Como funciona na prática o mundo dos Sugar Daddies

Nossa repórter viveu seis meses como uma sugar baby e revelou na pele o que desejam homens maduros, bem-sucedidos, e mulheres que querem ser mimadas

Sugar Daddies

(sugardaddydatingguide/Reprodução)

“Loira, sorridente, seios grandes, lábios carnudos. As fotos do meu perfil são verdadeiras.” No texto, explico: sou uma garota de família e procuro uma boa companhia, um homem carinhoso para namorar e me apoiar financeiramente.

Mariana de Lisboa é meu pseudônimo em um site de relacionamentos brasileiro que promete conectar homens maduros com boa situação financeira a mulheres jovens e disponíveis que querem ser mimadas. Eu estou na rede dos sugar daddies. Eu posso ser sua sugar baby.

Fiz o registro no site por indicação de uma amiga. Eu havia acabado de me separar e estava em uma situação financeira delicada. Mandava dezenas de e-mails por dia procurando emprego, telefonava, marcava reuniões e a resposta era sempre a mesma: “Seu currículo é muito bom, mas não estamos contratando”.

Eu era uma mãe divorciada em um Brasil em crise e não tinha nenhuma perspectiva de como poderia ganhar dinheiro. Enquanto isso, as contas sabiam meu endereço e chegavam diariamente.

Assim eu fui fisgada pelo sonho de encontrar um parceiro maduro, que pudesse me amparar e me apoiar em todos os sentidos. O cadastro para as sugar babies é gratuito. Eu não teria nada a perder e, quem sabe, poderia conhecer alguém para me ajudar com as despesas e até mesmo me apaixonar?

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Criei meu perfil em dois sites. Escolhi o nome de Mariana de Lisboa e publiquei fotos que valorizassem meus pontos fortes, mas nada de nudes. Nesses sites você pode ter fotos públicas e privadas. As fotos públicas podem ser vistas por todos os usuários cadastrados. As privadas, apenas por quem você permitir.

Para quem eu permitiria acesso ao meu lado mais secreto? Pela ferramenta de busca a sugar baby pode escolher seu daddy pela situação financeira (os homens declaram sua renda mensal e seu patrimônio), pela localidade, pelo status (on-line ou off-line)… Mas, vale dizer, os daddies declaram sua renda e patrimônio sem obrigação de comprovar os dados.

Há também muitos perfis de daddies sem fotos e muitos são casados e contam já ter vivido relações extraconjugais através desses sites, que são mais desconhecidos que Tinder e Happn.

Poucas horas depois de criar minha conta, comecei a receber avisos por e-mail de que meu perfil havia sido visitado ou que havia mensagens em minha caixa de entrada do site. O primeiro dos quatro homens com quem troquei mensagens, Davi, era bem mais jovem do que eu esperava. Tinha 30 e poucos anos, era empresário, casado.

Ele elogiou minha boca, mas queria mesmo era saber dos meus pés. Perguntou quanto eu calçava. “Trinta e seis”, respondi. Ele gostou e insistiu no assunto dos pés. Percebi que era um fetiche. “Você gosta de usar tênis sem meia e ficar com o pé suado?”, foi a pergunta seguinte. Eu devolvi: “Você tem fetiche por chulé?”. Ele admitiu. Eu não queria julgá-lo por suas fantasias, mas confesso que fiquei um pouco assustada e parei de responder suas mensagens.

Mesmo para uma mulher moderna e sem preconceitos, um dos maiores dilemas é assumir que você é uma sugar baby. O segundo pretendente a daddy com quem me correspondi, Ricardo, um homem moreno, barbudo e alto, me escreveu: “Dá para notar que você é diferente da maioria das garotas daqui”.

“Aqui tem muita garota de programa.” As conversas geralmente começam no site, mas rapidamente migram para as redes sociais. Passei então a falar com Ricardo por WhatsApp. Ele me contou que era novo no site e que ainda não havia conhecido uma sugar baby como gostaria. “Na primeira troca de mensagens, as garotas já anunciam quanto custa o encontro. Não é isso que estou procurando.”

