Ashley Madison: todo carnaval tem seu fim?

Um mês após os vazamentos de dados dos usuários, o maior site de adultério do planeta luta para se manter vivo

O temor já rondava os usuários mais antenados do Ashley Madison desde meados de julho, mas era impossível saber na manhã daquela terça-feira que aquele seria o dia fatídico. Naquele 18 de agosto, o grupo de hackers intitulado de “The Impact Group” honrou o próprio nome: 32 milhões de e-mails e senhas de usuários do site Ashley Madison foram publicados na Internet. Dois dias depois, nova publicação de dados secretos.

Um mês após a divulgação do material roubado, é seguro afirmar que o vazamento dos dados foi o maior golpe que o serviço poderia ter sofrido. A gênese do site está fundamentada na questão do segredo. Afinal, o grande pecado capital de um site que pretende reunir adúlteros é ser infiel com a privacidade de seu público.

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A publicação dos dados não foi surpresa para quem lê as editorias de tecnologia. O “The Impact Group” havia declarado ter roubado os dados do Ashley Madison em 15 de julho. Na semana seguinte, os representantes do site publicaram na imprensa um comunicado garantindo a privacidade de seus usuários.

“Neste ponto, asseguramos que as portas abertas sem autorização foram fechadas. Estamos trabalhando junto as agências de aplicação da lei para esclarecer esse ato criminoso”, dizia o comunicado

Segundo o coletivo, que se considera um grupo de hackativistas – ou ativistas digitais –, a motivação do roubo e vazamento dos dados seria a falta de lisura da empresa Avid Life Media, que controla o serviço. De acordo com os hackers, a empresa prometia (e não cumpria) apagar completamente as informações de usuários que pagassem o valor acordado para cancelamento da conta. Ainda segundo o coletivo, a Avid Life Media recebia, em média, US$ 1,7 mi por ano com esse procedimento. O vazamento provou que, de fato, eles estavam corretos.

Juntos, os dois vazamentos colocaram na web 25 gigabytes de dados da empresa. Mas a coisa poderia ter sido pior. O “The Impact Group” garante ter roubado mais de 60 gigabytes de dados secretos do Ashley Madison. Além de emails e nomes de usuários, os hackers também expuseram alguns segredos do serviço.

O menos nocivo destes detalhes são as senhas mais utilizadas pelos usuários. O pódio das senhas é composto pela — tão criativa quanto segura — tríade: “123456”, “12345” e “password” (quase 10 mil usuários optaram por utilizar a engraçadinha “696969”). A lista completa de senhas pode ser vista aqui. Mais grave foi a revelação de que a Avid Life Media fazia uso de (muitos) robôs para enganar seus usuários. De acordo com artigo publicado pelo Gizmodo, site especializado em tecnologia, o Ashley Madison estava infestado com os chamados bots, códigos que geravam mensagens automáticas. Eram mais de 70 mil perfis falsos de mulheres, interagindo “normalmente” com os homens.

Tragédias
A derrapada também teve consequências desastrosas. Uma debandada de pessoas cancelou o serviço e diversas histórias privadas foram parar no espaço público, gerando constrangimento, divórcios e até mortes. Assim que os hackers publicaram os dados, uma onda de extorsão em diversas partes do planeta foi relatada. Dentre os emails vazados ao público, cerca de 1200 endereços estavam hospedados no servidor .sa, o servidor da Arábia Saudita.

O drama? Adultério, no país, é passível de pena de morte

No ocidente, as consequências não foram menos pesadas. O apresentador americano Josh Duggar, ativista defensor dos valores da “família tradicional”, foi pego pelos hackers e admitiu ser usuário do serviço. Reputação devastada. Para o pastor John Gibson, os efeitos foram definitivos: de acordo com a CNN, o americano cometeu suicídio depois que seu nome foi envolvido no escândalo (ele teria, inclusive, deixado um bilhete pedindo perdão à sua esposa). No Canadá, outros dois casos de suicídio estão sendo investigado, e a principal suspeita é de que estejam relacionados ao vazamento de dados do Ashley Madison.

