Como atravessar a crise de meia-idade com dignidade

Essa temida fase da vida é inevitável. Mas o processo pode ser recompensador. Saiba como chegar ao final dessa jornada sem amarras

Porsche crise meia-idade

 (Pinterest/Reprodução)

A frase é da jornalista americana Sue Shellenbarger, que ganhou fama com sua coluna no Wall Street Journal sobre carreira e família: “A crise de meia-idade é um clichê — até que você a tenha”.

Ninguém distante dos 40 anos quer pensar no assunto. Ainda mais numa cultura como a nossa, na qual a juventude é tão valorizada.

O primeiro registro que se tem notícia do termo é do médico canadense Elliott Jaques.

Num estudo de 1965, ele definiu a falta de criatividade e as mudanças abruptas de estilo que compositores e artistas costumam enfrentar por volta dos 35 anos como “crise de meia-idade”.

É a fase em que o homem se depara com suas limitações, com a restrição de possibilidades, com a mortalidade. Mas é possível passar por esse período com dignidade.

Enfrentá-lo com bom humor já ajuda. No fim, pode ser bastante educativo.

 

Descubra se o momento chegou

Crise meia-idade

 (Bruno Miranda/Revista VIP)

“Meia-idade é quando você para de criticar os mais velhos e começa a criticar os mais novos”, afirmou o educador canadense Laurence Peter.

A crise pode bater aos 35 anos, aos 40, até aos 50. Reconhecer os sintomas é crucial para passar por cima dessa adolescência tardia.

Especialistas no assunto sugerem que você faça as seguintes perguntas a si mesmo: anda insatisfeito com sua vida e até onde ela o levou?

Está cada vez mais arrependido das coisas que não fez? Não para de se comparar a amigos mais bem-sucedidos?

Volta e meia sente uma enorme vontade de jogar algo para o alto (e não é só o smartphone)?

Tem pensando nisso tudo depois de doses e mais doses de uísque?

Se a resposta for sim para a maioria das questões é provável que essa fase tenha chegado.

 

Preciso me separar?

Talvez seja a primeira coisa que passe pela cabeça do homem nessa hora. Calma, muita calma.

Questionar seu momento não significa que você precise mudar completamente de vida. Pode ser, sim, que seu relacionamento tenha azedado.

Mas você vai precisar avaliar isso de fora.

E se a ideia (juvenil) seja resgatar os tempos de faculdade e se jogar na pista, tenha em mente que o tempo passou e provavelmente as mulheres não se jogarão aos seus pés como antes.

 

Ok, decidiu voltar à pista?

Crise meia-idade

A crise de meia-idade aconteceu durante ou gerou uma separação?

Com a experiência de quem passou por isso e recorreu a aplicativos de paquera como Tinder e Happn, o jornalista Ivan Martins avalia a experiência: “Se você tem os seus 40, 50 anos e não é o George Clooney, não vão chover interessadas.

Ainda assim, é legal para conhecer uma pessoa ou outra e polir a autoestima”.

Dono de um canal no YouTube com a ex-mulher, o Ex-Casados, no qual discute relacionamentos, e autor do livro Alguém Especial — Crônicas de Amor, Sexo & Outras Fatalidades, ele alerta que o importante é voltar à pista com elegância.  “Não vá dar em cima das amigas da sua filha ou da ex. E se ainda estiver machucado, espere a poeira baixar.”

Para quem se considera material pouco competitivo, Ivan ainda pondera: “No Brasil, os homens têm o privilégio de serem considerados atraentes até os 60 anos”.

 

Atenção na abordagem

Convém lembrar que o mundo mudou. “Mais livres e independentes, as mulheres hoje são mais difíceis de lidar e, ao mesmo tempo, mais fascinantes”, avalia Ivan Martins.

“Quem for a campo esperando encontrar alguém que se curva a tudo vai quebrar a cara.” Não é não, vale sempre lembrar.

 

5 filmes que falam de crise de meia-idade

Filmes meia-idade

 (Pinterest/Divulgação)

  • Beleza Americana (1999), de Sam Mendes
  • Manhattan (1979), de Woody Allen
  • Fellini Oito e Meio (1963), de Federico Fellini
  • Sideways: Entre Umas e Outras (2004), de Alexander Payne
  • T2 Trainspotting (2017), de Danny Boyle

 

A tentação das duas rodas

Moto Triumph

 (Triumph/Divulgação)

Comprar uma moto é um clichê da crise. Talvez nada remeta tanto à liberdade como o vento na cara, a estrada sob as pedaleiras, o cheiro da gasolina (alguém falou em clichê?).

Mas se o desejo é realizar um sonho de juventude, seja certeiro.

Não é preciso resgatar todos os investimentos para adquirir o modelo mais potente — até porque, para um motociclista iniciante, vai ser difícil se acostumar a 1.600 cavalos debaixo de suas pernas.

Escolha uma moto que faça sentido para você. Minimalista, com ar vintage, a Street Twin da Triumph, vendida a cerca de R$ 40 mil, é nossa sugestão.

Outros conselhos: não é preciso entrar para um motoclube, comprar todos os acessórios da Harley e adotar uma barba à la ZZ Top.

 

O adeus ao sedã

Existem sedãs e sedãs, a gente sabe. Mas se você não está dirigindo uma Mercedes Classe C 180, talvez seja a hora de repensar seu meio de transporte.

É o momento de investir num Porsche 911? Veja, se está dentro do seu orçamento, nós só podemos ficar com inveja.

O importante é refletir se o modelo combina com seu estilo de vida e não vai deixá-lo ressabiado toda hora que pegar no volante.

Afinal, não faz sentido ter um carro desses e mantê-lo na garagem.

Uma bela pedida pode ser um SUV compacto, destemido na estrada, compatível com o trânsito urbano.

Uma dica: o novo BMW X2, que alia o porte de um utilitário esportivo aos contornos charmosos de um cupê.

 

Conselho de amigo

Moto

 (Bruno Miranda/)

Não custa lembrar: tirar a habilitação para pilotar sobre duas rodas é um processo tão chato quanto ouvir o som de uma moto com o escapamento aberto.

 

5 discos que falam de crise de meia-idade

Cd crise de meia-idade

 (Pinterest/Divulgação)

Tug of War (1982), de Paul McCartney

New York (1989), de Lou Reed

Bone Machine (1992), de Tom Waits

All That You Can’t Leave Behind (2000), de U2

4:44 (2017), de Jay-Z

 

Rejuvenesça o figurino

Torcemos para que você já tenha peças boas em seu armário e precise só de um ajuste ou outro no visual. Aqui, dicas para cada perfil:

 

Clássico

Roupa meia-idade Blazer: Hugo Boss / Gravata: Hermès / Sapato: Louie / Relógio: Montblanc

Blazer: Hugo Boss / Gravata: Hermès / Sapato: Louie / Relógio: Montblanc (Montagem/Divulgação)

Look geral: “Se você usou costume a vida toda, comece a descombinar as peças e apostar em um blazer xadrez, bem mais informal”, sugere o alfaiate Bruno Colella, da BRNC Alfaiataria, que faz ternos sob medida.

No pescoço: deixe a gravata em casa sempre que for dispensável. Em situações mais formais, aposte nas de largura intermediária.

Nos pés: prefira mocassins de camurça e não esqueça de usá-los sem meias (ou com aquelas que realmente não podem ser vistas).

No pulso: um clássico é um clássico e vice-versa. Uma bela opção: Montblanc Heritage Spirit Automatic, que tem ponteiros em ouro rosa e chama atenção pelo algarismo romano aplicado no espaço das 12 horas. R$ 8,8 mil

Evite: sapatênis, híbrido em geral difícil de combinar com qualquer peça.

 

Casual

Roupa meia-idade Blazer: Aramis / Camiseta: Calvin Klein / Calça: Levi’s / Tênis: Lacoste / Echarpe: Diesel / Relógio: Tissot

Blazer: Aramis / Camiseta: Calvin Klein / Calça: Levi’s / Tênis: Lacoste / Echarpe: Diesel / Relógio: Tissot (Montagem/Divulgação)

Look geral: em situações mais formais, a dupla calça jeans e blazer, com ou sem estampa, é infalível. No lugar da camisa, uma camiseta neutra, até mesmo com a gola mais cavada.

No pescoço: também é o caso de deixar a gravata de lado. No frio, um cachecol pode ajudar a dar um toque de estilo.

Nos pés: sneakers de cano baixo são a melhor pedida.

No pulso: um modelo moderno de uma marca clássica, como o TISSOT PRS 516.

Evite: tênis de skate, a não ser que você ande de skate. Se bem que, a essa altura, seria o melhor esporte para você praticar?

