Conheça o dono do M.Class, o maior classificado de sexo do país

Responsável pelo site de acompanhantes que movimenta milhões de reais anualmente vive uma vida de luxo - mas muito trabalho também

 

Perfil: o criador do M.Class

 (Fernando Saraiva/VIP)

* Reportagem originalmente publicada em fevereiro de 2013

“Eu não dou entrevistas pessoalmente nem por telefone.” Esta foi uma das condições impostas por Rodrigo H.S.S., 39 anos, para concordar em falar sobre o M.Class, o “site de classificados que oferece anúncios de acompanhantes”, segundo a descrição da própria página na web.

No ar há 16 anos, o site virou notícia em todo o país em 2011, com a impressionante brutalidade daquele que ficou conhecido como caso Yoki: o assassinato e o esquartejamento do empresário Marcos Kitano Matsunaga por sua mulher, ao descobrir que ele tinha outra. Matsunaga conheceu as duas, a esposa e a amante, no M.Class.

O escândalo, no entanto, não alterou a rotina do site, que continua com cerca de 300 mil acessos únicos por dia e se mantém como símbolo da prostituição de alto padrão na internet brasileira, com acompanhantes cuidadosamente selecionadas ocupando a página inicial e cobrando até o valor de um salário mínimo por um programa de uma hora de duração.

Rodrigo também condicionou a entrevista à não publicação do seu nome completo (“sou uma pessoa muito low-profile e não gostaria de me expor desnecessariamente”). Disse que só concordaria em responder a perguntas simples e que não informaria números de faturamento.

Se o empresário pareceu seco num primeiro contato, nos e-mails seguintes respondeu a muitas perguntas e deu números suficientes para, com alguns cálculos, especularmos sobre o faturamento atual do M.Class: cerca de R$ 6 milhões ao ano.

Em todos os e-mails enviados por Rodrigo à VIP, ele copiou seu advogado, Maurício Amato Filho. O empresário faz questão de frisar: “Somos apenas uma empresa de classificados e nunca nos envolvemos ou intermediamos as negociações entre os clientes e as acompanhantes”.

Atualmente, a lei no Brasil não considera a prostituição um crime, mas sim a exploração dela. E já está em debate no Congresso o projeto de lei que regulamenta a profissão. “Eu diria que 60% da população masculina do Congresso Nacional faz uso dos serviços das prostitutas”, disse em entrevista aos jornais o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), autor do projeto.

“O fato de eu ser tão cuidadoso com a lei, muito profissional e cheio de restrições é o motivo de a minha empresa conseguir permanecer no topo há mais de 15 anos nesse ramo de classificados”, afirma Rodrigo. Seu advogado confirma: “Cuidamos da rotina empresarial e não há questões de maior complexidade jurídica”.

Formado em Comunicação Visual pela Faap, de São Paulo, ele teve a ideia de iniciar o M.Class ao constatar uma demanda de mercado. Em 1997, lendo a seção de classificados de um jornal paulistano, ele imaginou como se ria a mesma seção na internet, com fotos, vídeos e mais informações que não caberiam no formato preto no branco e cheio de siglas perigosamente vagas dos anúncios de acompanhantes de um veículo impresso.

O M.Class foi assim, segundo ele, o primeiro site do gênero no Brasil. No ano seguinte ao da estreia, já registrava cerca de 20 mil acessos únicos diários. Em 2000, foi gerado o sistema de assinaturas que, um ano depois, contava com 5 mil membros. Hoje, esse número triplicou. O preço atual da assinatura é de R$ 34,90 por mês.

Um assinante tem acesso aos extensos ensaios fotográficos e a vídeos das acompanhantes. Pode consultar também informações aparentemente triviais, mas que de vem fazer uma bela diferença para quem procura esse tipo de serviço.

Por exemplo: um cliente mais exigente pode buscar uma jovem capricorniana, de estatura mediana e cabelos castanhos, fumante, sem silicone, porém com seios avantajados, magra, tatua da, sem piercing, de olhos verdes e que fale francês e inglês.

Para as acompanhantes, divulgar esse excesso de detalhes e ter a foto exposta na página inicial do M.Class é um investimento alto. Trata-se, aliás, da maior fonte de renda do site. Para aparecer na página inicial, as garotas pagam semanalmente de R$ 500 a R$ 1.300, dependendo do posicionamento e tamanho da foto na página.

As que não pagam, mas mesmo assim desejam anunciar no site, vão para a seção de “Acompanhantes”, que fica a pelo menos dois cliques de distância da página inicial. Lá, o anúncio é gratuito, porém elas precisam pagar o ensaio fotográfico.

Ao contrário de outros sites semelhantes, o M.Class não permite que as anunciantes publiquem suas próprias fotos. Os ensaios são feitos num estúdio em Alphaville, bairro nobre da região metropolitana de São Paulo. O fotógrafo? É o próprio Rodrigo.

Chefe e funcionário-padrão

De posse de um negócio milionário, Rodrigo leva, obviamente, uma vida condizente com isso. É casado com uma advogada, mora numa “grande e confortável” casa, também localizada em Alphaville, onde gosta de receber os amigos para partidas de pôquer.

Frequenta bons restaurantes e viaja bastante. Passa quatro meses por ano em Miami. Não dá bola para futebol. Gosta mesmo é de correr de carro em track days (eventos onde pistas são isoladas para que motoristas acelerem seus veículos até onde aguentarem) e é membro do Porsche Club Brasil.

Não que leve a vida na flauta, pelo contrário. Mesmo sendo dono do negócio, Rodrigo cuida diretamente de todas as muitas etapas necessárias para que uma jovem que queira se tornar acompanhante de alto padrão consiga se expor no M.Class.

Em primeiro lugar, ele é responsável pela triagem das moças que querem anunciar. Afirma receber dez novas inscrições de mulheres por dia, das quais apenas uma é aprovada. E a requerente ainda precisa esperar um prazo de um a dois meses para finalmente ver suas imagens e contatos expostos no site.

O rigor na seleção se deve ao objetivo de manter o status do site. “A maioria das acompanhantes que anunciam no M.Class é de mulheres de bem com a vida, cursando faculdade, com excelente nível e objetivos bem claros”, afirma Rodrigo.

E o perfil dos clientes? Rodrigo diz não ter contato com eles. Pelo que ouve da boca das próprias anunciantes, são homens, em geral, casados, de alto poder aquisitivo, que buscam não só a experiência sexual, mas muitas vezes também uma companhia para eventos sociais, como jantares, casamentos, viagens de negócios e até mesmo confraternizações de empresas.

Após analisar as fotos que as pretendentes enviam, Rodrigo seleciona as aprovadas, que precisarão comprovar ser maior de idade e assinar os contratos de direitos de uso de imagem e de autorização para divulgação do anúncio.

A obrigatoriedade dos contratos é o motivo pelo qual o M.Class só divulga acompanhantes de São Paulo. Mas, não raro, clientes de outros estados pagam as passagens para receber atendimento longe e em domicílio.

Acertada a papelada, Rodrigo marca o ensaio fotográfico das jovens em seu estúdio ou em estúdios parceiros. Na sua equipe trabalham uma maquiadora, uma cabeleireira, uma produtora de moda, uma assistente de luz e um câmera para fazer os vídeos.

Perfil: o criador do M.Class

 (Fernando Saraiva/VIP)

Além do M.Class, Rodrigo investe em outros negócios ligados ao mercado de luxo (como um site dedicado a produtos de marcas caras) e a classificados de carros. Mas a maior parte dos seus negócios paralelos é do segmento adulto, fazendo concorrência direta ao M.Class, porém quase sempre com algumas características diferentes.

Como o site Sex Dreams, que também só aceita acompanhantes de São Paulo, porém cobra dos clientes uma assinatura mais barata. Há ainda o fórum Arquivo GP, para acompanhantes e clientes trocarem informações sobre “boates, clubes privês, clubes de swing e muito mais”; e o Web Models, que possui abrangência nacional e no qual quem anuncia é responsável pela sua publicidade.

Quanto a investimentos feitos no próprio M.Class, é fácil notar que não se gasta muito para melhorar a estética do site. Há mais de uma década e meia no ar, ele ainda tem um layout firme na internet 1.0.

Rodrigo afirma que as principais mudanças ao longo desses anos foram mais de cunho tecnológico: atualização constante do sistema, ampliação da qualidade de fotos e vídeos e versões compatíveis com os dispositivos móveis.

Home office

Esse detalhe de design não parece incomodar nem os visitantes nem as anunciantes. Depois que a “propaganda” vai para o ar, o alto investimento feito pelas garotas mostra retorno imediato.

Conversamos com uma delas, Manuela (27 anos na vida real, 25 no M.Class), anunciante há cinco anos. Do interior de São Paulo, veio à capital com o proverbial “tentar uma vida melhor”. Logo quando chegou, conseguiu emprego em uma casa de massagens.

Como não gostava de cumprir horário, Manuela ou viu os conselhos de uma amiga, que mostrou a ela alguns sites de acompanhantes, dizendo que ela poderia optar por uma profissão “home office”, sem horários pré-estabelecidos e com uma remuneração que ela mesma poderia estipular. “Olhei os sites e escolhi o M.Class porque tinha mais o perfil que eu procurava, as fotos eram de muito bom gosto.”

Entrou em contato e recebeu as instruções de sempre. Foi aprovada. No início, Manuela costumava atender a até cinco clientes por dia. Com a experiência, aprendeu a ser mais seletiva e aumentou o seu passe: hoje cobra R$ 600.

Manuela, que cursa o quarto ano de psicologia, diz que entrou no negócio de acompanhantes para fazer um bom pé-de-meia. Pretende parar com a profissão em dois anos e virar psicóloga. Afirma que as conversas com os clientes servem mais como treinamento do que qualquer estágio na área (“que não paga bem”).

Além de ficar mais seletiva, ela também não faz mais “festinhas”. Aprendeu que, quando dez caras chamam dez acompanhantes, ninguém pré-estabelece tempo ou o que exatamente cada uma tem de fazer. Afirma que o melhor da profissão são as viagens.

“Nunca pensei que eu, uma menina do interior, iria ver a Copa do Mundo da África do Sul, levada por um cliente”, orgulha-se ela, que também já foi a Nova York, Miami e Veneza – esta última, para um casamento que lhe rendeu R$ 15 mil numa semana.

Do pouco que escuta das acompanhantes, Rodrigo confirma que é comum que elas sejam chamadas para eventos como Copa do Mundo ou Fórmula 1 por clientes que não querem ir só.

E o que muda se o projeto de Jean Wyllys for aprovado? Diz Rodrigo: “Não mudaria nada, pois somos apenas um classificados de acompanhantes para eventos, feiras, jantares etc., não somos uma empresa de profissionais do sexo”.