Ricardo gosta de cavalos, tem um haras, é divorciado e tem duas filhas adolescentes. Ele perguntou minha profissão e eu disse que era massagista (sim, fiz um curso profissional de massagem ayurvédica).

Ele questionou o que eu queria para ser sua sugar baby. Eu não sabia o que responder. Quanto? Como? Será que eu queria mesmo ser sua baby? Será que eu teria coragem de ser uma sugar? Combinamos que nosso primeiro encontro seria em sua casa, no Jardim Europa, bairro nobre de São Paulo, para uma sessão de massagem por 250 reais.

Eu já havia stalkeado a vida do Ricardo nas redes sociais e vi que ele parecia ser um bom pai e um homem íntegro. Fui até sua residência no dia e horário combinado.

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O atendimento seria no quarto de hóspedes da casa. Eu estava apreensiva: “Será que ele vai me assediar?”. Ricardo foi discreto e elegante, mas não me senti atraída por ele.

Fiz a massagem como faria em qualquer outro cliente. Ao final, ele me agradeceu, me pagou em dinheiro e nos despedimos. “Não tentou nada, será que não gostou de mim?”, pensei.

Passamos a nos seguir nas redes sociais e continuamos conversando por WhatsApp, mas nunca mais nos encontramos. Alguns meses depois, resolvi perguntar por que ele não havia me feito uma proposta para ser sua sugar baby. Ricardo me contou que, depois de uma história com uma garota de Uberlândia, desistiu da ideia de ser daddy. “Pagava tudo para ela, acabou desvirtuando. Não quero ter que sustentar ninguém.”

Para Ricardo, a relação daddy-baby havia sido uma experiência frustrante. Ele cancelou seu cadastro no site. Enquanto as babies têm acesso gratuito, os homens pagam em média 200 reais por mês pela assinatura.

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Mais tarde, conversando com outro pretendente a daddy, descobri que há perfis que são administrados por dois ou mais amigos que dividem o valor da mensalidade para economizar e ter acesso ao banco de sugar babies.

E quem são essas sugar babies? Qual é o perfil das garotas que você pode conhecer em um site desses? Garotas de programa, sim, mas também novinhas da periferia, universitárias e mulheres maduras como eu.

Comecei a trocar mensagens com Guto, um advogado que mora no Jabaquara. Ele me contou que teve, por dois anos, duas sugar babies. Elas eram amigas, jovens universitárias que moravam juntas. Ele pagava 1,5 mil reais por mês para cada uma e ainda dava mimos e presentes para que saíssem e viajassem juntos, os três.

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Por que o relacionamento com elas havia acabado? “Elas tinham um sonho de estudar na Califórnia e eu combinei que daria essa viagem a elas depois de dois anos juntos. Agora, elas estão lá e eu estou à procura de outra sugar baby.”

Guto tinha uma namorada, que, claro, não conhecia seu lado sugar daddy. Ele me mandava mensagens quase todos os dias pedindo para nos encontrarmos. Queria que nosso primeiro encontro fosse direto em um motel. Eu disse a ele que não me sentia à vontade para começar assim. Ele insistia. Mas, de fato, não era o que eu esperava.

Eu imaginava que uma sugar baby deveria ser cortejada e conquistada e que a ajuda financeira era a consequência de um relacionamento com um homem maduro. Parei de responder suas mensagens.

Afinal, qual é a regra? O que vale e o que não vale na relação sugar daddy-sugar baby? Qual a diferença entre uma sugar baby, uma prostituta e uma namorada? Isso ainda não estava claro para mim. Agora, eu estava trocando mensagens com três daddies.

Daniel, um jovem documentarista que havia acabado de terminar um longo relacionamento; Wolf, administrador de empresas com uma namorada que mora em outra cidade; e João, empresário do interior, casado, avô.

“Acho que todo mundo deve falar isso para você, mas achei seu sorriso lindo”, Daniel me escreveu. Ele era muito simpático e desenvolto e foi quem melhor me explicou o que é uma sugar baby. Daniel estava havia dois meses no site e já tinha se relacionado por alguns meses com uma sugar baby. Ela morava em Jundiaí, ele, em São Paulo.