“Não existe família sem adúltera”
A frase é do novelista brasileiro Nelson Rodrigues, um dos melhores olhares quando o assunto era o diagnóstico da família tupiniquim. Os dizeres de Nelson parecem fazer sentido, ao menos em terra brasilis. De acordo com o Ashley Madison, São Paulo é a cidade com mais usuários inscritos no site. São 374,5 mil paulistanos que buscam no serviço um pezinho para a pulada de cerca. Outras duas cidades brasileiras estão no top 25 do Ashley Madison: Rio de Janeiro e Brasília.

“Eu penso que se eu conhecesse o site antes, não teria me divorciado”, afirma Paula Gonçalves*, de 38 anos. Ela entrou no Ashley Madison depois que seu casamento acabou, buscando novos parceiros sexuais. Em dois anos, se envolveu sexualmente com outros quinze parceiros. “Com o primeiro, fiquei dois meses conversando antes. Trocamos skype, telefone. Quando nos encontramos, ele me contou que só queria sexo. Fiquei decepcionada, mas entendi que o propósito do site é esse. Aí adorei”, diz.

Pedro Fernandes*, de 37 anos, concorda. Casado desde 2010, fez sua inscrição no site em 2012 com um propósito claro: transar com outras mulheres — coisa que não tinha feito até então. “Nunca traí minha mulher antes de entrar no Ashley Madison. Lá, eu sei que as mulheres com quem transo também são casadas e também tem os seus segredos. É nessa segurança que me apoio”, explica. De acordo com Pedro*, o motivo de entrar no serviço foi a monotonia na qual o seu casamento caiu. “Não queria contratar uma profissional”, afirma. Para Tiago Galvão*, 27 anos, o motivo foi outro. Recém-casado, ele aderiu ao serviço antes de assinar papel. “Já namorava, mas casei depois de fazer cadastro no site”, diz.

Para Tiago*, o que vale é sexo: com casadas ou não. “Me inscrevi porque curto essa ideia de marcar um encontro pela internet e transar. Sem mais. Sou meio tarado”, afirma.

O início da história dos três no Ashley Madison pode ser diferente, mas o modus operandi é muito semelhante. “Geralmente, entro em contato com a pessoa com quem estou interessado pelo site, pego o contato e marcamos um lugar para o encontro”, diz Pedro*. “É bem prático, na verdade”, conta Tiago*. “Meu primeiro encontro foi muito rápido. Mensagem no site, whatsapp. Nos encontramos em um shopping. De lá, direto para o motel. E nunca mais nos vimos”, completa. Paula*, em nome da discrição, só conversa com homens de fora da cidade onde mora. “Espero eles virem até mim”, relata. Mesmo com tanto cuidado, Paula* já acabou se encontrando com um conhecido. “Fui descobrir depois que ele era amigo do meu chefe. Implorei para que ele não contasse nada, porque estou em um relacionamento”, conta.

Paula* foi uma das afetadas pelo ataque dos hackers. “Assim que os emails foram publicados, fui procurar saber. O meu estava lá. Fiquei apreensiva, mas não aconteceu nada além disso”, diz. Tiago* e Pedro* nem foram atrás. “Poucas pessoas do meu círculo sequer sabem da existência desse site, então não tenho o que temer”, afirma Pedro*. Tiago* usa outra tática: “Obviamente uso um e-mail falso no site”.

Mas o que reserva para o futuro do site? A expectativa era de que o serviço estivesse com os dias contados. Afinal, a única exigência de um site de adúlteros é que seus segredos sejam mantidos. No entanto, a tendência não se confirmou — ao menos de acordo com o Ashley Madison. Em comunicado à imprensa duas semanas após os vazamentos, o site afirmou que “centenas de milhares de novos usuários aderiram ao serviço, incluindo 87596 mulheres”. Paula, Tiago e Pedro* também não pretendem abandonar o Ashley Madison. “Tudo o que sei sobre sexo, aprendi através do site. Não pretendo sair”, afirma Paula*. Tiago* vai além: “Não saio. Inclusive, espero que quando eu morrer, exista esse tipo de serviço em outro plano!”, diverte-se. Quem trai, perdoa traição.


*Os nomes verdadeiros foram omitidos a pedido dos entrevistados.