Belas da tarde

Carol, a nossa repórter-delícia, se infiltra no templo das garotas de programa de luxo e dá para a gente uma visão feminina da coisa

Deixo meu carro com o manobrista. Nada ali remete a algo sexual ou impróprio. Os caras da recepção, que se dividem em três balcões extremamente sofisticados na porta, me recebem sorridentes e bem-vestidos. Pago os R$ 150 exigidos para a entrada tanto de mulheres quanto de homens e subo o elevador-dourado-estilo-hotel-chique cheia de curiosidades com o Epcot Center das garotas de programa de luxo. Todos falam várias línguas, não questionam minha presença e são absurdamente cordiais. Estou no Café Photo, em São Paulo.

No salão, não vejo meninas em pole dance fazendo strip nem roupas caricatamente curtas e decotadas. A música está alta, mas a pista ainda não está cheia. Mulheres se espalham em frente ao balcão, claramente disponíveis, mas sem apelação. Alguns homens abordam, outros observam e bebem. Tudo com um respeito excessivo para a putaria que eu esperava ver. Viro uma dose de uísque no balcão e puxo assunto com o maître, que, educadíssimo, vestindo um smoking, me conta que já trabalhou no Buddha Bar e na Daslu. Entro no megassofisticado banheiro. Uma senhora (que provavelmente devia ser a responsável pela limpeza e pelas vendas das balas ali expostas) está sentada, tranquila, fazendo crochê. Cena que destoa completamente do local. Mas a tiazinha parece bem mais integrada que eu, que, toda montada, tentava passar por uma das meninas.

Entro na cabine e ouço uma garota se abrir com a tia do crochê: “Vou ter que ficar pelo menos uma hora aqui escondida, acabei de ver um colega de faculdade!”. Ela estuda jornalismo numa reconhecida universidade e diz que em três anos de trabalho isso nunca havia acontecido.

O que mais tem ali são universitárias. Todas lindas e sem nenhum sinal de vergonha e arrependimento por estarem fazendo o que fazem. Ninguém se coloca como vítima, todas têm uma meta financeira muito bem definida e falam sobre ela com uma frieza impressionante. E afirmam em uníssono: só se prostituem por dinheiro, nada além disso.

Uma delas, Livia, 23 anos, estuda engenharia civil na USP. A cara que ela tem é exatamente essa: a colega de faculdade que você nunca imaginaria ser uma garota de programa. Magrinha, sem grandes decotes, cabelos longos e ondulados, rosto bonito e tão delicado que chega a parecer ingênuo. Me contou que vai ali só para arranjar um homem rico que sustente a vida que ela quer levar: “Já consegui dois que me ajudam financeiramente e estão sempre viajando. Os dois eu conheci aqui. Estou tentando arrumar um terceiro, daí eu posso parar”.

carol

Vou para a área de fumantes, ótimo lugar para conversar. Encontro uma menina linda, alta e devidamente siliconada que se apresenta como Emily. Me conta, entre um cigarro e outro, que “na vida real” não gosta de homem, gosta só de mulher. Mas nos programas faz tudo que os caras querem. “Chamo de gostoso, finjo que gozo. Atriz da Globo, sabe? Tipo ‘The Oscar goes to… Emily’ [risos]”. Diz que já teve namoradas e todas tiveram que entender que ela faz aquilo só por dinheiro. Trabalha há seis anos e colocou o prazo de mais dois para poder abrir seu próprio negócio. Pergunto se ela acha mais fácil quando uma mulher solicita um programa. “É melhor, mas não é mais fácil, não. Mulher não é fácil de satisfazer.”

Nenhum programa é feito lá, geralmente rola em hotéis de luxo nos quais os caras estão hospedados. Elas não fazem nada antes de receber o dinheiro (“é dinheiro na mão, calcinha no chão”, uma delas falou, “senão não rola”), que varia de acordo com o programa, que nunca sai por menos de R$ 500. Se o cara é gringo, elas cobram mais que o dobro disso, obviamente. Me dizem que ninguém as desrespeita. E eu realmente vejo isso no pudor que enxergo no trato dos homens em relação a essas mulheres. Chega a parecer uma profissão diferente daquelas que trabalham em puteiros da Rua Augusta, por exemplo. É outra coisa, é outra relação de poder.

A festa fica mais animada, a pista enche, homens mais bêbados e mais soltos, mulheres mais assediadas. Olho o telão na parede: estranhamente é transmitida uma luta, um vale-tudo. Nada sensual. Volto ao banheiro, que é ponto de encontro e fofocas das meninas, como em qualquer baladinha por aí. A tia do crochê reclama do som. “É sempre a mesma coisa, sempre as mesmas músicas, não entendo por quê.”

Pergunto para ela como uma pessoa tão – a palavra foi inevitável – normal como ela foi parar ali. Ela me responde  meio ríspida: “Por quê? O que tem de tão anormal neste lugar? Isso está na cabeça das pessoas”. Calo a minha boca e volto para o bar.

Uma menina empolgadíssima, há quatro meses na profissão, parece estar realmente se divertindo muito. Joana, cujo corpo lembra o de uma adolescente modelo, me conta que, se bebe, entra direto no clima. “E eu só pego quem escolho aqui”, diz ela. “Ninguém me obriga a nada, só saio com quem tenho afinidade. Mas não tem essa de prazer, é por dinheiro. Mas faço feliz.”

Respiro aliviada que nenhum homem tenta algo comigo, mas quero saber por quê. Elas me explicam: “É porque você está usando bolsa”. Segundo elas, isso mostra, de cara, que eu não sou dali. Nenhuma menina usa bolsa. E são proibidas de usar calça jeans.

E o amor, onde fica nessa história?, pergunto, um pouco preocupada com  a frieza das meninas em relação a tudoisso. E a vida pessoal delas?

“Amor?”, questiona uma loira, como se eu estivesse falando de um conceito muito estranho. “Vocês lá fora não sabem de nada. Aqui a gente se diverte mais e ainda ganha presentes.”

Então tá.

Saí de lá intrigada.

Realmente elas se divertem. E ganham “presentes”. Eles também se divertem. Elas querem dinheiro. Eles querem prazer e ilusão. E todo mundo cumpre seu papel. Um mundo pelo menos logicamente perfeito. A tiazinha fazendo crochê no banheiro tinha toda razão: não tem nada de anormal num lugar como o Café Photo. Isso está na cabeça das pessoas. E muitas vezes o “lá fora” é muito mais louco do que esse universo com tantas regras e papéis tão definidos. Let it be.

FOTOS: JORGE LEPESTEUR // REALIZAÇÃO: ANDREA BUENO // STYLIST: JULIANA HIRSCHMANN // BELEZA: DAVID BORGES // ASSISTENTE DE FOTO: BRUNO DE CARVALHO // AGRADECIMENTOS: NOT NAÏVE (TOP BRANCO E PRETO), DEMILLUS (TANGA PRETA)