Bélgica: história, arte e gastronomia neste ponto de simpatia europeia

Descolada e acolhedora, a região do norte da Bélgica guarda segredos além da cerveja e da batata frita, duas entidades nacionais que merecem até reverência

Bruxelas

 (Visit Flanders/Reprodução)

Entre França e Alemanha, a Bélgica foi um país várias vezes invadido em guerras. Nem por isso, o povo se fechou para além das fronteiras. Pelo contrário, é receptivo e caloroso quase como os latinos.

Ali se fala o francês e o flemish (uma mistura de francês com holandês), e valoriza-se muito a arte e a história local.

A gastronomia é efervescente: a cerveja e a batata-frita são consideradas patrimônios imateriais, e o chocolate é paixão nacional – foi um belga que criou o praliné, em 1912, o famoso bombom de chocolate recheado de nozes.

Na culinária, o país tem 132 restaurantes estrelados no Michelin. Os chefs, muito inventivos, são bastante engajados em valorizar produtos locais. Sem contar monumentos, museus e afins.

Demos um giro por Ghent, Antuérpia e Bruxes, na região de Flandres, norte do país, onde tudo é despreocupado e de cair o queixo.

 

GHENT, a Manhattan da Idade Média

Ghent

 (Visit Flanders/Reprodução)

Embora seja hoje uma cidade universitária, a portuária Gante (em bom português) já foi a segunda maior cidade europeia – atrás só de Paris.

A apenas 30 minutos de trem partindo de Bruxelas, entre canais espelhados e bicicletas jogadas no chão, os quase 250 mil habitantes respiram arte e fazem de tudo para que aquele lugar não seja pacato.

Comece o tour pelo o centro histórico, cheio de comidas de rua. A guloseima mais afamada é uma açucarada bala de goma, chamada de cuberdon, com recheio melado e em formato de nariz. Na praça Groentenmarkt está a loja de mostarda mais famosa, a Tierenteyn-Verlent, de fabricação própria e super picante – sentir o aroma direto do pote é capaz de aliviar uma sinusite.

Bala Goma Ghent

 (Visit Flanders/Reprodução)

Vale comprar uma unidade pequena (1,5 euro) para fazer molhos e temperar carnes. Logo a frente, inclusive, fica o Great Butcher’s Hall, o antigo mercado de carnes do século XV. Ali é o lugar para provar alguns dos quitutes locais, como o presunto Ganda (maturado de 10 a 16 meses), queijos a base de cerveja e os biscoitos speculoos, feitos de especiarias como gengibre e pimenta.

A 500 metros está a Catedral de St. Bavo, local que abriga a obra de arte mais cobiçada da humanidade: A Adoração do Cordeiro Místico, também conhecida como Retábulo de Ghent.

Iniciada por Hubert Van Eyck e concluída pelo irmão Jan Van Eyck (1432), trata-se de 24 painéis em pintura a óleo recém-restaurados, unidos por dobradiças que, quando aberta, mede 3,75 de altura por 5,20 metros de largura.

A Adoração do Cordeiro Místico,

 (www.lukasweb.be/Reprodução)

Disputada em diversas gerações bélicas, de Napoleão a Hitler, a saga completa desse políptico foi tema de um filme estrelado por Geroge Clooney, Caçadores de Obras-Primas – vale assistir antes
da visita.

Quando a fome bater, siga até o OAK Restaurant, na Hoogstrat. Com uma estrela Michelin, o chef brasileiro Marcelo Ballardin prepara quatro tipos de menus de culinária contemporânea (a partir de 39 euros).

À noite, fuja da região central da cidade e vá ao restaurante Volta.. Instalada em uma velha estação elétrica, a casa tem dois andares: no de cima, o bar serve boas releituras de drinques clássicos; embaixo, o chef Andreas Block pratica uma moderna cozinha criativa embasada nos vegetais – orgânicos, da própria horta. Escolha entre o menu clássico ou vegetariano (a partir de 45 euros).

A boemia é no De Dulle Griet, o pub com maior número de rótulos de cervejas na cidade – atualmente são 500, especialmente as trapistas belgas e outros tesouros desconhecidos.

Quem pedir uma Kwak deve cumprir uma exigência: colocar os sapatos dentro de um balde, que é içado até o teto.

Este é o cheque caução para o copo de meio metro de altura, recipiente que é servido os 1200 ml de cerveja e muitas vezes afanado pelos bebedores.

Se tiver disposição, siga para a praça Korenmarkt, entre o rio Lys e a catedral Saint Nicholas. A área é apinhada de bares e, em julho, acontece ali o Gentse Feesten, um festival cultural que atrai mais de 2 milhões de turistas.

O alto da ponte Saint Michaels é o lugar certo para desacelerar e admirar outros pontos da cidade: o Gravensteen, o Castelo dos Condes; o Old Fish Market; e alguns prédios históricos, como o 1898 The Post, antiga sede dos correios que hoje abriga um luxuoso hotel.

 


 

ANTUÉRPIA, a megalomaníaca de vanguarda

Estação Antuérpia

 (Visit Flanders/Reprodução)

O melhor jeito de chegar é de trem pela majestosa Centraal Station, inaugurada em 1905, que lembra muito o Museu D’Orsay de Paris.

Em 2014, foi eleita pelo site americano Mashable como a mais bonita do mundo.

Aliás, é bom ir se acostumando com honras desse tipo quando ouvir sobre a cidade: ali é tudo o
melhor do mundo, o mais fashion do mundo, o maior do mundo…

Aos fundos da estação está o distrito dos diamantes – para se ter uma ideia, 80% das pedras brutas passam por ali, um mercado equivalente a quase 10% do PIB belga.

Vale a visita no Diva Museum, inaugurado em maio e que conta história dos brilhantes, e na Square Mile com joalherias de encher os olhos e esvaziar os bolsos.

Ainda no quesito fashion, a história da moda e a da cidade se fundem desde o século XV e hoje se faz fama com o The Antwerp Six: um grupo de seis estilistas de vanguarda que saíram da Royal Academy of Fine Arts, uma das escolas de belas-artes mais (oh lá o superlativo de novo)
importantes da Europa.

A instituição também deu base para tantas grifes descoladas distribuídas pela rua Huidevettersstraat, entre as ruas Wapper e Nationalestraat, onde fica o museu da moda, o MoMu.

A duas quadras está a rua Meir, que, além das compras, também é famosa pela The Chocolate Line, boutique do doce instalado em um antigo palácio de Napoleão, e pelo Coffe Go, que serve o melhor waffle da cidade (2 euros, servido sem calda, por indicação dos donos, para sentir melhor o sabor da massa).

O centro histórico pede umas duas tardes de andanças para se perder e se achar entre as vielas labirínticas.

Nesses miolos, de repente, se avista a Catedral de Nossa Senhora, de estilo gótico-romano e uma torre de 123 metros de altura.

Catedral Antuérpia

 (Visit Flanders/Reprodução)

Lá abriga importantes obras de Peter Paul Rubens (1577 – 1640), pintor flamengo de estilo barroco que é ídolo em Flandres.

Além do sagrado, Rubens também está em forma de estátua na profana Groenplaats, uma praça de restaurantes e bares.

Se não ali, há também boas opções de comes e bebes na Grote Markt, praça que igualmente divide espaço com a Stadhuis, ou melhor, a prefeitura.

Grote Markt Antwerp

 (Visit Flanders/Reprodução)

Em frente dela está a escultura de Sílvio Brabo. Reza a lenda que o mítico soldado-romano duelou e venceu o gigante do Rio Escalada, que cortava a mão daqueles que se recusavam a pagar
o “pedágio” para navegar naquelas águas.

Brabo matou e decepou a mão do algoz: daí o símbolo para as antwerpse handjes, as bolachas em formato de mãozinhas que são onipresentes nas confeitarias da cidade.

Na terra da cerveja, não deixe de visitar a cervejaria De Koninck, que tem um tour interativo sobre a fabricação da bebida, a relação da cidade com a bebida e o que está por trás do bolleke, o copo que tem a assinatura da De Koninck.

Ao final, o passeio (12 euros) dá direito a duas cervejas no bar da cervejaria, que ainda tem alguns queijos para acompanhar.

No mesmo prédio está o Black Smoke, restaurante que mistura tradições americanas de churrasco com as influências belgas para o assado de carnes.

Dá para pedir um apanhado das especialidades da casa assadas a fogo lento, como brisket e pulled pork (29,50 euros por pessoa), com acompanhamentos e, claro, cerveja.

A noite termina com jazz na Hoogstraat, rock na Stadswaag e eletrônico nas imediações
da Centraal Station.


 

BRUXELAS, a joia da coroa

Bruxelas

 (Visit Flanders/Reprodução)

Assim como as outras cidades, a capital do país é facilmente desbravada a pé, sem contar com a grande malha de trem e metro, que é interligada com a de ônibus e até bonde.

A partir do Hotel Amigo (diária a partir de 1400 euros, roccofortehotels.com), um cinco estrelas localizado na área central, em uma caminhada de três minutos você chega até a Rue l’Etuve, onde turistas se espremem para fotografar o Manneken Pis, a legendária e diminuta estátua de um menino urinando.

Diz a lenda que o herói de 60 centímetros molhou o pavio de uma bomba colocada no prédio da prefeitura.

A tradição local é, a cada semana e em visitas ilustres na cidade, fantasiar o garotinho – existem
mais de 800 trajes, como de Elvis Presley, Mozart e Mandela.