 

Ousado

Roupa meia-idade Jaqueta: Armani Exchange / Camisa: Replay / Gravata: Dsquared² / Calça: Levi’s / Bota: Timberland / Relógio: Swatch

Jaqueta: Armani Exchange / Camisa: Replay / Gravata: Dsquared² / Calça: Levi’s / Bota: Timberland / Relógio: Swatch (Montagem/Divulgação)

Look geral: camisas com estampas mais chamativas combinadas com jaqueta e calça de sarja podem ser uma boa saída.

No pescoço: “Você tem tudo para investir numa gravata de crochê”, acredita Bruno Colella.

Nos pés: tanto sneakers de cano baixo como botas com personalidade.

No pulso: quer um modelo descontraído – ou melhor, vários modelos, para variar? Escolha um Swatch, ao mesmo tempo cool e acessível.

Evite: camisetas com frases edificantes ou das bandas que gostava quando era adolescente – a não ser que ache que possa ser comparado a um.

 

A salutar troca de barbeiro

Barbeiro meia-idade

 (Bruno Miranda/Revista VIP)

Resolvido o figurino, é hora de dar uma chance a um novo barbeiro.

Você corta o cabelo naquele mesmo lugar há anos e faz a barba em casa no automático, certo?

Visite sem medo uma dessas barbearias moderninhas que parecem brotar em todo canto, como a Corleone ou a Casa Murdock, ambas em São Paulo.

Elas dispõem de profissionais aptos tanto para sugerir um novo formato para os fios (se é que eles, para sua sorte, não o abandonaram nesse momento difícil) como o desenho de barba que combina melhor com cada tipo de rosto.

Fora que essas barbearias sempre oferecem uma cerveja boa e gelada, ao contrário do ranzinza barbeiro de sempre.

 

Os cuidados

Não basta ir ao barbeiro para ter uma barba maneira e abandoná-la à própria sorte.

É preciso cuidado: lavar com xampu específico, passar um hidratante diariamente e usar ceras para alinhar os fios.

 

3 Xampus para tirar aquele amarelado dos fios brancos

Xampu meia-idade

 (Pinterest/Divulgação)

  • Men, o Boticário — R$ 24,90
  • Grey L’Oréal Homme — R$ 70
  • Redken For Men Silver Charge — R$ 96

 

Beba melhor

Bebida meia-idade

 (Bruno Miranda/Revista VIP)

Por falar em cerveja, não precisamos lembrar: suas ressacas estão piores. BEM piores.

Significa que você precisa parar de beber? Não exatamente. Mas você pode beber com mais qualidade.

Passou da hora de trocar aquela pilsen morna por uma cerveja artesanal. Em vez de comprar todo o aparato para produzir seu próprio rótulo, projeto que provavelmente não vai sair do papel, por que não fazer um curso sobre o assunto no Instituto da Cerveja, ministrado em SP, BH e Porto Alegre (institutodacerveja.com.br)?

Assim você vira especialista e dá um upgrade nas suas escolhas. Sua área são os vinhos?

Não tem por que se matricular num custoso curso de sommelier. Aposte nas aulas livres de escolas como a Ciclo das Vinhas, em São Paulo, comandada pela jornalista Alexandra Corvo (alexandracorvo.com.br).

E tome nota se você insiste em pedir drinques insossos como caipisaquê de kiwi.

Se você acha que dá conta de aprimorar sozinho o paladar, compre uma garrafa de gim, uma de vermute doce e uma de Campari ou Amaro, misture uma parte de cada bebida com gelo e uma fatia de laranja e voilà: você tem em mãos um negroni.

Para casos extremos, recomendamos um dos cursos da Academia de Bartenders da Associação Brasileira de Sommeliers, em São Paulo.

 

12 ingredientes que não podem faltar para você ter um bom bar em casa

  1. Gim
  2. Vodca
  3. Cachaça
  4. Tequila
  5. Bourbon
  6. Uísque
  7. Vermute
  8. Campari
  9. Rum
  10. Bitter
  11. Mixers (não alcoólicos usados para diluir os coquetéis, como sucos, refrigerantes, xaropes etc.)
  12. Gaseificados (água tônica, club soda, ginger ale etc.)

 

As ferramentas básicas da coquetelaria

Coquetelaria meia-idade

 (Still/Divulgação)

Coqueteleira de Boston (Boston shaker): são dois copos que se encaixam, geralmente de inox, para bater os drinques.

Mixing glass (copo misturador): copo grande de vidro para preparar drinques mexidos, tipo martíni.

Dosador (jigger): necessário para drinques que utilizam doses exatas de insumos, como o negroni.

Coador (strainer ou julep): separa o líquido batido na coqueteleira dos bagaços de frutas.

Coquetelaria meia-idade

 (Still/Divulgação)

Colher bailarina (colher de bar): além de misturar os coquetéis, também serve como medida de açúcar.

Macerador (socador/pilão): usado para macerar as frutas e as ervas, dentro do copo ou na coqueteleira.

Descascador zester: utensílio para guarnições, como lasca da casca (zest) de limão ou laranja.

Faca: pequena, de preferência a de legumes.

 

Copos e taças

Copos meia-idade

 (Still/Divulgação)

  • Taça de martíni
  • Taça aquário
  • Copo highball
  • Copo on the rocks

 

Desenferrujar é preciso

Desnecessário listar as razões para intensificar ou voltar a praticar exercícios físicos.

Reconheça que você não vai completar duas maratonas em dois anos como aquele seu amigo do trabalho.

E nem precisa, certo? Procure uma atividade que seja de seu agrado de fato e só comece depois de se submeter a um check-up completo (sim, amigo, isso inclui o exame de próstata, para prevenir doenças como câncer na região).

E, já que estamos fazendo o papel da sua mãe, quando foi a última vez que você pisou no dentista?

 

Marcas na pele

Somos fãs de tatuagem, piercings e afins. Mas convenhamos: apostar nisso na meia-idade para quem sequer usou um brinco de pressão na adolescência vai parecer tão falso quanto uma nota de 4 reais.

Se você é um frequentador de estúdios de tatuagem de longa data, não precisa dos nossos conselhos.

 

As vantagens do sabático

Sabático meia-idade

 (Bruno Miranda/Revista VIP)

A sugestão é de Luiz Alberto Hanns, doutor em psicologia clínica e autor de livros como A Equação do Casamento — O Que Pode (Ou Não) Ser Mudado na Sua Relação: “Quem tem condições financeiras deveria tirar um período sabático na meia-idade.

Sair um pouco da rotina de trabalho é extremamente útil para quem está em conflito em razão da proximidade da velhice, da síndrome do ninho vazio ou da falta de interesse pela profissão”, afirma Hanns, que dá aulas na Casa do Saber. “Em geral, quem volta do sabático sabe que caminhos tomar em seguida.”

No mínimo você terá se divertido.

 

5 livros que tratam sobre a tal da crise

Livro meia-idade

 (Pinterest/Divulgação)

  • Alta Fidelidade (1995), de Nick Hornby
  • Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis
  • Mulheres (1978), de Charles Bukowski
  • Sábado (2005), de Ian McEwan
  • A Consciência de Zeno (1923), de Italo Svevo

 

A hora do divã

Divã meia-idade

 (Bruno Miranda/Revista VIP)

Por falta de tempo, preconceito ou desânimo em arcar com as salgadas sessões, você se negou a vida toda a fazer psicanálise ou outro tipo de terapia.

Agora as desculpas acabaram. “É a melhor época da vida para refletir sobre sua existência e suas angústias”, aconselha o jornalista Ivan Martins. “Canso de dizer para amigos na mesma situação: ‘Pare de ficar choramingando no bar e vai conversar com quem de fato pode ajudar você a virar a página’.”

O garçom e seus amigos do peito agradecem.

 

Risque do vocabulário

Todo mundo sabe o significado de palavras como trollar, crush, bugado, lacrei e mitou, que se proliferam no universo digital.

Mas não precisa sair repetindo para parecer mais jovem, combinado?

 

Está na crise?

Diz Luiz Alberto Hanns: “Segundo pesquisas, a taxa de satisfação a partir dos 50 anos é muito maior do que nos anos anteriores, quando estamos melhor de saúde, mas inseguros”.

O que equivale a lembrar o conselho de Nelson Rodrigues: jovens, envelheçam.

 

E, no final dessa jornada…

Corrida meia-idade

 (Bruno Miranda/Revista VIP)

Ampliar os horizontes e aprender coisas novas talvez seja a melhor maneira de se sentir vivo.

Logo, aproveite para se aventurar em outras áreas e desenvolver outros hobbies sem amarras.

Utilize esse período de questionamentos para ter certeza de suas escolhas, sejam elas novas ou antigas.

E celebre: se tudo sair conforme o script, você está apenas na metade da sua vida.

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