Azul é cor de menino

Se minha filha carrega noções de que há só dois gêneros, qualquer desvio será visto como anormal

Começa antes de o humano nascer: faça um chá de bebê e você perceberá que grande parte dos presentes recebidos pelo futuro rebento já estará marcando seu gênero pela cor. Se ela, cor-de-rosa; se ele, azul. Isso segue ao longo da primeira infância e, por mais que você se esforce em não marcar o gênero do bebê de maneira tão imediata, acontecerá, quer você queira ou não, por pressão vinda de fora da sua família.

Acredite, eu como pai de uma incrível menina de 4 anos me esforço para diluir essas fronteiras de gênero por uma razão bastante simples: se minha filha carrega dentro de si as noções de que existem apenas dois gêneros, qualquer tipo de desvio da norma será visto por ela como anormal e, portanto, com grandes possibilidades de ser rechaçado. Logo, em minha casa ensinamos que existem meninos, meninas e “menines”, gênero que fica entre um e outro polo. “Menines” podem ser uma menina com corpo de menino, um menino com corpo de menina ou o que a criatividade de Pina mandar. Ao lhe dizer que há mais possibilidades, se minha filha não se identificar com os arquétipos de um ou outro mais adiante não sofrerá – ou, quando encontrar “menines” em seu caminho, não fará sofrer.

O gênero, obviamente, é fruto de uma construção de fora para dentro e, mais tarde na infância, de dentro para fora. Vá a uma festa à fantasia de crianças entre 3 e 10 anos e você verá meninas vestidas de princesas e meninos vestidos de super-heróis. Elas reproduzem personagens de contos de fada que sempre querem casar, que esperam um príncipe para as salvarem (apesar de recentemente vermos honrosas exceções, como a Elsa de Frozen ou a Merida de Valente) e que pouco protagonismo têm após encontrarem o príncipe redentor. Já os meninos estão fantasiados como meta-humanos, seres superpotentes que transcendem as limitações da nossa carne frágil.

Mais tarde, esse constructo cobrará seu preço: os meninos, perto dos 10 anos, serão obrigados a calar qualquer sinal de sensibilidade, correndo o risco, ao expressarem suas emoções, de serem acusados de “menininhas”. “Homem não chora”, “seja homem”. As emoções se dobrarão para dentro e serão revertidas em violência. Meninos cheios de vitalidade serão convertidos em adolescentes infelizes, incapazes de expressar suas emoções. Não à toa começam a usar álcool e a se drogar por volta dos 12 anos: bêbados, podem abraçar os amigos e demonstrar emoções. Os homens reduzem uma das mais básicas necessidades, a de expressão, algo relacionado ao feminino, e assim a construção do gênero masculino se faz em oposição ao feminino. Suponho que aí esteja a origem de um machismo que trata as mulheres de maneira tão aviltante. Se ensinarmos nossos meninos a chorar e dizermos “isso é coisa de menina” em tom elogioso, aposto que estaremos no caminho de criar uma sociedade mais justa e menos infeliz.

Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano, é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia