Como a operação Lava-Jato acabou com a ostentação em Brasília

A seca chegou à capital federal: deputados trocam jantares por bares de espetinhos e festas pagas no valor de 3 milhões de reais estão suspensas

 (Ilustração: Denis Freitas/VIP)

Numa tarde movimentada no Shopping Iguatemi de Brasília, uma cena inusitada chamou atenção num banheiro masculino. Um homem transferia mercadorias de uma sacola da Gucci para outra de uma loja bem menos sofisticada.

Dispensou a da marca italiana e foi embora. Pode ter sido por mera praticidade. Ou para esconder um presente e surpreender o destinatário. Quem flagrou o gesto arrisca outro palpite. A pessoa parecia querer despistar as compras que fizera na filial da famosa grife.

Assim concluiu nossa testemunha ao adicionar uma informação relevante: o cliente da Gucci era o número dois de um importante ministério de Estado. O gesto remete a algo que anda ocorrendo nos bastidores do poder na capital do país.

Políticos estão mais escolados no quesito exposição pública. A ordem é mergulhar, segundo o receituário dos gerenciadores de crise. Evitar eventos sociais e restaurantes chiques, adiar o consumo de produtos sofisticados. Suas excelências — e familiares — não costumavam ser muito obedientes a essas orientações. Nem dar muita importância à opinião pública.

Desta vez, há um clima diferente. A Operação Lava-Jato e seus inéditos padrões de combate à corrupção têm provocado mudanças de comportamento. Ser flagrado ostentando pega mal — e levanta suspeitas.

Em tempos de bisbilhotice digital, o menor vacilo pode viralizar nas redes sociais. Esse estilo de vida mais low profile dos políticos na capital federal mexe com a economia local, principalmente numa faixa de mercado conhecida como premium — ou de luxo.

O maior impacto é no setor da gastronomia. Políticos mais reclusos geram menos movimento nos restaurantes, afetados ainda pelo fato de que os escândalos afugentam de Brasília empresários e lobistas.

Deputado pelo PSB de Minas Gerais, Júlio Delgado diz que não há clima para os políticos darem pinta por aí. “Os deputados saíram das ruas”, afirma. “É a Lava-Jato”, afirma Silvio Costa, do PTdoB de Pernambuco. “Os políticos estão mais cuidadosos.”

Em 2003, o restaurante serviu de palco para o encontro entre o então todo-poderoso ministro José Dirceu e Joaquim Barbosa, que selou a ida para o Supremo Tribunal Federal daquele que viria a ser o relator do processo do mensalão.

Foi também ali que o ex-senador Demóstenes Torres, cassado, cantou Let Me Try Again, de Frank Sinatra, acompanhado do piano.

O estabelecimento enfrentava dificuldades havia anos. O criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogado de muitos caciques da política nacional, entrou na sociedade em 2014 para tentar salvá-lo. Mas o restaurante sucumbiu à crise econômica e política.

 (Ilustração: Denis Freitas/VIP)

Renata La Porta Todde, dona de um bufê que leva seu nome e atende eventos “classe A” na cidade, teve os negócios afetados pela crise. Clientes desistiram de festas, outros pediram para adiá-las. “A desculpa foi a turbulência política”, afirma. “Alguns clientes acharam melhor esperar. Tinham entre os convidados gente suspeita, que está sendo investigada pela PF. E vai fazer festa? É muito constrangedor.”

De acordo com a empresária, meia dúzia de eventos, incluindo festas para 1.500 pessoas orçadas em 3 milhões de reais, está quitada, à espera de um momento mais tranquilo. Ela afirma que desde 2015 vem percebendo essa mudança no comportamento do seu cliente premium — algo que atribui não apenas ao momento político mas também à economia.

A empresária não revela nomes, mas se diverte com as histórias. Um cliente acostumado a fazer festas orçadas em até 1,5 milhão de reais promoveu uma no mês passado ao custo de “inacreditáveis 50.000 reais”.

“O bufê custou 6.000 reais, e ele me pediu prazo no cheque”, diz. “Eu não acreditei. Ele me ligou no celular e disse: `Renata, me dá 15 dias no cheque’!”

A empresária também promoveu adaptações no menu para enfrentar os tempos bicudos. Clientes que antes pediam cardápio na faixa dos 300 reais (sem incluir bebida), por pessoa, reduziram para 100 reais. “Era lagosta, caviar. Agora, vai de bacalhauzinho mesmo.”

Marcas de bebidas também foram substituídas a pedido dos clientes. Se antes anfitriões ofereciam aos convidados vinhos de 600 a 1.000 reais, agora querem rótulos na faixa dos 100 reais. “Tem gente aqui que havia anos só me pedia Dom Pérignon. Dependendo do evento, era Dom Pérignon safrado, a 5.000 reais a garrafa”, afirma.

Há seis meses, segundo ela, esse mesmo cliente promoveu um evento e escolheu um Dei Poeti, prosecco italiano a 120 reais a unidade. O cliente é, segundo Renata, um empresário poderoso na capital federal, com muitos amigos políticos. “Está tudo interligado em Brasília, né?”, afirma.

Quem mantinha uma agenda frequente de jantares na capital era Léo Pinheiro, da construtora OAS, preso no final de 2014 pela Lava-Jato. Pinheiro costumava promover os eventos em parceria com Carlos Augusto Borges, diretor de Participação Societária e de Investimentos do Funcef, o fundo de previdência dos funcionários da Caixa.

Borges e Pinheiro, que passou a cumprir prisão domiciliar por decisão do Supremo em abril do ano passado, foram presos em outubro na Operação Greenfield, que apura fraudes cometidas contra os quatro principais fundos de pensão do país, incluindo o Funcef. Dos convescotes promovidos pela dupla costumavam frequentar políticos, ministros de tribunais superiores e advogados.

 (Ilustração: Denis Freitas/VIP)

É corrente um comentário nos bastidores de Brasília: a Lava-Jato fez minguar o caixa 2, dinheiro em espécie que circulava fácil na cidade e rendia a alguns parlamentares de 15.000 a 30.000 reais mensais.

Valores que eram usados por eles para financiar hábitos de luxo: jantares que, numa só sentada, chegavam a custar cerca de 6.000 reais; paletós de alta-costura como os de Ricardo Almeida, em que as peças mais acessíveis giram em torno de 3 000 reais; cortes de cabelo que custam a partir de 150 reais em salões sofisticados — sem contar os gastos com tingimento e hidratação, tratamentos comuns nas altas rodas de Brasília.

A dinâmica na obtenção dos recursos é simples. Por intermédio de operadores ou lobistas, caciques partidários acertavam com donos e executivos de empreiteiras o pagamento de propina em troca de facilidades às empresas em negócios com o governo.

Valores eram transferidos e parte era distribuída aos correligionários dos caciques. Pagava-se pela fidelidade política. Não se pode afirmar que o “dinheiro não contabilizado”, como os corruptos gostam de chamá-lo, tenha sido extirpado do universo político com as investigações da Lava-Jato, mas a apuração conduzida a partir do Paraná certamente inibiu sua circulação.

A desconfiança anda solta em Brasília. São relações muito intrincadas, como diz a empresária Renata La Porta Todde. Há uma expectativa sobre quem vai ser a bola da vez. Um advogado criminalista relata que foi recentemente jantar na casa de um ministro do Superior Tribunal de Justiça, no Lago Sul, bairro nobre da capital.

Era um evento para pouquíssimas pessoas, todas conhecidas. Ainda assim, ele foi convidado a deixar o celular no hall de entrada. Ganhou até apelido esse tipo de evento na cidade: “jantar da mordaça”.

Os garçons não podem permanecer no mesmo ambiente enquanto os convidados confabulam. Ficam de fora, são chamados num determinado momento para servir os pratos e saem imediatamente.

Autoridades têm tomado muito cuidado quando o assunto é aparelhos eletrônicos. Ministros do Superior Tribunal de Justiça e conselheiros do Conselho Nacional de Justiça foram convidados a entrar sem os aparelhos celulares no Gabinete da Presidência do Supremo Tribunal Federal quando lá estiveram para audiência com a ministra Cármen Lúcia.

Os telefones ficaram depositados numa antessala do gabinete. De acordo com a assessoria da presidente da Corte, esse é um procedimento adotado por ela antes mesmo de assumir o cargo.

Do lado de fora dos gabinetes, para evitar exposição, autoridades têm reforçado adegas em suas residências e ampliado áreas de churrasqueiras.

No caso de deputados e senadores, os apartamentos funcionais têm sido usados com frequência como ponto de encontro de grupos de congressistas, locais em que eles podem ficar mais à vontade para conversar, articular estratégias, comer e beber, longe dos holofotes.

Um dos anfitriões mais regulares é Waldir Maranhão, do PMDB, vice-presidente da Câmara que presidiu a casa interinamente quando Eduardo Cunha foi afastado.

Bares e restaurantes menos conhecidos na cidade, sem tradição como reduto de políticos, têm sido também uma alternativa. Um deles é o Chicago Prime, apelidado de Espetinho, especializado em carnes e sem qualquer pompa, localizado bem próximo aos edifícios de apartamentos funcionais da Câmara, a poucos quilômetros do Congresso.

O Chicago conquistou adeptos rapidamente. Um dos clientes do lugar é o deputado Eduardo da Fonte, do PP de Pernambuco, investigado na Lava-Jato. Outro avistado ali foi Paulo Bernardo, ex-ministro das Comunicações do governo Lula, marido da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), ambos investigados pela Polícia Federal.

 (Ilustração: Denis Freitas/VIP)

“Foi no boca a boca”, afirma Elismar Antonio da Costa, gerente do Chicago, quando perguntado sobre a fama repentina do local entre os políticos. Nas noites de segunda a quarta, é possível flagrar mesas que reúnem seis, oito deputados no lugar Alguns chegam ali sem paletó, com as mangas da camisa arregaçadas.

Misturam-se entre os demais clientes. Muitos representantes do povo não querem ser reconhecidos nas ruas como tais. Deputados aboliram o broche de lapela, insígnia que os identifica como parlamentares. É o medo da hostilidade nas ruas.

Nem sempre foi assim. Em Brasília, há casos célebres de políticos e empresários que não demonstraram a menor preocupação em se expor diante de escândalos.

Pouco depois de ter o mandato cassado em 2.000, o ex-senador Luiz Estevão celebrou os 15 anos da filha Cleucy nos jardins de sua mansão no Lago Sul. A festança para 2 mil convidados foi embalada ao som da banda Chiclete com Banana. A aniversariante usou um Gianni Versace. Em valores atuais, a festa custaria cerca de 1,7 milhão de reais.

Famoso por promover grandes baladas, Estevão está preso desde março de 2016 no Complexo Penitenciário da Papuda por desvio de verbas destinadas à construção do TRT de São Paulo. A VIP procurou a socialite Cleucy Oliveira, mulher de Estevão, para que contasse da vida social na Corte. “Não é o momento de falar”, disse.

Gravado em vídeo pagando propina a Durval Barbosa, acusado pelo Ministério Público de operar o esquema que envolvia o ex-governador de Brasília José Roberto Arruda, o empresário José Celso Gontijo, dono de construtora renomada na capital, nem se importou com a imagem desgastada.

Na época, Gontijo torrou cerca de 10 milhões de reais para celebrar o casamento da filha caçula. Foi uma festa para 1.700 convidados, com direito a uma estrutura de 2 mil metros quadrados inspirada no Palácio de Versalhes, projetada por um famoso arquiteto e erguida apenas para a ocasião.

Hoje os tempos são outros. Em junho passado, a jornalista Cláudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha, cassado por mentir a seus pares sobre contas bancárias mantidas na Suíça, foi vista passeando no Shopping Iguatemi em meio à votação do processo que interrompeu o mandato do marido.

