículo. “É, sim, a diversão do caminho.”
O Rainier tem 4 392 metros de altura, temperaturas de até 30 graus negativos e 25 grandes glaciares. É um vulcão ativo, embora sua última erupção tenha sido em 1894. Mas está vivo: os glaciares se movem constantemente e abrem fendas profundas, forçando os aventureiros a mudarem a rota até o cume. A massa de terra e neve gera seu próprio ecossistema, mata pessoas todos os anos e tem escondidos sob o manto branco alguns helicópteros e até um avião, que bateu em seu topo na década de 1940 e de lá nunca foi resgatado. Não é de se espantar, portanto, que haja na montanha áreas com nomes como Fenda do Cadáver.
São pelo menos seis as rotas principais e há programas de no mínimo dois dias para chegar até o topo. O meu de três dias e meio foi organizado pela International Mountain Guides, uma das três autorizadas pelo governo americano para explorar a montanha. A última parada antes de encarar o Rainier é o charmoso Hotel Paradise Inn, construído em madeira em 1916 a 1 645 metros de altitude. Lá, sem conexão com a internet e sem serviço de celular, você já vai entrando no clima. No primeiro dia, fiz todo o treinamento de segurança. Foram cinco horas montanha adentro e acima, aprendendo como se anda na neve (sim, é muito diferente, você tem que levantar o joelho mais do que o normal e dar um chute no chão, para que o gelo da superfície desprenda e você firme seu pé), como se usa a machadinha, as técnicas mais eficientes para subir paredes íngremes, de que forma instalar seus crampons (aqueles grampos de ferro debaixo das botas) e o que fazer quando se leva um tombo e escorrega-se montanha abaixo.
Nos próximos dias, o roteiro é caminhar na neve por seis a oito horas, passar por vários glaciares, subir inúmeras encostas íngremes ou muito íngremes e finalmente parar para dormir uma noite no acampamento base e a segunda noite em tendas. De hora em hora, pausa para beber água e comer algum lanchinho. Cada um leva seu próprio equipamento, saco de dormir e comida. Os guias carregam o jantar, um pouco mais substancioso. O IMG forma grupos com no mínimo um guia para cada duas pessoas. No meu grupo, George Dunn era o chefe.
Em uma montanha, você é tudo o que você tem. E só pode contar com isso. Se não aguentar levar sua mochila nas costas, ninguém o fará por você. Caso escorregue e desça ladeira de gelo abaixo, se não usar direito sua machadinha, certamente o negócio vai ficar feio para o seu lado. Ao mesmo tempo, você é sua equipe. Nos momentos mais difíceis do trajeto, todos caminham atados a cordas, porque a chance de acontecer um acidente é bem menor. E, apesar de a caminhada ser feita na maior parte em absoluto silêncio e contemplação, você sente que não está sozinho – o que, convenhamos, seria um tanto aterrorizador.
“A montanha me ensinou muita coisa”, diz o empresário Skip Yowell, fundador da marca JanSport, que mora em Seattle e já subiu o Rainier 48 vezes (21 cumes). “Aprendi sobre trabalho em equipe, paciência, paixão e como aperfeiçoar nossas habilidades. Aprendi a ter amor pela natureza e a respeitar nossas terras nativas e as outras pessoas.” Para Skip, o medo é normal ao fazer um hiking – e até desejável. É ele que evita que você cometa abusos e tenha mais chances de errar. “A montanha nos ensina que às vezes as coisas mais simples da vida são as melhores.”
A médica e montanhista Karina Oliani, 31 anos, apresentadora do programa Do Jeito Delas no canal Off, tornou-se em maio a mais jovem brasileira a chegar ao topo do Everest, no Himalaia, a maior montanha do mundo, com 8 848 metros de altura. Foi o maior desafio de sua carreira como montanhista e de seu projeto de chegar aos sete maiores cumes do mundo – até agora, já foram quatro: além do Everest, Aconcágua (6 962 metros, nos Andes argentinos), Kilimanjaro (5 895 metros, na Tanzânia) e Elbrus (5 642 metros, na Rússia). Restam Carstensz (4 884 metros, na Nova Guiné), Denali (6 194 metros, no Alasca) e Vinson (4 892 metros, na Antártida). Esta última, Karina quer conquistar em uma expedição já marcada para dezembro.
Claro que o que Karina faz é muito diferente de um simples hiking. Ela é profissional, tem conhecimento dos equipamentos técnicos e de escalada. Mas a quietude, a desconexão do mundo, as paisagens incríveis pelo caminho, tudo isso é comum em ambos os casos. Karina conta que, para ela, ir para a montanha é melhor que meditar. “Você se conecta com você mesmo e com a natureza. Tudo com que se preocupa é a sua sobrevivência. Você tem que dormir bem, comer bem, tentar não congelar e manter-se o mais limpo possível – sabendo, é claro, que banho vai ser uma vez por semana ou menos”, diz. “A montanha nos mostra que precisamos de muito pouco para viver e nos lembra que com esse muito pouco podemos ser felizes. Ela também nos ensina como somos pequenos diante da natureza. Para termos sucesso na montanha, é preciso paciência para esperar pelo momento certo e humildade para reconhecer sua fraqueza e saber a hora de prosseguir e a de esperar.”
Rainier, nos vemos de novo em breve.