Além da distância, a agenda dela não permitia que eles se encontrassem com a frequência que ele gostaria. Daniel gostou da experiência e estava procurando outra garota. Será que eu poderia ser sua sugar baby? Marcamos um encontro em um bar. Quando nos cumprimentamos, ele me olhou dos pés a cabeça e deu um sorriso de aprovação.

“Você é jovem, solteiro, poderia conhecer uma garota na balada, ficar, namorar… Por que, então, está procurando uma sugar baby?”, eu quis logo saber. “É uma relação mais transparente em que as pessoas entram em acordo sobre o que procuram.” E o que Daniel procurava? “Não é um relacionamento sério, casar, namorar, mas eu entendo que é um relacionamento, pessoas que saem com uma certa frequência. A baby é ajudada, e em contrapartida trata bem a pessoa que a ajuda. O sexo é uma consequência e a baby define quando e como vai acontecer.”

Conversamos mais e resolvi contar a ele que minha primeira motivação para ser uma sugar baby havia sido pessoal, mas minha verdadeira profissão era jornalista e eu estava pensando agora em escrever sobre o tema. Ele se assustou. Fui buscar um drinque e, quando voltei, Daniel havia fugido.

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Wolf procurava encontros casuais e pensava quase o mesmo que Daniel sobre o que é uma relação daddy-baby: “Se a garota transa com o cara pela grana, ela é prostituta. Se ela transa por gostar do cara e recebe alguma ajuda, ela é uma sugar baby”. Ele me propôs um primeiro encontro em um café.

Se houvesse afinidade entre nós, me pagaria 300 reais por saída, o mesmo que deu a outra sugar com quem teve dez encontros. O que seriam esses encontros? Para Wolf, poderia ser um jantar, um passeio no parque, e, claro, sexo.

De todos com quem conversei, João, um homem grisalho, casado há 28 anos, com três filhos e quatro netos, foi o que fez a melhor proposta financeira. Ele queria me pagar 500 reais por saída, em média quatro encontros por mês. Seu primeiro convite foi para nos vermos em um posto na estrada e, de lá, seguirmos para um motel.

Sem me conhecer, mandava mensagens de áudio dizendo querer beijar muito minha boca. Sua abordagem foi bem direta: “Sou casado, mas sempre traí minha mulher. Não sei o que acontece comigo, não consigo ser fiel. Saio com muitas mulheres”.

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João estava longe de ser o daddy dos meus sonhos, mas era um ótimo personagem para a matéria que eu agora estava decidida a escrever. Marcamos às 3 da tarde em um posto no km 53 da Rodovia Castelo Branco. Conversamos por quase duas horas. Ele me contou, sem pudores, suas aventuras sexuais extraconjugais e suas preferências na cama.

Ao final, pediu que eu fosse até seu carro para me beijar. Eu disse a ele que precisava ir embora, mas que nos encontraríamos novamente na semana seguinte. Ele acreditou e nos despedimos. Enquanto voltava, ainda na estrada, ele me enviava novas mensagens.

Eu não queria encontrá-lo novamente. Não era João, não era Daniel, não era Guto, não era Wolf, não era Pedro1957, nem o HomemRico64. Eu não senti desejo por nenhum dos homens com os quais troquei mensagens ou conheci.

A maioria deles, casados em busca de uma aventura. Além disso, muitos daddies tratam suas babies como garotas de programa, resumem a relação a encontros no motel e pagamento em dinheiro, na hora. E as promessas de uma vida de mimos, passeios, viagens, presentes? A maioria vai simplesmente oferecer dinheiro por encontro porque considera mais prático.

Em seis meses, descobri que o sonho de ser uma sugar baby não é tão doce quanto parece. Mas essa foi a minha experiência. Esse é um mundo sem leis. Quem joga é quem vai decidir as regras do jogo.

Comentários

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  1. Garota de programa agora mudou de nome, palhaçada isso.

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