Ela foi fotografada por um cliente quando andava na ala onde estão as grifes internacionais como Louis Vuitton. A foto ganhou as redes sociais e certamente chegou ao conhecimento dos investigadores da Lava-Jato.

Enquanto a discrição virou regra em Brasília, uma classe de profissionais desfruta de uma fausta vida: os advogados. Na capital federal estão instalados grandes bancas. Atuam criminalistas, tributaristas, constitucionalistas, incluin-do ex-ministros de tribunais superiores.

O volume de trabalho tem crescido com o cerco da Lava-Jato. Ministros, deputados e senadores respondem a acusações criminais somente no Supremo Tribunal Federal. É o foro privilegiado.

Existem parlamentares que enfrentam duas, três, cinco acusações. Contra o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), são quase dez. A despesa com advogados para alguns está na casa das centenas de milhares de reais ou até milhões.

Principalmente se o contratado tem a oferecer um diferencial ainda muito valioso, o acesso aos gabinetes dos ministros. A delação premiada de Marcelo Odebrecht e executivos da empreiteira promete dobrar o trabalho.

Natural, portanto, que o poder aquisitivo dos advogados que atuam em Brasília cresça no mesmo ritmo. E não só em razão da Lava-Jato.

Grandes escritórios foram mobilizados na cidade para atuar num imbróglio judicial que durou anos entre as famílias Odebrecht e Gradin, numa disputa societária avaliada em 1,6 bilhão de reais.

Tramita na capital o processo que julga a regularidade das contas da chapa Dilma-Temer nas eleições de 2014. É o maior caso já enfrentado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

 (Ilustração: Denis Freitas/VIP)

Existe uma safra de novos advogados na cidade que vem sendo elogiada no metiê e que tem assumido casos de grande repercussão. Um deles é Ticiano Figueiredo, do escritório encarregado de defender o ex-deputado Eduardo Cunha na Lava Jato.

Figueiredo tem chamado também a atenção pela presença em colunas sociais da cidade. Ele já abriu as portas de sua cobertura para oferecer jantar em homenagem a João Camargo, o alfaiate das celebridades locais. Foi também o anfitrião de um almoço que marcou a final de um campeonato de golfe.

Por telefone, numa semana atribulada em que se dividiu entre São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, Figueiredo conversou com a VIP. “Não tem ostentação”, afirmou o advogado, fazendo questão de frisar para a reportagem que estava a caminho de um boteco no Rio após o término de um dia de trabalho. “Mas não mudei meu padrão de vida. Como todo advogado criminalista, sempre fui um bom boêmio. Responsável.”

Figueiredo explica que o escritório em que atua recebeu forte impulso e pôde aumentar a clientela com a entrada na sociedade do colega Pedro Ivo Velloso, que atuava antes no time de Kakay. Aliás, quando o assunto é estilo de vida em Brasilia, Kakay é figura sempre a ser lembrada. Apreciar vinhos é um de seus hobbies. Mantém em sua mansão um espaço para 4 mil garrafas.

Os advogados Gustavo Severo, que atuou na campanha de Dilma em 2014, e Marcelo Ribeiro, contratado pela campanha do tucano Aécio Neves naquele mesmo ano, também mantêm adegas bem servidas em casa.

Emerson Dias conhece a fundo o mercado de vinhos em Brasília. Ele investiu na própria revendedora após trabalhar por 20 anos no Piantella. Conhece muitos políticos e advogados.

Viu filhos de políticos se tornarem advogados de sucesso. No restaurante, ele testemunhou clientes abrirem garrafas de vinhos de 10.000, 20.000 reais. É irredutível: não delata os clientes.

A VIP apurou que advogados se reúnem eventualmente para degustar vinhos na cidade. Um dos pontos de encontro é o restaurante Grand Cru, no Lago Sul, o bairro nobre da capital.

Há situações mais reservadas, em que a confraternização é regada a rótulos caríssimos, incluindo Château Lafite e Château Pétrus, este último, a depender da safra, pode custar 30.000 reais a garrafa. “É raro, mas acontece”, afirma o discretíssimo Dias.