Bons programas

Escolha aqui seu hiking. Tem opções nas Américas, na Europa e até no Nepal

abominavel montanha das neves - info

Mont Blanc
A travessia passa por França, Itália e Suíça e acontece por terreno alpino sem dificuldades técnicas, mas você deve ter experiência em trekkings, porque são cerca de seis horas de pernada por dia. O pacote tem 12 dias e custa ¤ 1 930 (sem parte aérea).
pisa.tur.br

Campo base do Aconcágua
Fica a 4 300 metros de altitude e é uma ótima opção para quem não quer chegar ao topo ou quer se preparar para fazer isso no futuro. Roteiros de oito dias com pensão completa custam a partir de US$ 2 490 (não inclui passagem aérea).
pisa.tur.br

Monte Rainier
A temporada na montanha vai de maio a setembro, mas a International Mountain Guides só tem vaga a partir do ano que vem. Os pacotes saem a partir de US$ 1 300 (sem passagem aérea) e duram pelo menos três dias.
mountainguides.com

Campo base do Everest
O trekking dura 16 dias e leva você a 5 486 metros de altitude. A trilha é incrível e passa por florestas, rios e vilarejos. Pacotes a partir de US$ 2 766 por pessoa (preço para pelo menos duas pessoas, sem passagem do Brasil).
raidho.com.br

Aconcágua
Dá para chegar ao cume da maior montanha do mundo fora do Himalaia. O roteiro da Pisa Tur dura 20 dias e 19 noites e inclui pensão completa durante o hiking. Ele sai por pelo menos US$ 3 400, e a próxima saída está marcada para 16 de dezembro.
pisa.tur.br

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Aprenda com meus erros

Quer se aventurar em uma montanha de neve? Não faça como eu fiz

1. Prepare-se. Mesmo
A melhor preparação é subir escadas. A meta é subir entre 40 e 50 lances por dia, com uma mochila com pelo menos 10 quilos nas costas. Minha preparação foi repleta de zicas. Tive desgaste na cartilagem dos dois joelhos, inflamação na sola dos pés e, a uma semana da empreitada, um estiramento na panturrilha. Cheguei lá morrendo de dor. E dando mancada.

2. Saiba a hora de parar
Dois dias antes de viajar, uma virose me deixou 30 horas com vômito e diarreia. No dia do voo, uma das manifestações que pararam o país fechou o aeroporto. Cheguei em Ashford com quase 12 horas de atraso, sem dormir nem comer. E insisti em subir. A teimosia podia ter custado algo sério.

3. Aprenda sobre a montanha
Eu só fui ler sobre o Monte Rainier em minha angustiante espera nos aeroportos. As demais sete pessoas do meu grupo haviam lido livros, visto documentários, conversado com montanhistas, preparado-se. Tinham criado uma intimidade com a montanha que eu não criei.

4. Aclimatize-se
O ideal é você chegar pelo menos cinco dias antes na cidade para se acostumar com o clima do local. Algumas pessoas (eu!) sentem muito mais frio que outras por causa de fatores como gordura corporal (gordinhos sofrem menos) e a taxa metabólica (quem tem metabolismo acelerado suporta mais).

5. Trabalhe a cabeça
Escolha uma boa agência e confie nos sujeitos que vão estar com você. Eles não vão colocá-lo em risco. No dia de minha expedição, estava a maior tempestade, e as temperaturas, perto de zero grau. Enquanto o resto do grupo queria ir logo, empolgado, eu só pensava que ia congelar. O resultado? Quase consegui isso.

Equipe-se

Nem pense em pisar na neve sem equipamento e roupa adequados. Geralmente as agências alugam as roupas mais pesadas. Mas as mais leves são por sua conta

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Mochila cargueira Crestone 75,
R$ 1 047, da The North Face, tel.: (11) 2166-8876

 

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Luva com tecnologia Gore-tex,
R$ 377, da The North Face, tel.: (11) 2166-8876

 

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Mochila JanSport Air Penny
,
R$ 199, da JanSport, tel.: (11) 2166-8874

 

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Calça A29Q
,
R$ 1 270, da The North Face, tel.: (11) 2166-8876

 

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Calça Termoskin
,
R$ 120, da Curtlo na Bivak, tel.: (11) 2308-6995

 

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Camisa fleece AOHK
,
R$ 397, da The North Face, tel.: (11) 2166-8876

 

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Camiseta Thermosense,
R$ 150, da Curtlo na Bivak, tel.: (11) 2308-6995

 

3 perguntas para Karina Oliani

A apresentadora do canal Off é a mais jovem brasileira a chegar ao topo do Everest

Como nasceu sua paixão por montanhas?abominavel montanha das neves - karina Eu já praticava sem saber como o esporte se chamava. Minha mãe diz que eu subia as escadas pelo lado de dentro dos corrimões e falava que estava “escalando o Everest”. A paixão cresceu quando vi que na atividade você não compete contra outros atletas, e sim com você mesmo.

Qual o maior perrengue pelo qual você passou?
Difícil dizer o maior. Já vi uma avalanche enorme passando a poucos metros de mim e me cobrindo de poeira, já voei dentro de uma barraca de banho e fui arremessada mais de 25 metros por um dust devil [redemoinho], já acordei sufocada com a minha barraca que tinha quebrado em cima de mim pelos ventos de 100 km/h a 7 mil metros, já tive meu olho esquerdo congelado, com o perigo de ficar cega… Perrengue não falta.

E qual a maior emoção?
Ah, elas também vêm na mesma intensidade. E são coisas que não conseguimos fazendo algo fácil. Tem sentimentos que só quem se arrisca vai poder experimentar.