Dali, siga para a Grand Sablon, a praça chocolateira que justifica a fama do país: um belga consome mais de seis quilos de chocolate por ano.

É ali que você encontra as maiores lojas chocolatiers, como Pierre Marcolini e Godiva, e mesmo nos dias de calor vale beber um copo fumegante de chocolate quente.

Na mesma praça, aos fins de semana, acontece o Marché des Antiquaires du Sablon, uma feira de antiguidades com peças muitas vezes exportadas para grandes antiquários de Paris.

Outra feira um tanto maior, mas com qualidade um pouco inferior, é a Marché aux Puces de la Place du Jeu Balle, que funciona todos os dias da semana pela manhã.

Em um bate e volta de metrô até a estação Heysel, visite o Atomium, um monumento futurista de 108 metros.

A construção é um átomo ampliado em 165 bilhões de vezes e foi considerado “o prédio mais bizarro da Europa”, segundo a CNN.

Atomium

 (alexandrelaurent.com / Gaëtan Miclotte/Reprodução)

Lá de cima dá para se ter uma boa vista da cidade e visitar algumas exposições de arte temporárias e permanentes (15 euros a entrada).

De volta ao centro, ao lado do edifício da Bolsa de Valores da Bélgica, fica o restaurane Balls & Glory, uma franquia especializada em meatball (bolota de carne de porco ou frango empanada e recheada, 5 euros cada) com purê de batatas e um molho de carne.

Essa é uma típica refeição belga: saudável e com sustança.

Depois de abastecido, acompanhe o fluxo à direita até chegar à uma enorme praça dourada e cheia de pompa.

Considerada a mais bela do mundo pelo escritor Victor Hugo, foi eleita patrimônio mundial pela UNESCO.

Bombardeada pelos franceses no século 17, manteve-se intacto o grande palacete da Câmara Municipal e outras duas construções.

Grand-Place

Os antigos comerciantes reconstruíram as demais edificações da Renascença flamenga vistas até hoje, como a Casa do Rei.

Em agosto é montado um tapete com 600 mil flores para enfeitar a praça e celebrar a Assunção de Maria.

A cidade é terra de Tintin, o jornalista viajante criado pelo cartunista Hergé, e dos Smurfs, dois clássicos que são temas do Comic Strip Center, um museu só de cartoons.

Mas se esta não é sua arte preferida, Bruxelas também foi berço de René Magritte, um ícone da arte surrealista nacional, que tem não só um mas dois museus para chamar de seu: o Musée Magritte e o La Maison-Musée René Magritte.

Ainda são de lá Audrey Hepburn, do filme Bonequinha de Luxo, e Adolphe Sax, o inventor do saxofone – aliás, o jazz é um som bastante presente pelos bares da região central, como o Le Fleur.

Se o orçamento permitir, faça uma grande refeição La Maison du Cygne, premiado com uma estrela Michelin e identificado com um cisne na porta, que serve frutos do mar e pescados de sotaque francês (menus a partir de 25 euros) e tem uma adega com mais de 20 mil garrafas.

Ali era reduto de Karl Marx que, sem grana para comer, ficava ao lado de Engels fumando charuto, bebendo e jogando conversa fora. O que não é uma má ideia nem nos dias atuais.

 


De beber rezando

Com mais de 1500 cervejas catalogadas – entre ales, geuzes e trapistas –, as cervejarias belgas se tornaram patrimônio da humanidade desde 2016 pela UNESCO.

O rótulo mais consagrado é a Westvleteren, feita por monges na Abadia de Saint Sixtus. O melhor bar para bebê-la? O impronunciável In De Verzekering Tegen De Grote Dorst, na pequena cidade de Lennik (a 20 minutos de Bruxelas), que só abre aos domingos e nos feriados religiosos, após a missa, às 10 horas.

O diminuto espaço recebeu a horaria de ter a carta de cerveja mais completa do mundo pelo site Ratebeer.

 


Amigo invisível

Os arredores de Bruxelas são os melhores lugares para a produção das cervejas geuzes, do tipo lambic, consideradas o champanhe cervejeiro.

Elas são fermentadas naturalmente a céu aberto por meio de bactérias que estão no ar, as Breottanomyces lambicus.

Faça uma visita à cervejaria Cantillon para descobrir todo o processo.

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Patrimônio imaterial

O país tem cerca de 5 mil fritkots, estabelecimentos especializados em batata-frita.

Mais: para vendê-la ao público, o chef de cozinha tem que ser formado em gastronomia, com certificação e tudo.

 


Cozinha inventiva

Para valorizar a culinária nacional, o governo de Flandres criou um time de chefs com até 35 anos, o Kitchen Rebels, que prometem revolucionar a gastronomia na região.